Contra a sociedade de massas

Por Chris Wilson

A anarquia é um estado de existência livre da autoridade coercitiva, onde cada um estaria em liberdade para fazer as escolhas de sua própria vida, à imagem de suas próprias necessidades, valores e desejos individuais. sem permitir que seu campo de ação atinja a vida daqueles que não escolhessem assim.

Um mundo não autoritário consequentemente levaria a liberdade de associação, portanto é incompatível com monarquias, oligarquias e democracias. Muitos que chamam a si mesmo "anarquistas", ainda que afirmam não negar a importância da livre associação, lutam por uma sociedade mais democrática onde as entidades corporativas e estatais sejam municipalidades controladas pela comunidade, federações industriais controlada pelos trabalhadores, e assim sucessivamente.
Aqueles que desejam viver livremente segundo suas próprias vontades tem razões para se sentir ameaçados por qualquer organização em grande escala, porque são tão imperialistas como hierárquicas. Mesmo que pretendam ser ou denominar-se "democráticas" (como se a subordinação do indivíduo fosse algo desejável)


Os humanos são sociáveis por natureza - poucos desejam viver sozinhos como ermitãos (e a liberdade de se viver assim não se pode negar). Contudo, os humanos também são socialmente seletivos - não se convive com todo mundo, e seria uma opressão esperar que assim fosse. De forma natural, pessoas estabelecem relações com aqueles que se identificam por afinidades e a apoio mútuo. Tal foi ao longo da historia humana. Só na história recente as pessoas entraram numa organização de massas compostas por membros que não necessariamente se conhecem ou simpatizam uns com os outros. Tal organização em massa não surgiu devido a uma necessidade de sobrevivência. Durante mais de 99% da história humana, desfrutávamos de associações livres face a face dentro dos acordos das familiaridades estendidas, e algumas culturas continuam com essa prática.
Aqueles que não mantêm uma boa relação com sua tribo ou grupo são livres para buscar companhia em outras partes ou para viver a sós. Este modo de associação funciona bem - os membros de pequenas sociedades auto-suficientes normalmente gastam de 2 a 4 horas por dia em atividade de subsistência. mesmo que ocasionalmente passam por escassez, habitualmente comem em abundância, e desfrutam de um tempo de laser muito mais amplo do que aqueles que vivem numa sociedade de massas. As culturas indígenas que ainda permanecem intactas hoje em dia preferem seu tradicional estilo de vida, e muitas estão protagonizando uma impressionante resistência política contra corporações e governos que querem força-los a fazer parte da sociedade de massas para que suas terras e  seu trabalho possam ser explorados. Pessoas raramente entram em organização em massa sem serem coagidas, ja que isto rouba sua autonomia e independência.

O surgimento da civilização foi baseado na compulsiva produção em massa. Quando certas sociedades começaram a valorizar sua produção agrícola sobre os demais, para esse propósito, submeteram a força todas as formas de vida dentro da extensão de suas cidades. As comunidades de pessoas que desejavam caçar , pescar, vagar, cultivar, ou pastorear pelas terras por subsistência seriam exterminadas ou escravizadas, e os ecossistemas que habitavam foram transformados em terra de cultivo para alimentar as cidades. somente aqueles que estavam totalmente dedicados ao cultivo e a produção animal foram permitidos nos campos arredores. Os que viviam nas cidades eram prisioneiros , comerciantes , ou funcionários públicos ocupados em tarefas administrativas e de controle social. A organização social passou a ser mais complexa, tecnologicamente avançada, e ampla em seu avanço através dos séculos desde de o início da civilização no "crescente fértil" no Oriente Médio. No entanto, a vida não humana ainda é sacrificada e eliminada para uso humano (e cada vez a uma maior velocidade), e os humanos ainda são forçados a viver como servos dessa cultura e de suas instituições dominantes como um pré-requisito para continuar existindo.
A sobrevivência por meios diretos esta proibida - para habitar uma terra, deve-se pagar aluguel ou hipotecas. O que requer uma dedicação para atingir um posição econômica na sociedade, deixando tempo insuficiente para caça ou cultivo ( e muito menos tempo de lazer para acompanhar ), a educação pública contribui para garantir que pouca gente seja capaz de aprender a sobreviver com independência da economia.

O capitalismo é a atual manifestação dominante da civilização. A economia sob o capitalismo está em grande parte dirigida por organizações que contam com a aprovação do Estado, as chamadas corporações, que possuem o mesmo status legal que os indivíduos, consequentemente protegendo e limitando a responsabilidades de seus participantes.
As corporações existem para o propósito de beneficiar seus acionistas - os contratados pelas corporações são legalmente requeridos para procurar proveitos sobre todas as possíveis preocupações ( sustentabilidade ecológica, trabalho seguro, saúde da comunidade etc.) e podem ser despedidos, processados se fazem ao contrario.
O capitalismo deixa muito pouco espaço para que a vida não humana floresça de um modo não servil ( isto é, em ecossistemas selvagens, no lugar de celeiros, gaiolas), e quase nenhum lugar para os indivíduos que não queiram gastar suas vidas trabalhando sem parar para a desnecessária e interminável produção de mercadorias. A maiorias das pessoas passam quase todo seu tempo ocupados num trabalho sem sentido, monótono, regimentado e na maioria das vezes fisicamente e mentalmente prejudicial, para pagar suas contas, necessidades financeiras, porque não sabem que poderia ser diferente. Devido a idiotização, alienação e impotência que as pessoas experimentam durante o curso da vida cotidiana, a nossa cultura exibe altos índices de depressão, doenças mentais, suicídio, uso de drogas, relações desequilibradas e baseadas no abuso, junto com numerosos modos indiretos de vivências (p. ex., televisão, filmes, pornografia, vídeo games, etc).

A civilização foi a gene do autoritarismo sistemático, da servidão obrigatória e do isolamento social, não o capitalismo por si só. Neste contexto e perspectiva, os diversos socialistas, comunistas, e a ampla variedade de anarco-esquerdistas (sindicalistas, ecologistas sociais, etc) que pretendem abolir o capitalismo, sem atacar a civilização como um todo, são simplesmente reformistas. A complexidade social que é a civilização só é possível devido a coerção institucionalizada. Os grupos políticos mencionados não desejam acabar com a coerção, desejam democratizá-la - isto é, ampliar a participação popular em sua aplicação.

Aparte do repulsivo encorajamento de pessoas a participarem de atos opressivos, é preciso ressaltar que a democracia direta é uma ficção dentro do contexto da sociedade de massas. Numa associação que se expande a uma escala maior do que é possível para a relação face a face dos seus participantes, a delegação de responsabilidades em representantes e especialistas vem a ser necessárias para que se leve a cabo os interesses da associação. Mesmo que o consenso ou o voto da maioria determine quem se escolhe para participar na tomada de decisões ou nas responsabilidades administrativas, os escolhidos nunca estão sobre o controle do eleitor quando atuam cumprindo com seus deveres. Um mandato rigoroso sobre as decisões ou o comportamento dos delegados ou especialistas, implicaria numa supervisão constante pelo conjunto do grupo, o que frustraria o propósito de uma divisão de trabalho. A possibilidade de convocação imediata destes delegados também dependem da possibilidade de tal controle. Adicionalmente , os delegados escolhidos recebem mais tempo e recursos para preparar e apresentar suas visões e argumentos que uma pessoa comum, o que proporcionaria portanto uma grande vantagem de levar adiante sua posição pelo meio da manipulação propagandista e do descontentamento. Mesmo se um grupo, no seu conjunto, determina todas as políticas e procedimentos ( o que por si é impossível quando é necessário conhecimento especializado), e os delegados apenas cumprem suas obrigações por pressão, ainda podem atuar segundo sua própria vontade quando não estão de acordo com as normas e estão seguros de estarem a salvos de punição por ignora-las. A democracia é necessariamente representativa, não direta quando se pratica em grande escala - e a democracia representativa é precisamente o tipo de sistema político praticado atualmente.
A abolição da hierarquia requer o destituição permanente de governos e lideres, eleitos ou não, e portanto requer que se rejeite a sociedade de massas.

Devido as organizações em massa valorizarem a produção mais que a autonomia pessoal e comunitária, são necessariamente imperialistas em seu alcance , destruindo ou escravizando toda a vida que encontra pela sua frente , de qualquer forma , a produção não é um valor irrelevante ou opcional que a sociedade de massas possa dispensar e continuar existindo.
Se as cidades não são auto-suficientes na produção de sua própria comida , ocuparão as áreas circundantes para uso agrícola, tornando-as estéreis tanto para os ecossistemas como para as comunidades humanas auto suficientes. Esta área ira se expandir em relação a qualquer incremento da população ou da especialização do trabalho que a cidade experimente. Alguém poderia argumentar que a produção industrial poderia ser mantida, enquanto ao mesmo tempo fosse reduzida consideravelmente, deixando então um espaço parar ecossistemas e as pessoas "não industriais" coexistirem. Primeiramente , esta proposta levanta a questão de porque a civilização industrial deveria ter prioridade sobre as outras formas de vida, permitindo a civilização e aqueles que controlam ditar aos não participantes exatamente o quanto eles devem ocupar. Também é questionável se realmente é possível para uma sociedade atingir um balanço entre a opulência "high tech" e a sustentabilidade ecológica sem desfazer grandes sessões da população trabalhadora ou empregando um esquema social engenhoso e autoritário.
A complexidade estrutural e hierárquica da civilização deve ser negada, juntamente com o imperialismo político e ecológico que se propaga pelo mundo.
Não é possível para 6 bilhões de habitantes do planeta sobreviverem como coletores-caçadores, mas é possível para aqueles que não podem, cultivar a própria comida em lugares menores (comparado ao tamanho dos campos envenenados e esgotados das fazendas de agronegócio de hoje), como tem sido demonstrado através da permacultura, agricultura orgânica e técnicas de horticultura indígena.
Aparatos gerências e instituições de controle social são necessários para administrar a produção e troca de produtos em uma economia baseada na divisão de trabalho, mas não são necessários quando indivíduos e comunidades pequenas tem controle sobre o que produzem. O papel da hierarquia e do regimento só desaparecerá quando as pessoas novamente começarem a cuidar de suas necessidades diretamente através de uma relação imediata com a terra.
A paisagem viva só será preservada e restaurada ao seu estado natural quando as ferramentas de produção em massa não mais operarem.
A anarquia e a autonomia só reinaram quando as pessoas reaprenderem a como sobreviver independentemente do câncer que é a civilização industrial, e por fim destruí-la.


Chris Wilson

Anti Copyright, 2001.
chrswlsn@yahoo.com

Tradução: coletivo erva daninha – iniciativa anarquista-verde