Crenças letais
Estes textos faziam parte do antigo projeto do livro Uma Nova Cultura, agora separados em textos independentes.
Índice:
1. Fazer a sua parte
2. Elevar a alma
3. Respeitar a nossa cultura
4. Mudar cada indivíduo
5. Acreditar nas autoridades especialistas no assunto
6. A nossa história representa um avanço para toda a humanidade
7. A civilização como produto final da evolução biológica e cultural
8. Nossas religiões têm um valor universal
9. O desenvolvimento econômico e o trabalho melhoram o mundo
10. Precisamos de um Estado e de leis melhores
11. O mundo está em nossas mãos
Fazer a sua parte
Era uma vez uma floresta. Um dia essa floresta começou a pegar fogo, e os animais começaram a fugir. Mas um deles, o pequeno passarinho, decidiu que iria fazer alguma coisa e começou a tentar apagar o fogo sozinho. Ele pegava um pouco de água do rio no seu bico e, sobrevoando o fogo corajosamente, jogava água no fogo. Quando diziam ao passarinho que sozinho ele não conseguiria apagar o fogo, ele só respondia que isso não importa. O importante é que ele está fazendo a parte dele. A moral dessa fábula é que devemos fazer nossa parte, mesmo que pequena, para a preservação do todo.
Por que essa estória é uma grande mentira? Porque ela dá a entender que nós, como os animais da floresta, não temos responsabilidade alguma sobre o que nos aflige. Quem provocou o fogo? Ninguém sabe, talvez tenha sido um raio. Mas ninguém se pergunta sobre isso, todos agem como se isso não importasse. Não importa o que produz o problema, não importa saber como nem porquê, só importa fazer a sua parte. Esta é uma falácia central da nossa cultura: atacar os efeitos e ignorar as causas. E esta estória é uma das maneiras engenhosas de espalhar esta falácia.
Estou sugerindo que todos parem de tentar e fujam? Não. Estou sugerindo que aqueles que queiram fazer alguma, que façam alguma coisa significativa. Caso não saibam o que fazer de significativo, então se ocupem em descobrir primeiro; caso contrário qualquer ação será inútil. As ações significativas não são tão óbvias quanto parecem. Se o que você faz é amplamente tolerado pela crença geral, provavelmente não é muito significante. Se já foi feito antes, pode ser previsto. Se puder ser previsto, pode ser controlado, esta é a lei que os reguladores do sistema conhecem e aplicam. Mesmo que você use uma ferramenta já conhecida, use-a de maneira diferente. Os primeiros hackers são exemplos de pessoas que descobriram dezenas de maneiras novas de usar um sistema conhecido. Tanto que surpreenderam até mesmo os criadores do sistema. Não estou defendendo a atividade dos hackers, são os seus métodos que me interessam. Não haja sem conhecer nem se conforme com a ignorância. Considere o uso das falhas e brechas do sistema contra ele mesmo e, antes de tudo, aprenda quem é seu verdadeiro inimigo. O que iniciou o fogo na nossa floresta? O que o manteve e o espalhou por todo este tempo? O que é capaz disto? Não podemos culpar um deus, ou a natureza humana, ou qualquer outra coisa que está além da nossa compreensão. Nem todos os habitantes da floresta juntos podem apagar fogo simplesmente jogando água, se, ao mesmo tempo, não pararem de jogar o combustível que faz o fogo crescer e se espalhar. Este combustível é espalhado por uma crença letal: o progresso quantitativo ilimitado.
Elevar a alma
Quando se diz que a diferença entre os homens e os animais é apenas em grau e que os animais são meramente menos aperfeiçoados que nós, entende-se que se eles se aperfeiçoarem, se tornarão como nós. Isto é o mesmo que dizer que o produto final de qualquer evolução natural é o ser humano. Esta é a desculpa que muitos usam para dizer que nós somos absolutamente necessários à natureza, porque a evolução leva os seres a apenas um caminho. Depois de nós, surgirá uma outra espécie inteligente e cometerá os mesmos erros que nós cometemos, porque isso é natural. Esse é o destino inevitável dos seres: guerra, miséria e fome. O que chamamos de alma pode parecer a coisa mais importante do Universo, mas parece assim porque é a coisa mais importante para nós. Não há relação de necessidade entre a evolução e o desenvolvimento de qualquer característica humana, tanto quanto não há relação de necessidade entre o aparecimento de estruturas complexas num planeta, como as formas de vida, e o fato deste planeta conter carbono, água e assim por diante... De fato, nosso primeiro conceito de evolução seria impensável se não considerássemos um critério gradual que tem os seres humanos no topo. O que chamamos de complexidade e simplicidade vem de critérios formadores do ser humano. Logo, o que chamamos de seres simples ou primitivos são seres que apresentam aquilo que nós consideramos essencial em graus diferentes. A afirmação da evolução da alma só faz sentido dentro dos conceitos humanos, seria tolice pensar que esses conceitos são universais. Mesmo que o que chamamos de alma exista em todas as coisas, em maior ou menor grau, isto não significa que elevar este grau seja sempre preferível. Isso seria afirmar que há uma escala linear na evolução, partindo de um ponto e tendendo ao infinito. Nenhum desenvolvimento natural tende ao infinito, todos eles têm um limite, e esse limite gera o equilíbrio do sistema. Veja o texto Feedback positivo e feedback negativo.
A idéia de aperfeiçoamento da alma diz que devemos melhorar nossa alma para alcançarmos um bem superior. Isso quer dizer ser mais perfeito naquilo que consideramos mais importante, que nos distingue do resto. Como alguém pode considerar que aquilo que é mais importante para nós é mais importante para o universo? Só podemos considerar isso se acreditarmos que conhecemos a função da própria vida no universo. Como podemos saber qual é a característica que o universo considera mais importante que as outras? E que, por mera coincidência, seja aquela que ele nos deu em grau mais elevado? Como podemos tornar-nos perfeitos para o universo seguindo apenas o nosso próprio conceito de perfeição?
Respeitar a nossa cultura
Parece haver uma contradição ao dizer que respeitar a diversidade de culturas inclui respeitar a nossa própria cultura em tudo que ela faz. Se estabelecermos primeiro que não temos o direito de escolher que cultura deve existir e qual não deve, que não somos contra diversidade de culturas, então é claro que estamos contrariando a nossa própria cultura, pois é exatamente isso que ela faz. Se você diz que uma cultura deve ser respeitada, não importa o que ela faça, então como pode concordar com uma cultura que assimila e destrói outras sistematicamente? Se respeitarmos o direito de desrespeitar os direitos, estaríamos criando um enunciado auto-contraditório do tipo todo A é não A. Devo respeitar todas as culturas que eu não respeito. Como você pode ver, a pergunta por que não respeitar a nossa cultura? perderia o sentido, portanto seria impossível de responder. Não há como respeitar a nossa cultura e admitir que as culturas devem ser respeitadas ao mesmo tempo. Para exemplos disso lembrem-se da colonização da América, das cruzadas e da santa inquisição. Não são coisas que estão perdidas no passado negro do homem, são elementos que fazem parte da estrutura da nossa cultura, que se repetem de tempos em tempos sob novas formas. Nós não nos afastamos da barbárie sendo civilizados, nós a transformamos em uma coisa mais sutil, mais indireta, mas impessoal, e ainda assim mais abrangente e mais letal.
O que leva à seguinte pergunta: Porque não destruir a diversidade?. Se a própria evolução nos dotou com esse poder, porque não levar isso a cabo? Eu posso apenas supor um motivo, que talvez não convença a todos que pensam assim: O sentido da evolução, até hoje, foi promover a diversidade. Saímos de uma única forma de vida e nos tornamos bilhões de espécies diferentes, graças à evolução. Parece que nosso modo de vida cria condições em que este processo natural seja invertido, mas eu não posso supor que fazemos isso por motivos evolucionais. Uma das razões porque não posso supor isso é que não foi uma adaptação genética ao meio que nós transformou em seres que destroem a diversidade, mas sim uma adaptação cultural, que se baseia no controle da produção de alimentos, e acredita que a destruição da diversidade seja apenas um efeito colateral indesejado. Sem dúvida, este grupo acreditou que o controle da produção de alimentos melhoria a vida de todos os seres humanos, mas também não duvido que uma vez que fique claro que isso não pode ser verdade, que não existe apenas uma maneira correta dos seres humanos viverem, seja possível rever os fundamentos desta cultura. Isto não está claro porque, apesar de que os elementos sejam bem conhecidos, as relações entre eles e o que chamamos de problemas globais ainda não foram estabelecidas. Não relacionamos os elementos da ecologia com os da economia, por exemplo. Apesar de que toda corporação hoje em dia anuncia ser ecologicamente consciente, não existe crescimento sustentável e não existe desenvolvimento (no nosso modelo econômico) sem crescimento. Preservar, reciclar, reusar e reduzir são somente paliativos. O desenvolvimento econômico continua baseado no controle da produção alimentos. Estas relações, sendo ignoradas, levaram alguns pensadores extremamente críticos, como Nietzsche (e cada vez mais pessoas hoje em dia), a concluir que o problema é o próprio ser humano e que todos devem morrer. Isto não passa de um exagero extremado, que não poderia se justificar de forma alguma. Mesmo que houvesse um erro fundamental na natureza humana, como poderíamos percebê-lo, sem conhecer o que só a própria natureza que criou o homem consideraria como certo?
Concluindo: respeitar a nossa cultura, a nossa visão de mundo, o nosso modo de vida, é, inevitavelmente, desrespeitar a diversidade cultural e biológica, ver o mundo como objeto descartável e nosso modo de vida como o verdadeiro modo de vida da humanidade. Colocado assim, parece uma contradição que alguém ainda respeite tais coisas. Na verdade, é por respeito à vida que todos, pelo menos uma vez em suas vidas, acreditam que as pessoas estão erradas e que precisam mudar. E é por motivos induzidos pela nossa cultura que ela deixa esses questionamentos de lado muito cedo, ou os coloca sobre uma perspectiva absurda, cuja conclusão só não é ridícula para os niilistas: não há melhor coisa a se fazer do que morrer ou não ter existido. Se isto é verdade, então a Natureza cometeu um erro, e não um certo grupo de pessoas. Se isto é verdade, sabemos qual é o critério de certo e errado na natureza, porque sabemos onde ela falhou, e onde ela deve ser corrigida. É fácil acreditar que se sabe uma coisa dessas, uma vez que nós somos treinados para tomar o lugar da natureza na decisão de que como o mundo deve funcionar. Esta visão pode parecer estranha quando enunciada assim, mas o sistema continua a se basear nela, e todas as instituições que coexistem com o sistema a aceitam de uma forma ou de outra. Para um assustador exemplo, leia o terceiro capítulo da Bíblia.
Mudar o indivíduo
Imagine que você tem uma fábrica de carros. Durante nove anos, você fabricou carros seguros e que funcionam muito bem. É claro, não eram todos perfeitos, mas a maioria funcionava bem o bastante, de forma que os defeituosos nunca foram uma grande dor de cabeça pra você. Mas acontece que, no último ano, houve uma mudança completa na forma de fazer carros na sua fábrica. Não importa que mudança foi esta, basta dizer que se afasta completamente do modo anterior. Suponha que a mudança seja que os carros passaram a ser criados inteiramente por máquinas. O resultado foi que muito mais carros podiam ser criados, mas a porcentagem de defeito em cada um aumentava na mesma proporção. A cada dia que passava, mais e mais carros eram feitos, e mais e mais carros saiam com defeito, de forma que agora, no fim do ano, a grande maioria dos carros sai com defeito. Quebram por qualquer coisa, gastam muito mais combustível, o pneu fura o tempo todo, as peças saem do lugar, explodem... Perplexo, você resolve observar cada um deles e determinar o que está dando errado. Ao decidir que o erro está nas peças mal colocadas (muito apertadas ou muito frouxas), resolve consertar cada um deles. Mas, com algumas exceções, seus carros continuam a apresentar defeitos, e você tem um grande trabalho em consertar cada um deles assim que apresentam um novo defeito. Você então, sabiamente, contrata uma grande equipe de mecânicos para fazer reparos preventivos assim que os carros são feitos. Isto reduz um pouco a quantidade de carros defeituosos, mas ainda assim a maioria dos seus carros apresenta defeitos quando usado por algum tempo. Ao ouvir dizer que talvez o problema esteja na forma com que os carros estão sendo produzidos, e não exatamente nas peças de cada um, você diz: Não, é claro que o problema não está na fábrica. Ela é muito melhor do que era há um ano atrás, e o fato de que produzimos cem vezes mais carros é a prova inegável disto. O problema está em todas as peças que sempre apresentaram algum defeito aqui ou lá, e que agora aparecem piores porque fazemos muito mais carros em muito menos tempo ou então isso: Não é a maneira que montamos as peças, mas sim o material com que as fazemos que é ruim, e não há nada que possamos fazer, porque sempre foram assim e sempre serão. Devemos nos conformar e aceitar esses defeitos como parte do funcionamento normal dos carros. Devemos nos manter ainda mais atentos para reparar os carros mais cedo e mais eficientemente. Devemos parar de usar aqueles que apresentam defeitos demais, antes que causem acidentes. Devemos reformar as estradas e conscientizar os usuários, etc.. Desta forma, cada vez mais aumentam os reparos preventivos, e cada vez mais se gasta com os consertos constantes. Além disso, mais e mais carros defeituosos são deixados por longos períodos na oficina, por não serem seguros, e os carros considerados perigosos demais são destruídos ou colocados num grande monte de ferro-velho que se formou ao redor de cidade.
Esta estória é sobre a maneira com que lidamos com problemas sociais. Não procuramos defeitos no sistema, na formação das pessoas, mas nas próprias pessoas, nas suas opiniões e crenças pessoais. Por que não podemos questionar as crenças culturais, as crenças difundidas entre todos? A razão me parece simples, e capaz de ofender muita gente: é precisamente porque são muito difundidas que são aparentemente mais corretas. Se todo mundo diz, devem estar certos. Os intelectuais são ótimos para criticar as crenças dos outros, mas não são capazes de criticar suas próprias crenças porque, para eles, não são crenças, são fatos. O que eu vou dizer agora precisa de uma leitura calma, sem pressa. É apenas uma frase, mas leia com atenção: o fato de crenças serem gerais não as torna mais passíveis de serem verdadeiras. A prevenção não pode ser somente o reparo preventivo, deve começar na fábrica, ou seja, no sistema de valores que é transmitido a todos os novos cidadãos, através da escola, da mídia, das artes e das religiões e de tudo o mais que forma a nossa cultura. Prevenir não é remediar os efeitos mais cedo, prevenir é evitar que os efeitos aconteçam. Se todo mundo acreditasse realmente que prevenir é melhor que remediar, não se gastaria tanto dinheiro com prisões e escolas. Porque num aspecto essas coisas são exatamente iguais: tentam restringir as ações nocivas dos indivíduos, enquanto os direcionam para ações inofensivas, mas não mudam o fato de que o sistema continua recompensando apenas certas características humanas (como a ambição e a dissimulação), e que há cada vez mais poder concentrado nas mãos da minoria. O entretenimento e as igrejas também direcionam as ações e pensamentos dos indivíduos para longe da realidade, sem mudar o sistema. Os hospitais existem para curar, mas que instituição existe para prevenir? Pode até ser que existam exceções, mas a grande maioria destas instituições não está preocupada com a causa do problema, somente com seus efeitos (no indivíduo, e em curto prazo). É claro que isso pode ser proposital, uma vez que elas ganham muito dinheiro com esse tipo de coisa, exatamente como os mecânicos ganham dinheiro com os carros defeituosos da estória.
Acreditar nas autoridades especialistas no assunto
Num lugar muito isolado do resto da civilização morava um velho eremita. Ele não escolheu morar sozinho, pois toda a sua família morou ali antes, e todos os dias eles passavam pela perigosa encosta de uma montanha para pegar água do outro lado, porque esse era o único caminho possível. O velho eremita era agora o único sobrevivente da sua família, sendo que todos os outros foram vítimas da encosta da morte. Mas o velho não pensava em se mudar de lá, ele respeitava a montanha e o lugar onde seus antepassados haviam vivido, e morrido. Um dia, quando se dirigia para a encosta, ele encontrou um turista perdido. Com um sorriso singelo no rosto, o velho perguntou onde o turista estava indo. Ele respondeu para o outro lado desta montanha, onde há uma bela formação de rochosa e uma fonte de água cristalina. O sorriso do velho se alargou, depois seu rosto ficou sério e preocupado, e o velho perguntou com um tom grave: Existe mesmo um belo lugar atrás dessa montanha, mas o único jeito de chegar lá é pela encosta mais perigosa do mundo! Você está disposto a arriscar sua vida? O turista coçou a cabeça e, mostrando o mapa da região, disse que não era preciso arriscar a vida, já que havia uma ponte pelo outro lado da montanha. Ao ouvir isso, o velho se sentiu falando com uma criança ingênua que acredita em contos de fadas. Meu rapaz, você obviamente foi enganado. Eu vivi nessa montanha minha vida toda, e antes de mim viveram meus pais e meus avós, e eu lhe garanto com absoluta certeza: não existe ponte alguma, tudo que há é a encosta. Se quiser chegar à fonte de água, precisa enfrentar a encosta, não há outro caminho nem nunca houve.
Depois de uma pequena discussão sobre a validade do mapa ou do conhecimento ancestral da região, o jovem turista propôs um desafio. Já que estamos os dois indo para lá, vamos ver quem chega primeiro. Eu pela ponte ou o senhor pela encosta. O velho riu do absurdo e aceitou a aposta, dizendo que iria esperar pelo turista quando e se ele chegasse. O velho passou a encosta, o que levou pouco mais de uma hora, e quando chegou à fonte, viu que o turista perdido estava lá, sentado, com o mapa na mão. Ele procurou sinais do helicóptero, ou qualquer coisa parecida, que tenha levado o jovem trapaceiro a chegar na frente. Não havia nada. Eu lhe disse que havia uma ponte, disse o turista. Não há ponte alguma, retrucou o velho. Eu sabia que você ia duvidar, por isso tirei uma foto com a minha Polaroid. Tome, veja por si mesmo. O velho olhou por um instante e concluiu: Poderia ser qualquer ponte. O turista perguntou quando foi a última vez que velho passou pelo outro lado da montanha, e pediu para que ele o acompanhasse para ver a ponte com seus próprios olhos, ao que o velho respondeu: Nunca fomos pelo outro lado porque nunca houve nada lá. Nenhuma ponte pode ser construída por lá, sempre soubemos disso. Minha família passou gerações atravessando a encosta porque jamais houve ponte, e nunca haverá, e por isso somos os mais habilidosos e corajosos alpinistas. Você é só um turista ingênuo com uma máquina fotográfica. Não ache que você pode saber mais que eu sobre a montanha. Fui eu que vivi aqui, não você. Foi a minha família que viveu e morreu aqui, não a sua. Portanto, saiba qual é o seu lugar e respeite o meu. E tendo dito isto, o velho pegou a água que precisava e voltou, pela encosta da morte, e a única coisa que guardou deste encontro foi que o jovem turista tinha obviamente chegado ali por outros meios, já que logicamente não poderia ter usado uma ponte que não existe.
A dificuldade de aceitar relações entre fatos simples ou óbvios demais para explicar problemas antigos e considerados extremamente complexos é natural, principalmente quando se trata de problemas sociais. É comum acreditar que velhos problemas só serão resolvidos com a introdução de novos elementos e, ao mesmo tempo, que nenhum elemento central do que foi tentado até agora será retirado do problema, já que isso significaria um retrocesso. A questão é: Isto é científico? Isto é razoável para o bom funcionamento de qualquer sistema? Acho que isto só é necessário ou útil para a permanência inabalável dos mesmos fundamentos num sistema qualquer. Neste ponto, não importa que fundamentos sejam estes, o que importa é que são mantidos com crenças, e não com qualquer coisa que se aproxime da algum conhecimento razoável.
A nossa história representa um avanço para toda a humanidade
Os conhecimentos gerais dizem que a nossa civilização é um avanço nas técnicas em termos de modo de vida da humanidade. Dizem que a pré-história é um período onde os homens passavam a maior parte do seu tempo fugindo de predadores e procurando por comida. Eles não tinham uma verdadeira organização social, mas se dirigiam timidamente à nossa. Eles não tinham uma verdadeira religião, mas já apresentavam sinais de alguma preocupação com a vida após a morte. Então, num belo dia, eles iniciaram a agricultura, e isso os colocou no caminho certo. Depois de 90 mil anos andando por aí sem muito o que fazer, em menos de 5 mil anos foram capazes de construir a civilização, o grau máximo da organização social humana. Por mais irônico que seja, hoje nós trabalhamos muito mais que naquele tempo. Mesmo nas regiões mais desérticas não era preciso trabalhar mais do que 2 a 3 horas (segunda a própria enciclopédia que disse o contrário antes). Outro erro é confundir todo e qualquer tipo de cultivo do solo com o que chamamos de agricultura. Muitas tribos cultivam a terra, mas não de maneira expansiva, como nós fazemos, não como maneira de controlar a produção de comida, mas apenas como uma forma de produção de comida tão sustentável quando a caça, a coleta ou o pastoreio. Não é verdade que a escassez de comida levou ao fim do nomadismo. Começamos a nos sedimentar porque encontramos regiões com comida em abundância, e por isso tivemos tempo de criar a agricultura e a criação de animais. Se houvesse falta de comida, a população morreria antes que a primeira colheita fosse feita. Não é verdade que não fazíamos nada. Desenvolvemos coisas que muita gente se esquece que não nasceram conosco. Na verdade, foi preciso muitas gerações de criatividade e imaginação para desenvolvê-las. Coisas supérfluas como nossa linguagem altamente articulada, uma enorme diversidade cultural, uma religião universal (animismo), milhões de estórias que representam conhecimentos ancestrais sobre como conviver em grupo... Essas coisas foram desenvolvidas como forma de sobrevivência, e como qualquer característica natural, foram testadas por milhares de anos pela seleção natural. Não há porque se espantar ao dizer que nosso modo de vida garantia a sobrevivência a longo prazo. Não porque éramos pessoas melhores (não éramos), mas porque somos seres vivos, e todos os seres vivos se organizam da melhor forma possível para sua sobrevivência, pois quando isso não acontece essa forma é eliminada. O que há para se espantar nisso? O que nos espanta é que nós não vivemos assim, nós queremos uma sociedade melhor, porque sabemos que esta forma ameaça nossa própria continuidade. Será que somos diferentes do resto da natureza? Foi a esta conclusão que os pensadores da nossa cultura chegaram, que há uma dicotomia entre homem e natureza. Não me cabe agora explicar porque isso é absurdo, mas basta dizer que existe uma situação onde é razoável que uma espécie se encontre vivendo de forma insustentável: isto acontece, obviamente, quando esta espécie está em processo de extinção, pois extinção não é uma coisa automática. Uma objeção clássica é que nossa população está crescendo, logo não estamos sendo extintos, mas, pelo contrário, estamos sendo muito bem sucedidos na natureza. Para mostrar o quanto essa noção é ingênua eu levaria muitas páginas, mas basta se lembrar da fábrica de automóveis. A cada mês ela produz mais carros, mas a cada mês aumenta a porcentagem de carros defeituosos. Um dia todos serão defeituosos, e então a expansão numérica será inútil.
Voltando ao fim do nomadismo, não é verdade que as condições de vida deixavam a desejar. Talvez deixem para os padrões de hoje, mas apenas quando se pensa somente em números. Menos pessoas morrem e elas vivem mais tempo. Em compensação os males (principalmente psicológicos) aumentam e se intensificam a cada ano, o tratamento se torna cada vez mais custoso e menos satisfatório (note a retomada do tratamento holístico). Outros fatores negativos podem ser vistos nas críticas de Capra e Huxley à saúde em geral. Enfim, aumentamos o sofrimento. Este sofrimento seria recompensado se estivéssemos realmente melhorando a saúde do maior número de indivíduos possível. O que acontece é que temos um maior número de indivíduos vivos, mas um número bem menor de indivíduos sãos, quando se considera a saúde no termo mais amplo. Novamente, não estou dizendo que éramos pessoas melhores antes, somente que as condições de vida eram favoráveis à sobrevivência. Se eram favoráveis, porque mudamos? Isto também não é um mistério. As adaptações não partem das menos favoráveis para as mais favoráveis, elas acontecem aleatoriamente, mas somente as mais favoráveis se perpetuam. O que havia antes eram pessoas que viviam num modo de vida que era favorável à sobrevivência em longo prazo, tanto que este modo de vida sobrevive até hoje aumentando a qualidade de vida, e não a quantidade, enquanto que o nosso funciona ao inverso. E para responder a uma objeção final sobre a possibilidade de colonizar outros planetas para perpetuar este modo de vida, leia o primeiro capítulo de Bilhões e Bilhões de Carl Sagan.
A civilização é o produto final da evolução biológica e cultural
Quando os manuais dizem que o homem se difere dos outros animais, não parecem estar falando de uma diferença comum, como todas as espécies têm entre si, mas uma diferença entre a espécie humana e todas as outras. Esta diferença é a racionalidade. A idéia de que esta diferença coloca o homem em posição vantajosa em relação ao resto das espécies implica que a racionalidade é um catalisador de evolução universal, ou seja, que a evolução leva as espécies necessariamente rumo a uma racionalidade cada vez maior. Esta idéia é tradicional, trata-se de ver uma divisão heterogênea entre minerais, vegetais, animais e homens. Esta classificação é feita primariamente observando-se um crescente grau de racionalidade. Logo, o objetivo da evolução da vida no planeta era criar seres humanos, que são o ápice da criação, e por isso não há mais necessidade de evolução natural. O que é preciso agora é outro tipo de evolução, que aconteça somente no nível da humanidade, rumo à moralidade e a um Estado melhor: é a evolução cultural. Segundo esse dogma, nossa civilização domina o mundo porque é racionalmente superior, ela conseguiu esse lugar por virtude própria, por seleção natural. Se há algum problema na sociedade, só pode ser a falta de encaixe das pessoas nesse modelo perfeito ou então a falta de aplicação do modelo em lugares subdesenvolvidos. Por exemplo, o problema dos países pobres é que eles não são desenvolvidos o bastante e o problema dos países ricos é que as pessoas ruins os estragam, os maus governantes, os assassinos seriais, os vagabundos, esse tipo de gente. Em outras palavras: o segredo da liberdade é que todos vivam segundo os mesmos padrões e que, por algum motivo misterioso, isso não crie desigualdade em parte alguma. Digo que o motivo é misterioso porque a desigualdade foi a própria causa das pequenas ilhas de prosperidade que temos hoje no mundo. Não há, até hoje, desenvolvimento que não resulte num aumento considerável do consumo, o que leva direta ou indiretamente à exploração de outras populações e à destruição da diversidade.
As pessoas podem estar acostumadas a ouvir esse tipo de coisa. Tão acostumadas que deixaram de ouvir o que realmente está sendo dito. Algumas citações tiradas de enciclopédias americanas: Passos importantes no crescimento da CULTURA incluem (1) desenvolvimento de ferramentas, (2) O começo da criação de animais e cultivo de plantas, (3) o crescimento das cidades, e (4) o desenvolvimento da escrita e A CULTURA HUMANA se DESENVOLVEU em três grandes fases. Essas fases foram baseadas em (1) Sociedades caçadoras coletoras, (2) sociedades agrícolas, e (3) sociedades industriais. Você acredita que esses passos sejam necessários para o desenvolvimento de uma cultura qualquer? Claro que não, esses passos são importantes para um tipo específico de modo de vida, o nosso. Acontece que passamos tantos séculos achando não existiam pessoas vivendo em modos de vida diferentes que o nosso, que passamos a acreditar que só existia um modo de vida possível para a humanidade. É isso que acontece quando alguém coloca a nossa civilização como sinônimo de humanidade. Isso acontece o tempo todo, mas passa despercebido pela maioria das pessoas: A humanidade gera lixo tóxico, A humanidade é responsável pela poluição do ar, da água e pela destruição da camada de ozônio. Estas são generalizações óbvias, mas são prejudiciais, porque espalham a crença de que a culpa por tudo que acontece seja da humanidade. É claro que negar isso, como de fato nego por motivos já apresentados, não significa afirmar que a culpa seja de Deus, ou da evolução, ou que os tribais sejam naturalmente nobres e bons e devemos viver como eles. As pessoas acham que essas implicações são óbvias porque estão acostumadas a enxergar o problema sempre do mesmo ponto de vista dado a eles pela educação convencional: de que o erro só pode estar na natureza imutável das coisas. Ou temos uma falha natural e precisamos ser salvos por alguma transformação interior, ou atingimos um estado evolutivo que naturalmente está levando o planeta à destruição assim como um vulcão pode destruir uma floresta.
Para responder ao primeiro, basta lembrar que a sensação de ser naturalmente falho só aparece nos povos que já viviam no nosso modo de vida. Esta sensação pode ter origem na intuição que certos problemas sociais são coisas naturais e não típicas de um sistema. Em outros modos de vida, mesmo nas regiões mais áridas, não há sinais desta sensação. Os missionários tiveram que se esforçar muito para fazer os indígenas entenderem que estavam vivendo num estado de perdição entenderem que estavam vivendo num estado de perdir alguma transformaes pela educaalmente nobres e bons. natural, e sua única solução seria adorar deuses estranhos e seguir outros costumes.
Para responder ao segundo é preciso ter mais imaginação. Qualquer um pode tranqüilamente afirmar que tudo tem seu fim. O que é preciso para afirmar que a humanidade ou nossa sociedade representa o fim inevitável do planeta é um conhecimento muito mais profundo sobre o funcionamento do planeta do que nós temos sobre o funcionamento do nosso próprio corpo. Afirmar que nós estamos destruindo o planeta é uma coisa, afirmar que é para isso que nós fomos FEITOS é outra completamente diferente. Seria muito difícil defender isso como proposta científica, porque não envolve nenhum fato. Além disso, o que deveria ser nossa preocupação principal não é a natureza, ela pode se regenerar, mas nós não. É o nosso patrimônio genético que está em perigo. Se nos destruirmos dessa forma, não sobrará nenhum vestígio de nossa passagem pelo ciclo da vida, o Universo continuará como se não tivéssemos existido. Para conseguir deixar algum traço na história do Universo, precisamos nos adaptar novamente ao meio. Outras objeções ainda mais complexas podem ser feitas a respeito da autoconservação genética, e outros debates devem ser feitos a respeito disso.
Nossas religiões têm um valor universal
Tudo que nós compreendemos por religião nos conecta de alguma forma com um outro mundo, um mundo além deste mundo. Tudo que nós chamamos de religião também nos coloca numa posição bastante especial em relação aos outros seres vivos deste planeta. Somos especiais, não simplesmente por sermos melhores, ao contrário, por sermos afligidos por algum tipo de maldição que nos impede de atingir a felicidade agindo simplesmente de acordo com nossas inclinações naturais. Nosso ideal de humanidade é uma posição ainda mais especial no universo. Nossas religiões dizem que fomos feitos para viver para sempre em eterna harmonia e felicidade. Isto é mais que qualquer outro animal pode ter. Quem não gostaria que uma coisa dessas fosse verdade? É um apelo para nossos desejos mais profundos, mas será que isto que chamamos de religião é típico de qualquer ser humano?
Os povos que chamamos de esquimós tem uma religião bem diferente. Sua principal deusa não é bondosa, é sim muito vingativa. Ela afunda os barcos que saem para pescar. Mais estranho ainda: ela não é a deusa criadora, pelo contrário, ela é posterior aos próprios esquimós. Ela própria era uma pessoa, cujo pai deixou afogar de propósito. Desde então ela persegue os pescadores, e seus dedos são as baleias. A coisa que mais se aproxima de nossos próprios mitos seria talvez a crença de que algumas pessoas se transformam em aurora boreal depois que morrem. Mas esse privilégio é reservado, por exemplo, aos suicidas.
Como podemos compreender os mitos esquimós? Eles vivem num ambiente hostil, que raramente muda. O que eles vêem é um ambiente que está constantemente contra eles, contra o qual eles têm que lutar para sobreviver. Para eles não é uma coisa terrível se você se matar, é seu direito não ter que agüentar aquilo (prisioneiros na perpétua tendem a pensar de forma semelhante). Não haveria um motivo para haver um deus bondoso aqui, uma vez que os deuses são derivações do ambiente em que as pessoas vivem, e os mitos esquimós demonstram isso. Nosso deus é um deus derivado do deus do sol. As pinturas rupestres mostram que o homem primitivo já sabia que toda a vida deriva do sol, e por isso o adoravam. Existe realmente algo maléfico na escuridão e algo bondoso na luz, como a Bíblia diz, ou simplesmente pensamos isso porque temos naturalmente medo do escuro, onde somos mais indefesos contra predadores?
Uma coisa em que as religiões tribais (animistas) vão concordar é que ninguém precisa ser salvo. Ninguém está num estado de perdição, são todos seres humanos no melhor sentido da palavra. Outra coisa é que não há necessidade de um outro mundo. É neste mundo que as coisas se desenrolam e neste mundo que os deuses e espíritos estão (não como no espiritismo). Outra coisa é que esses deuses e espíritos não são exatamente imateriais, não são abstratos. Se você acaba com todos os rios você mata o deus do rio, ele deixa de existir. Se uma pessoa cai no esquecimento o seu próprio espírito não existe mais. Isto tudo se une numa única coisa pela qual podemos diferenciar dois tipos de religião: as salvacionistas e as não-salvacionistas. Como o homem tem cerca de 100 mil anos, devemos ter seguido as religiões não-salvacionistas por uns 90 mil anos, e inventamos as salvacionistas faz apenas uns 10 mil. Por que?
As religiões salvacionistas são essenciais para manter um modo de vida trabalhoso e expansivo como o nosso. São religiões cujas crenças incluem um ideal de ser humano que está bem longe da realidade, estimulando as pessoas a se esforçarem sem limites, a colocarem o racional acima do material. Por mais contraditório que pareça, isso é útil numa sociedade que valoriza o trabalho e a produção acima de todas as coisas (o que acontece em diferentes escalas nas sociedades patriarcais). Deixamos de ser uma comunidade de seres humanos, somos uma sociedade de cidadãos. É importante também que tenhamos legitimidade para nos apropriarmos de animais, plantas e da própria terra; e para nos sentirmos livres para fazer o que bem entendermos com a natureza. O mundo não é mais sagrado, ele não tem valor intrínseco, foi dado a nós pelo próprio deus, para que sejamos senhores absolutos. Deus, por sua vez, não é mais o deus dos animais, não é mais o deus da terra, não passa de um deus humano. Ele se importa com tudo que os humanos fazem, ele se importa com os mínimos detalhes. Para livrá-los do pecado, ele é capaz de inundar o mundo inteiro, preocupando-se muito pouco com a vida dos outros animais (os animais são apenas visitantes na nossa arca, e nós não transportamos pestes. Se você não for útil para nós, nós iremos exterminá-lo). Se deus é um só desde o começo, porque ele se preocuparia em falar conosco apenas nesses últimos 10 mil anos? Porque não éramos dignos? Outra coisa que um animista iria concordar é que não precisamos receber leis dos deuses para saber como nos comportar bem. Sabemos nos virar bem sozinhos, cada tribo é responsável por sua lei. Para uma teoria sobre porque inventamos leis universais, leia meu texto sobre leis e o Estado.
Não há como negar a influência das religiões salvacionistas na criação e na expansão do nosso modo de vida insustentável e antiecológico. Elas precisam ser questionadas se quisermos resolver os problemas de nossa cultura. Infelizmente, para muitos, as religiões são a última palavra sobre o que deve e o que não deve ser questionado. Não estou atacando a religião em si, apenas aquelas que se baseiam nos mesmos fundamentos que o nosso atual modo de vida e eu convivem relativamente bem com ele, porque esses fundamentos são insustentáveis.
O desenvolvimento econômico e o trabalho melhoram o mundo
Nosso sistema econômico não é prejudicial somente para a população pobre, ele causa um prejuízo imediato para todos os seres-humanos vivendo nele, mesmo que não seja claramente visível. Um bom exemplo está na maneira com que tratamos a agricultura e a medicina.
Para suprir a expansão econômica, produtos baratos, porém pouco nutritivos, são vendidos através de campanhas publicitárias grandiosas, colocando cada vez menos alimentos saudáveis à disposição do consumidor. As regras da economia beneficiam aqueles que vendem mais, por isso é mais lucrativo investir em propaganda que na própria qualidade do produto.
A lavoura se tornou hoje uma grande indústria, escrava dessas regras insalubres. Para produzir mais, os agricultores são obrigados a meramente reproduzir técnicas dadas por agrônomos, perdendo sua liberdade de produção, se tornam funcionários. Essas técnicas não se baseiam e considerações ecológicas, pois são forçadas, pelas conveniências de mercado, a voltar-se para tal ou tal mercadoria (Capra). Nessa indústria os animais são maltratados, amontoados, recebem alimentação inadequada e mantêm-se vivos à base de antibióticos, passando uma vida de intenso sofrimento. Com as plantas não é muito diferente, são modificadas quimicamente para resistirem a pragas, quando na verdade estão se tornando cada vez menos nutritivas. Tudo isso causa um impacto ambiental para o solo, que se torna infértil; e para os rios, que se poluem devido ao acúmulo exagerado de resíduos. Para piorar, grande parte do custo de nossa alimentação vem do gasto com o combustível para o transporte. A agroindústria depende da industria petroquímica, ou seja, se tornou dependente de um recurso não-renovável que causa problemas ambientais e sociais massivos. Com tudo isso, podemos dizer sem receio que a nossa agricultura é hoje o empreendimento mais insustentável do mundo, portanto a maior ameaça à permanência da raça humana neste planeta. Poderia ainda supor-se que pelo menos o lucro dos trabalhadores da terra aumentou. Na realidade o que aconteceu foi o oposto: As dívidas dos agricultores têm crescido juntamente com o preço do petróleo, e está cada vez mais difícil ganhar dinheiro cultivando alimentos. Este tipo de trabalho é essencial à nossa existência, e que devia ser o mais seguro de todos.
O problema na agricultura reflete e se une ao problema na medicina. Para começar, a maior parte do custo com o tratamento de doenças poderia ser evitado com uma alimentação mais saudável. As companhias farmacêuticas controlam desde a formação dos médicos até como irão empregar seus conhecimentos, de acordo com o interesse de algumas empresas que fabricam remédios e equipamentos hospitalares. Esta maneira de tratar a agricultura e a medicina, duas áreas consideradas de importância primordial ao bem estar das pessoas, reaparece de forma semelhante em praticamente todas as formas de trabalho e de geração de desenvolvimento na nossa sociedade. Essas coisas não parecem ter correção isoladamente. Toda vez que aumentamos as verbas ou criamos leis na esperança de corrigi-las apenas mudamos o foco do problema e na realidade o agravamos.
Por exemplo, a desculpa usada para levar adiante o processo de industrialização das fazendas foi a escassez de comida. A promessa era de que a comida produzida em grande escala eliminaria a fome nos países pobres. O que aconteceu foi precisamente o contrário, e diversas empresas enriquecem-se com isso, no entanto continuamos acreditando que a fome seja um problema que possa ser resolvido com o mero avanço da tecnologia e o aumento da produção. No nosso sistema econômico, a tecnologia não garante distribuição igualitária, nem garante que a prioridade seja a subsistência, e sim a exportação e a expansão de mercado. A fome, de acordo com Capra, não é um problema de distribuição de alimentos, mas de redistribuição do controle sobre os recursos agrícolas. Isto significa o fim da agroindústria, o que obviamente não é coisa simples de se fazer. O mesmo se repete analogamente a todas as outras áreas de trabalho humano, pois são todas influenciadas por esses mesmo fatores.
De maneira similar, a venda de remédios aumenta espantosamente, enquanto a saúde em geral está em déficit. É tempo de nos perguntarmos se estamos sequer indo para a direção correta, antes de tentarmos pegar o máximo de atalhos possíveis, e caminhar em relativa harmonia, ignorando que talvez as escolhas iniciais tenham sido mal feitas.
Precisamos de um Estado e de leis melhores
A lei deve ser igual para todos, deve ser seguida à risca. Sem isso a sociedade rapidamente se transformaria num caos. Mas há quanto tempo será que as leis existem dessa forma?
Assim como os gregos consideravam que qualquer pessoa vivendo fora da polis não poderia ser muito mais que um selvagem; e os católicos imaginam que um sujeito que discorda da bíblia não deve ser muito confiável; imaginamos que sem um Estado para dar e fazer cumprir leis é quase impossível viver em sociedade por muito tempo. A recente descoberta de que o homem tem pelo menos cem mil anos deveria ter colocado isso abaixo, mas curiosamente ninguém se sentiu compelido a explicar porque o homem sobreviveu tanto tempo sem um Estado, e ainda assim em sociedades organizadas.
Não há dúvida que havia algo que os regulava, mas as diferenças entre o nosso tipo de lei e as leis tribais são tantas que não se pode afirmar que uma seja a continuação da outra. Elas são essencialmente diferentes. Como explicar que hoje consideremos tão necessário este tipo de lei específico de um único modo de vida? As leis dos nossos ancestrais não eram sobre punição ou retribuição, eram sobre restituição. Não se tratava do que pode e o que não pode ser feito, mas sobre o que fazer quando ocorre uma situação conflituosa, para restabelecer a convivência da maneira menos danosa. Estas leis não são formuladas através de teorias sobre justiça, são adquiridas através da experiência com conflitos anteriores, passadas de geração a geração através da tradição oral. São ferramentas adquiridas pela seleção natural. Cada tradição tribal tem sua maneira particular de lidar com conflitos de acordo com o que tem se mostrado mais vantajoso para os membros durante os anos. Isto é sabedoria prática, uma extensão daquela que utilizamos para resolver problemas de convivência entre grupos pequenos de amigos ou familiares, porque é quase isso que é uma tribo.
Com o controle e a expansão de territórios, as pessoas foram obrigadas a viverem em grupos muito maiores do que a espécie estava acostumada, e naturalmente adaptada. Enquanto foram sendo assimiladas, as pessoas abandonaram suas tradições tribais e foram se acostumando com uma organização centralizada e um modo de vida de multidão. Essa multidão precisava de um critério comum para decidir o que fazer quando algum conflito ocorria, porque tinham perdido seus referenciais específicos. Esta pode ser a verdadeira raiz do caos social, e a urgência de colocar as coisas em ordem levou os líderes a darem leis que nada mais eram que simples proibições, seguidas de uma punição extremamente indesejada para quem desrespeitasse a lei. Com isso, as autoridades esperavam reduzir o número de conflitos, ou pelo menos fazer com que as pessoas não se revoltassem demais. Onde não pode haver restituição para a comunidade em geral, sobra a vingança: devolver o dano cometido e assim satisfazer pelo menos as vítimas o suficiente para que elas se sintam seguras. Obviamente, nem a mais perfeita justiça foi capaz de reduzir ou diminuir os danos resultantes dos conflitos de convivência, simplesmente porque proibições não eliminam a inclinação natural para os conflitos. Surge a figura do culpado, do criminoso, do pecador. Aquele que deve restabelecer a honra ou o respeito através de seu sofrimento ou prejuízo. Isto se tornou possível porque o modo de produção havia se tornado tal que as pessoas perderam sua importância para o grupo. Num grupo pequeno, cada pessoa faz diferença para sobrevivência de todos. Uma tribo que insistisse em duplicar os prejuízos ao invés minimizá-los não sobreviveria muito com um modo de vida de subsistência. Numa multidão, é mais fácil matar, prender ou multar os problemáticos do que lidar realmente com o problema, o que pode causar a banalização do crime, a desconfiança mútua, e uma série de outros problemas. Há também o fato de que entre pessoas que dependem umas das outras é bem mais difícil encontrar violência, furtos ou qualquer coisa do tipo.
Resumindo, sem tradições em comum para recorrer, as pessoas precisam de um Estado para determinar o que é certo e o que é errado, e para punir os que erram. Embora as teorias do Estado e das leis tenham mudando muito, as pessoas ainda não dedicaram tempo suficiente para reavaliar profundamente os fundamentos do Estado e das leis inventados há alguns séculos. Ou seja, estes conceitos foram dados por pessoas sabiam muito pouco sobre o passado humano. Elas não sabiam que houve um modo de vida que durou milhares de anos, e ainda assim a instabilidade e a efemeridade de organizações primitivas são as premissas básicas para teorias da formação do Estado que são usadas até hoje.
Minha conclusão é que não basta reformar o Estado e as leis, temos capacidade para suplantar essas invenções com outras essencialmente diferentes, mais completas e coerentes com o que sabemos hoje.
O mundo está em nossas mãos
Nos acostumamos a ouvir o quanto proteger o meio-ambiente é nossa exclusiva responsabilidade. Nossa exclusividade está no fato de sermos a única espécie que destrói o planeta. Destaco espécie porque, em primeiro lugar implica numa dicotomia entre homem e natureza, e em segundo lugar desconsidera os povos pré-históricos e os povos não-civilizados de hoje. Por que o meio-ambiente precisa de proteção? Do que ele precisa ser protegido? Da natureza humana? Como pode a natureza humana ameaçar a própria natureza, e como poderíamos deixar a natureza humana, ou a própria natureza, melhor do que ela realmente é? Os ecologistas não dão respostas, apenas dizem que devemos poluir menos o mundo. Ignoram que seja preciso mudar fundamentalmente nosso modo de vida, baseado na exploração de meios que aumentem indefinidamente a produção de bens materiais. Não explicam como podemos diminuir a poluição e ao mesmo tempo continuar expandindo nossa economia. Se uma empresa pára de poluir o ambiente hoje, ela vai ter que encontrar uma nova forma de baratear seus produtos, de outra forma vai falir. Basicamente, nos dizem que devemos ser pessoas melhores, mas não é necessário ter um sistema melhor, podemos ficar com este mesmo, e apenas mudar algumas leis e hábitos. Mesmo quando novas formas de produção são sugeridas, são planejadas com o mesmo raciocínio que trouxe o problema. Por que devemos acreditar que dessa vez vão funcionar? É claro, se as pessoas que tentaram voar tivessem desistido, nunca teriam inventado o avião. Mas isso porque tentaram várias visões diferentes, e não só vários projetos. Se tivessem insistido numa visão que contradiz alguma lei da aerodinâmica, mesmo antes de a conhecerem, poderiam fazer infinitos tipos de aviões, mas não iriam muito longe.
Neste cenário temos o tipo de intervenção que causa efeitos ouroboros. Ouroboros é a cobra que come o próprio rabo. A princípio, ela tem a impressão que está matando sua fome, mas é uma questão de tempo até que perceba que não é possível matar a fome comendo a si mesma. Efeitos ouroboros geralmente acontecem quando nem todos os fatores envolvidos num problema são levados em consideração para a formulação de uma solução. O que não quer dizer que precisamos conhecer exatamente a essência de uma coisa para resolver um problema, a não ser que o problema não esteja nela, mas seja ela. Ninguém pode sentar e esperar até que se descubra exatamente qual a natureza humana para começar a lidar com questões como o racismo, o machismo e a corrupção. Igualmente, ninguém pode dizer que a solução seja simplesmente matar todos os humanos, ou transformá-los em super-humanos, porque nesse caso a pessoa já saberia que o problema é a própria natureza humana. Esse conhecimento não passa de um dogma, pois não é possível afirmar nada desse tipo sendo um simples ser humano. Nosso modo de vida contradiz pelo menos uma lei da biodinâmica, a primazia da diversidade. Se tem uma coisa que podemos afirmar com segurança sobre como funciona a natureza é que ela promove diversidade em todas as instâncias. Se há algo que podemos afirmar sobre nosso modo de vida, é que ele promove a uniformidade, a assimilação, a conformidade, a massificação, enfim, a universalidade.
Existem basicamente dois tipos de intervenções que causam efeitos negativos inesperados: 1) Incentivar, intensificar ou adicionar elementos que causam efeitos considerados positivos. 2) Obstruir, eliminar ou reduzir elementos que causam efeitos considerados negativos. Em ambos os casos, as intervenções acontecem sem continuidade, porque se baseiam numa estruturação parcial, e tendem a piorar quando o esforço é aumentado cumulativamente (por feedback positivo). Um exemplo disso é o que aconteceu na cidade de Madison, Wisconsin: Preocupados com o número de mendigos nas ruas da cidade, o governo providenciou abrigos e comida para eles. Ao saberem disso, os mendigos de outras cidades se mudaram para lá, aumentando o número de mendigos nas ruas. Outro exemplo: O serviço florestal americano, preocupado com os incêndios nas florestas, investiu pesadamente na prevenção, apagando os focos de fogo o mais rápido possível. Isso fez acumular o potencial de incêndio em forma de galhos secos no chão, o que eventualmente causou um incêndio muito maior, incontrolável, que se espalhava tão rápido que causou um dano irreparável (Little, 1993). Muitos exemplos desse tipo de intervenção podem ser encontrados na história da tentativa humana de controlar ou corrigir a natureza.
Temos que admitir que existem poucos sistemas que temos a capacidade de compreender completamente. Mas mesmo sem saber exatamente o que podemos fazer, há algumas coisas que podemos evitar. Uma delas é tentar usar a mesma forma de raciocínio insistentemente, outra é achar que existem soluções universais para problemas aparentemente iguais. A implantação de novas tecnologias tornou possível a Revolução Verde, a grande industrialização da agricultura, que ocorreu quando se temia que o mundo não pudesse produzir alimento suficiente para uma população mundial de 6 bilhões (a população dobra em cada vez menos tempo, da última vez levou menos de 50 anos). A Revolução Verde foi comemorada, mas tem conseqüências que hoje sabemos serem desastrosas para a saúde humana, para o meio-ambiente e para as pessoas dos países menos desenvolvidos (em crenças letais 9). Não é com uma nova Revolução Verde que vamos parar de morder o nosso próprio rabo, esse tipo de atitude significa apenas uma nova e mais profunda mordida desesperada. Não podemos colocar cegamente nossa fé na ciência e na tecnologia produzidas pela mesma visão de mundo, e por isso devemos desconfiar racionalmente quando nos oferecem coisas como os transgênicos e o bio-combustível como soluções.
Como reação, podemos ver uma parcela das pessoas alegando que tudo se resolverá quando amarmos de verdade a natureza e os animais. É mais fácil, e mais vantajoso para as empresas, colocar a culpa nas pessoas, e não encarar os motivos históricos, principalmente quando eles remontam à origem da civilização. As pessoas consideram que a poluição não passa de um hábito ruim, que veio com a industrialização, e que pode ser eliminado com alguma educação extra e com tecnologias limpas, sem mudar em nada o sistema que se baseia nela. Em resumo, acreditam no investimento de capital, trabalho e ciência, quando na verdade querem dizer um tipo específico de capital, de trabalho e de ciência, que ignora o papel da natureza como fornecedora limitada de recursos, e receptora limitada de resíduos. É uma crença de um otimismo extremo. Como se, num passe de mágica, todos os efeitos pudessem se inverter apesar de continuarmos fazendo a mesma coisa.
Começamos a estabelecer domínio sobre esse planeta muito antes da industrialização, e para dominar algo precisamos saber como ele funciona. Durante muito tempo tivemos a crença que era possível saber como a natureza funciona, em seus mínimos detalhes. Estávamos enganados, mas todo nosso modo de vida está contaminado com essa idéia. Hoje sabemos que a evolução da natureza é imprevisível, e que não podemos determinar como deve ou não se organizar a vida no planeta. A natureza jamais esteve em nossas mãos, a própria tentativa de controlá-la causou os perigos globais que nós enfrentamos hoje. Morder o próprio rabo sempre resulta num prejuízo futuro bem maior que a vantagem inicial. Não podemos ser naturalmente responsáveis pela proteção e pela destruição da terra ao mesmo tempo, para protegê-la de nós mesmos precisaríamos protegê-la de si mesma, pois somos parte dela. Para protegê-la como querem os ambientalistas, precisaríamos controlá-la ainda mais, e causar ainda mais efeitos ouroboros, dos quais a história do ambientalismo está lotada. Eles consideram que o problema está no nosso modo de vida, mas não é ele. Se o problema puder ser identificado com uma coisa, essa coisa deve ser a natureza humana, ou seja, não está nela, é ela. Essa é uma visão extremamente dogmática. Olhando para a história das lutas ambientais, vemos que nos contentamos com vitórias cada vez menos significativas, enquanto os problemas se tornam cada vez maiores. Não podemos resolver isso pela raiz, que é a nossa idéia de domínio sobre o mundo, com uma economia globalizante como esta. Tão pouco podemos esperar que novas leis mudem alguma coisa, as leis mais severas nunca impediram os crimes de continuarem, cada vez mais ocultos, porque não afetam as causas dos crime. Da próxima vez que ouvir dizer que o futuro depende das novas gerações, leia nas entrelinhas, e lembre-se que quem diz isso hoje ouviu isso ontem. Estamos vivendo às custas de um futuro com o qual não queremos lidar, e por isso o jogamos nas mãos das novas gerações, até que um dia não haja mais tempo para fazer qualquer outra coisa senão tentar sobreviver precariamente num planeta sem vida.
Duas visões: em 1972 o Clube de Roma publicou um relatório chamado Limits to Growth (Limites para o crescimento), onde acusava o desenvolvimento acelerado e indefinido de ser fundamentalmente insustentável, e foi criticado tanto pelos países desenvolvidos quanto pelos em desenvolvimento. A Bariloche Foundation, através de pensadores do chamado mundo desenvolvido, respondeu em 1974, com a publicação de Limits to poverty (Limites para a pobreza), onde coloca a culpa na pobreza, e este trabalho foi mais aceito por motivos óbvios. Está claro para mim que a partir daí o movimento começou a se popularizar e a ser assimilado pelo capitalismo. A crença letal tratada aqui foi amplamente espalhada por pessoas que seguiram essa linha de raciocínio. Cito de um site sobre sustentabilidade (grifos meus): Todos os ciclos da natureza são perfeitos, nada está em excesso ou em falta. Apenas o homem é capaz de criar o excesso ou a falta, e apenas ele próprio é capaz de se responsabilizar para, daqui em diante, não apenas manter o planeta em condições saudáveis, mas também se comprometer em a restaurar o que já foi destruído. Espero que tenha ficado claro o quanto essa idéia é ingênua, considerando o ser humano com exclusivismo e colocando metas ilusórias (proteger e restaurar) para uma esfera de tempo ilusória (daqui em diante).
Janos Biro