Isto é Anarco-herbalismo
Pensamentos sobre Saúde e Cura para a Revolução
Por Laurel Luddite
Minha caixa de remédios é um conjunto de
biorregiôes. Cada pote de plantas contêm uma
história (muitas vezes uma história triste de
ecossistemas sendo extintos, ou lugares que não existem mais).
Me sinto honrada por ter conhecido plantas em seus locais de origem e
ter estudado seus usos como medicamentos. Mas para as pessoas que
não têm muita sorte em perambular por locais selvagens e
distantes, adquirir preparações fitoterápicas,
como tinturas, pode ser um elo de ligação com esse tipo
de cura.
Como muitas coisas dessa sociedade de consumo, é fácil
ignorar as conexões entre uma garrafa em uma prateleira de uma
farmácia e uma planta viva, crescendo em algum lugar do mundo.
Pode ser difícil saber se a planta cresce a um quilômetro
de distância ou em outro continente. Há muita coisa para
se dizer sobre nos reconectarmos, e nos reeducarmos sobre as ervas que
usamos e colher nossos medicamentos quando pudermos. É assim que
conseguiremos construir todo um novo sistema de cura - um que pode nos
encorajar e nos ajudar a distanciarmos da estrutura de poder
corporativo que a medicina se tornou.
O desenvolvimento de um novo sistema médico, ou a
restauração dos modelos antigos, será mais um
reforço em nossa rede de segurança para quando o
industrialismo falhar. Ela nos manterá vivos e ativos agora, nos
últimos dias do sistema, quando tantas pessoas não
possuem acesso à medicina industrial, e irá restabelecer
nossa conexão com a medicina real, que é a Terra.
Uma alternativa à "medicina alternativa”
O tipo de medicina fitoterápica popular que existe hoje
(apresentada pela mídia e os capitalistas verdes como uma outra
empolgante moda passageira) trouxe com ela um vago conceito sobre um
novo método de cura. As plantas, reduzidas à
cápsulas, ou pior ainda, aos seus "ingredientes ativos",
são apenas novas ferramentas com que se trabalhar, na mesma
concepção que a medicina industrial vê as pessoas,
vendo seus corpos como máquinas. Elas se tornam o mesmo que
drogas farmacêuticas ou um bisturi: algo para intrometer no
corpo-máquina, para bagunçá-lo por dentro. Exceto,
é claro, que isso se torna muito menos eficaz, já que as
ervas foram retiradas do sistema de cura do qual elas possuem sua
energia.
Quando os vendedores de produtos fitoterápicos conseguem uma
nova "cura milagrosa", isso pode significar a extinção
para a planta. Isso é triste principalmente quando tantas
criaturas vivas tornam-se produtos inúteis ou são
desperdiçadas em doenças que elas não curam.
(Alguém já viu aquele xampu de Equinácea?) O
exemplo clássico disso é o Hidraste, (Hydrastis
canadensis), uma planta beirando a extinção na natureza.
Ela tem alguns efeitos impressionantes no corpo humano mas em sua maior
parte tem sido comercializada como uma cura para o resfriado, o qual
essa planta não ajudará em quase nada. A
propósito, os maiores comerciantes de Hidrastes colhidos na
natureza e muitas outras ervas famosas são as
corporações farmacêuticas multinacionais. Dada a
obsessão da sociedade americana com o Viagra
fitoterápico, pílulas de emagrecimento, e estimulantes, a
maioria das ervas no mercado estão sendo sacrificadas para essas
causas ridículas.
Existe uma alternativa para a "medicina alternativa". Michael Moore, um
herborista, autor e professor do sudoeste americano expressou da melhor
forma em uma de suas divagações recentes de uma palestra:
"Neste país, o negócio fitoterápico gira em torno
de substâncias comercializadas recentemente com novas pesquisas,
e elas vem deles até nós. Considerando que estamos
tentando estabelecer o máximo possível o fato de que
nós precisamos de criar uma prática e um modelo que
é impenetrável às modas. Nós estamos
tentando praticar de uma forma que vem da prática em vez do
marketing. Não vindo de cima até embaixo, mas de baixo
para a nossa volta. Biorregionalismo acima de tudo. Mantenha-se local.
Sem centralização porque a centralização
mata tudo."
Herba-Primitivismo
Então nós precisamos de outro maneira de olhar os nossos
corpos e as plantas medicinais. Observar os dois como interconectados e
em equilíbrio é algo novo para a cultura industrial, mas
na verdade é o modelo de cura mais antigo na terra. Nós o
conhecíamos antes de sermos pessoas. Os animais sabem como usar
plantas para se curarem. Seus exemplos nos rodeiam, desde cães
comendo grama até ursos cavando raízes Osha.
Provavelmente todas as sociedades humanas tiveram alguma forma de
explicar como o corpo funciona e como as plantas medicinais agem em
nós.
Uma coisa que todos os herboristas sabem - cães e ursos
incluídos - é que um problema de saúde é
melhor tratado antes dele começar. Nas sociedades mais
primitivas onde as pessoas têm o luxo de ouvir seus corpos
é mais fácil identificar um desequilíbrio antes
dele se tornar em um estado de doença grave. É aqui que
as ervas são mais eficientes. Elas funcionam nesse nível
sub-clínico (e portanto invisível para a medicina
industrial) de "desequilíbrios" e "deficiência" e
"excesso".
Esse sistema velho e novo é sutil e requer uma grande quantidade
de auto-conhecimento, ou pelo menos auto-consciência. Ele usa a
intuição como uma ferramenta de diagnóstico. A
emoção, espiritualidade, e o ambiente tornam-se
remédios. O espírito e o ambiente das plantas que
nós colhemos afeta suas propriedades curativas, e nosso
relacionamento com essas plantas se torna muito importante.
Erbologia Verde
Quando tomamos medicamentos fitoterápicos nós estamos em
parte tomando o ambiente da planta. Tudo o que ela comeu e tomou e
vivenciou formou o medicamento que você está dependendo,
então é melhor que você se certifique que ela tenha
do melhor. Quando somos curados por plantas, nós ficamos devendo
à elas tomar conta de suas espécies e dos lugares que
elas vivem. Coletores de plantas tradicionais geralmente têm uma
prece que recitam antes de retirar qualquer coisa da natureza. Eu
geralmente digo algo em torno de "Ok, planta. Você me cura e eu
tomo conta de você. Ninguém irá construir em cima
de você, ou te cortar, ou pegar muitas enquanto eu estiver por
perto." Então esse sistema de cura verdadeiro tem em seu
coração um ambientalismo profundo e um comprometimento
com a Terra.
O conceito biorregional é importante para esse modelo de cura.
As ações das plantas em nossos corpos são
realmente bem limitados pelos elementos químicos que elas podem
produzir da luz do sol e do solo. Para cada erva famosa no mercado que
é cortada das florestas tropicais ou cavadas das montanhas,
existe provavelmente uma planta com uma ação similar
crescendo em sua bacia hidrográfica. Alguns dos melhores
remédios para manter uma boa saúde crescem em lotes vagos
e jardins negligenciados por todo o mundo.
Anarco-herbalismo
Uma sociedade de pessoas que são responsáveis pelas suas
próprias saúdes e estão aptas a coletar ou
cultivar seus próprios remédios é uma sociedade
difícil de governar. Nesses dias nós estamos dependentes
na estrutura de poder do sistema de saúde industrial - a
sociedade secreta dos doutores, as escolas de medicina dominadas por
pessoas brancas do sexo masculino, os tomadores de decisões
corporativos com seus farmacêuticos tóxicos e
ganância sem coração e laboratórios cheios
de seres torturados. Essa dependência é mais uma coisa nos
mantendo presos ao Estado e incapazes de nos rebelarmos com todos os
nossos corações ou até mesmo visualizar um mundo
sem tal opressão. Com um novo sistema de cura, baseado em
auto-conhecimento e na sabedoria de ervas, nós seremos muito
mais livres.
Oferecer uma alternativa real ao sistema de saúde irá
ajudar a acalmar alguns dos medos das pessoas sobre retornar a um modo
de vida anarquista, centrado na Terra. Existe uma falsa
segurança nos homens com suas grandes máquinas, prontas
para te colocarem de volta (se você tiver dinheiro o suficiente.
O que é ignorado é o fato de que a sociedade industrial
causa a maior parte das doenças que as pessoas temem. Vivendo
livres em uma Terra que cura enquanto somos cercados por uma comunidade
verdadeira e nos alimentamos de um alimento real provará ser um
remédio melhor do que qualquer coisa que você pode comprar.
Que passos devemos tomar agora para criar esse novo sistema de
medicamentos? Nós todos precisamos aprender o que podemos sobre
nossa própria saúde. Isso pode ser pelo treinamento em um
ou mais de um dos modelos de sobrevivência da cura tradicional
e/ou pela auto-observação. Como você se sente
quando você está começando a ter um resfriado? Que
tipos de problemas aparecem repetidamente, principalmente quando
você está estressado? Se você é uma mulher,
qual a duração do seu ciclo e como o sangue se parece?
Entendendo como os nossos corpos agem em tempos saudáveis pode
nos ajudar a reconhecer os estágios iniciais de doenças,
que é quando as ervas são mais proveitosas.
As pessoas que possuem alguma experiência em curas (no sistema
tradicional ou industrial) podem ser de grande ajuda para aqueles de
nós que estamos apenas aprendendo. Os curadores que estão
trabalhando para formar este novo modelo, seja coletivamente ou por
suas práticas individuais, devem ter em mente que o compromisso
com a Terra e uma forma descentralizada são centrais para a
medicina realmente revolucionária.
Nestes tempos de mudança, tudo está sendo examinado e ou
destruído e reconstruído, ou criado de nossos
corações. O industrialismo tem afetado todos os aspectos
de nossas vidas - nós estamos apenas começando a perceber
o quanto foi perdido. A medicina é somente uma parte da
máquina que nós temos que tomar de volta e recriar em uma
forma que funciona para a sociedade que nos tornaremos. Toda erva,
pílula, e procedimento devem ser julgados pela sua
sustentabilidade e acessibilidade para pequenos grupos de pessoas.
Nós podemos começar com nós mesmos, dentro de
nossas comunidades e círculos, mas devemos nunca pararmos de
expandir até que a medicina industrial enferruje em um
túmulo esquecido, uma vítima de seus próprios
desequilíbrios.
Publicado na Green Anarchy #16 (Back to Basics Vol.3 - Rewilding)