Acende a fogueira e não deixe apagar
(comentários sobre as revoltas na França entre 2005-2006)

Não creio que uma revolução esteja acontecendo na França, e em potencial na Europa (não é este o ponto  e sim a  revolta), mas objetivos e alvos os insurgentes têm, o Estado (escolas, prédios públicos, carros de bombeiros, policiais ,ônibus) e o que representa o capital (carros, lojas, bancos), e não parece que eles tenham uma alternativa para oferecer ( o que também não é o ponto), mas se depender da espontaneidade, darão uma ótima resposta, basta notar como a rebelião tem força e não precisa de uma "organização" nem uma proposta de "como se rebelar".

De modo algum vejo a manifestação dos franceses como algo vazio, alias, eles não desobedecem e enfrentam somente o Estado, ignoram até mesmo representantes religiosos que no caso "deveriam" exercer uma certa autoridade entre os descendentes de mulçumanos. Mas esses que atiram fogo em tudo , não acreditam e não dão mais ouvidos a nenhum líder , a resposta pra eles é  destruir tudo que representa a origem de seu ódio: o Estado, o mercado e os lideres porta vozes.
Não precisam especializações políticas, pois pelas resposta que deram mostram que isso não é pré-requisito para revoltar-se e saber identificar o alvo, e que estão ai vivendo e sofrendo a sociedade atual. E não tiveram que pensar, nem estabelecer regras e táticas para dar o troco. A atitude foi tomada e as circunstancias, na pratica, moldaram as táticas.

"Tudo o que for do Estado, do governo ou de empresas vai ser queimado". Palavras de um dos jovens, para um jornalista da Folha de São Paulo (08/11)
E o que a França tem haver com o Brasil, acho que nada, talvez nas favelas encontremos alguma semelhança com a ausência de Estado no seu " território" .
O jovens insurgentes na França, talvez pela exclusão, sofreram menos os efeitos da domesticação, por isso vemos uma atitude tão espontânea e forte.
Aqui no Brasil , o efeito da domesticação é forte ( não vi nenhum carro pegando fogo por aqui , mesmo com quase 20 dias de revolta na França). Medo, por aqui muitos tem medo, medo da prisão, medo de pegar um coquetel molotov e fazer pegar fogo o primeiro mc donalds, a primeira loja de carros, a primeira prefeitura, e conseqüentemente fazer pegar fogo a primeira cadeia. e o mais  importante: não deixar o fogo apagar .
O que observamos entre os franceses rebelados é que em resposta a rotina humilhante e alienante optaram por noites de liberdade e muito fogo.

Eduardo Morari