Cultura
por John Zerzan

Cul-tu-ra. Geralmente interpretada como a soma dos costumes, idéias, artes, padrões etc. de uma determinada sociedade.  A civilização frequentemente é tida como um sinônimo da cultura, nos lembrando que o cultivo - como na domesticação - também estão inclusos. Os situacionistas, em 1960, consideravam que "a cultura pode ser definida como o conjunto de significados pelos quais a sociedade pensa de si mesma, e se mostra a si mesma". Tomando entusiasticamente, Bartnes observou que a cultura é "uma maquina de mostrar a você o desejo. Desejar, sempre desejar, mas nunca entender”.

A cultura já foi mais respeitada, aparentemente, algo "pelo qual viver". Agora, ao invés de nos referimos em como deterioramos a cultura, a ênfase é em como a cultura tem nos deteriorado. Definitivamente algo trabalhando e que nos bloqueia, não satisfaz e se faz mais evidente enquanto nos deparamos globalmente e dentro nós a morte da natureza. A cultura, ao contrário da natureza, cresce desordenadamente, amarga, e se esvai enquanto nos sufocamos num ar cada vez mais rarefeito da atividade simbólica. A cultura, mais ou menos desenvolvida, é a mesma prisão de consciência, o simbólico como agente repressivo.

A cultura é inseparável do nascimento e da continuidade da alienação, sobrevivendo, como sempre, como uma compensação, uma troca do real pela sua coisificação. A cultura incorpora a divisão entre a totalidade e partes do todo, se transformando em dominação. Tempo, linguagem, número, arte cultural, são imposições com vida própria que tem nos dominado.

As revistas e os jornais agora estão repletos com artigos lamentando a propagação da ignorância cultural e da amnésia histórica, duas condições que definem uma doença básica na sociedade. Em nossa época pós-modernista, a moda varia de um dia para o outro, assim como continuam a crescer o uso de drogas pesadas, o suicídio e desequilíbrio emocional. Há um ano atrás peguei uma carona de Berkley para Oregon com uma estudante do último período da Universidade da Califórnia, e em algum lugar ao longo da estrada pedi, depois de conversar sobre a década de 60, entre outras coisas, para ela descrever sua própria geração. Ela falou de seus colegas em termos como sexo sem amor, uso de heroína, de "uma sensação de desespero mascarado pelo consumismo”.

Enquanto isso, a negação em massa continua. Em uma recente coletânea de ensaios sobre a cultura, DJ. Enright oferece o sábio conselho que diz que "quanto mais comumente a miséria e o descontentamento pessoal são manifestados, mais elas têm domínio sobre nós”.Desde que a ansiedade tem buscado o refúgio através da forma cultural e da expressão, na abordagem simbólica da autenticidade, nossa condição provavelmente não tem sido essa falência tão explícita. Em "Deliberate Regression" (Regressão Deliberada) de Robert Harbison é outro trabalho que mostra a total ignorância a respeito do vazio fundamental da cultura: "a história de como o entusiasmo pelo primitivo e a crença de que a salvação está em uma desaprendizagem, acaba por ser uma força em quase todos os campos do pensamento.”

Certamente as ruínas estão aí para todos verem. Da arte esgotada na forma da "gororoba" reciclada do pós-modernismo, aos tecnocratas pós-estruturalistas como Lyortad, que acham em bancos de dados "a Enciclopédia do amanhã... a 'natureza' para o homem pós-moderno", incluindo formas impotentes pronunciadas de "oposição" como "micropolíticos" e "esquizopolíticas", é que estão pequenos porém obvios sintomas de uma fragmentação e desespero geral. Peter Sloterdiijk (Crítica da Razão Cínica) aponta que o cinismo é o fundamental, o ponto de vista difundido, que atualmente é o  melhor que a negação tem a oferecer.

Mas o mito da cultura irá conseguir sobreviver enquanto nosso sofrimento fracassar em nos forçar a confrontá-la, e o cinismo também existirá enquanto permitirmos a cultura existir no lugar da vida não mediada.