Para
nós anarquistas as questões de como agir e como organizar
estão intimamente ligadas. E é estas duas
questões, não a questão do desejo de uma futura
sociedade, que nos abastece com o mais frutífero método
de entendimento das várias formas de anarquismos que existem.
O anarquismo
insurrecionário é um dessas formas, apesar de ser
importante enfatizar que o anarquismo insurrecionário não
forma um bloco unificado, mas é extremamente variado em
suas perspectivas. O anarquismo insurrecionário não
é uma solução ideológica para os problemas
sociais, nem um produto no mercado capitalista de ideologias e
opiniões. Antes disso é uma prática
contínua visando por um fim na dominação do Estado
e na continuidade do capitalismo, o que requer analise e
discussão para avançarmos. Historicamente , a maioria dos
anarquistas, exceto aqueles que acreditavam que a sociedade poderia
chegar a um ponto onde deixaria o estado para trás, tem
acreditado que alguma forma de atividade insurrecionária seria
necessária para transformar radicalmente a sociedade. Mais
simplesmente, isto significa que o estado deve ser destruído
pelos explorados e excluídos, portanto os anarquistas devem
atacar. Esperar que o estado desapareça é derrota.
Neste texto
explicaremos algumas implicações que nós e outros
anarquistas insurrecionários temos esboçado de problema
em geral: se o Estado não irá desaparecer por si mesmo,
como então colocaremos um fim a sua existência? O
anarquismo insurrecionário é principalmente uma
prática, e é focada na organização do
ataque.
Portanto, o
adjetivo 'insurecionário' não faz alusão a um
modelo de futuro. Anarquistas que acreditam que temos que passar por um
período inssurecionário para livrar o mundo das
instituições de domínio e
exploração, além de tudo, tomam variadas
posições sobre os aspectos de uma sociedade futura -
podem ser anarco-comunistas, individualistas ou primitivistas, por
exemplo. Muitos recusam em oferecer um modelo específico de
futuro singular ou específico, acreditando que as pessoas
irão escolher uma variedade de formas sociais para organizarem a
si mesmos quando tiverem a chance. Anarquistas insurrecionários
são críticos daqueles que acreditam ser os "portadores da
verdade" e tentam impor suas soluções formais e
ideológicas ao problema da organização social. Em
vez disso muitos anarquistas insurrecionários acreditam que
é através da auto-organização da luta que
as pessoas irão aprender a viver sem as
instituições de dominação.
Existe um outro
uso mais especifico do termo 'insurrecionário' - um que vem da
distinção feita por Max Stirner, um filosófo e
individualista alemão do século XIX, entre a
insurreição e a revolução. (1) Para Max
Stirner, revolução implica em uma transição
entre dois sistemas, enquanto que a insurreição é
uma revolta que começa do descontentamento individual com sua
própria vida e através disso o individuo não
procura construir um novo sistema , mas cria as
relações que ele deseja. Ambas as
concepções em geral têm informado o anarquismo
insurrecionário.
Neste artigo
iremos primeiramente explorar algumas implicações gerais
destes dois contextos de insurreição. E então,
como estas idéias tem crescido da pratica da luta e da
experiência concreta, iremos explicar estas idéias adiante
colocando-as num contexto histórico de seu desenvolvimento.
Enquanto os
anarquistas insurrecionários são ativos em muitas partes
do mundo no momento, somos particularmente influenciados pelas
atividades e escritos dos anarquistas insureccionários da
Itália e Grécia, que são os países onde os
anarquistas insurrecionários estão mais ativos. A atual
cena e extremamente variada do anarquismo insurrecionário
italiano, que se concentra ao redor de numerosos espaços
ocupados e publicações, existe como uma rede informal
levando suas lutas para fora de toda organização formal.
Esta tendencia tem levado o termo 'anarquistas insurecionários'
como uma forma de se diferenciar da Federação Anarquista
Italiana; uma organização plataformista que rejeita
oficialmente os atos individuais de revolta, favorecendo apenas as
ações de massas e uma pratica educacional e
evangelizadora centrada em propaganda em 'períodos não
revolucionários' - e também dos municipalistas
libertários italianos (2), cujo toma a atividade anarquista como
um processo extremamente reformista.
O Estado
não irá definhar, como parece para muitos anarquistas que
vem a acreditar nessa possibilidade - alguns estão seguros
numa posição de espera, enquanto outros abertamente
condenam os atos daqueles que acreditam que a criação de
um novo mundo depende da destruição do velho. Atacar
é a recusa da mediação, da
pacificação, do sacrifício, da
acomodação, e da negociação da luta.
É através do ataque que se aprende a atacar. Esperar
apenas ensina esperar; na ação se aprende a agir. Ainda
que seja importante notar que a força de uma
insurreição é social, e não militar.
A medida para
avaliar a importância de uma revolta generalizada não
é o conflito armado, mas ao contrário, é a
extensão da paralisia da economia, da normalidade. Se os
estudantes continuarem a estudar, se os trabalhadores e
funcionários de escritório continuarem a trabalhar, o
desempregado unicamente se esforçando em arranjar emprego,
então a mudança não será
possível. Podemos olhar como inspiração os
exemplos de maio de 1968 em Paris, na Itália na decáda
1970, ou mais recentemente a insurreição na
Albânia. (3)
A sabotagem e outros "ataques modestos"
Como anarquistas,
a revolução é nosso constante ponto de referencia;
não importa o que estamos fazendo ou qual problema estamos
envolvidos. Mas a revolução não é
simplesmente um mito para ser usado como um ponto de referencia, a
revolução não deve ser tomada como um evento
abstrato no futuro. Exatamente porque a revolução
é um evento concreto, é necessário
construí-la diariamente através de ataques modestos que
não possuem totalmente as características libertadoras de
uma revolução social em seu sentido real. Estes ataques
modestos são insurreições. Nestes ataques a
revolta dos mais explorados e excluídos da sociedade e da
minoria politicamente informada abrem caminho para o possível
envolvimento das variadas seções dos explorados em um
fluxo de rebelião que pode levar a revolução.
Durante o ultimo ano, temos visto o inicio deste processo ocorrendo na
Argentina.
Contudo as lutas
devem ser desenvolvidas em ambos termos intermediários e a longo
tempo. E outras palavras, é possível e necessário
intervir nas lutas intermediárias, isto é, nas lutas que
estão definidas, mesmo localmente, com objetivos precisos que
nascem de algum problema específico. Isto pode ser por
ações-diretas na resistência contra a
construção de uma base militar ou prisões; lutas
contra as instituições da propriedade, como por exemplo
ocupações e greves de aluguel; ou atacando projetos
particularmente capitalistas, tal como ferrovias de alta velocidade,
plantações genéticamente modificadas, ou linhas de
transmissão de energia. Isto não deveria ser considerado
de importância secundária; tais tipos de lutas
também perturbam o projeto universal capitalista.
Para estes eventos
aumentarem, eles devem se espalhar; o anarquismo
insurrecionário, portanto, coloca uma importância
particular no distribuição e na extensão da
ação, não na revolta administrada, para que nem o
exercito nem a policia sejam capazes de controlar a
distribuição generalizada de tais atividades
autônomas. Prestando atenção em como as lutas tem
espalhado tem levado a muitos anarquistas a almejarem seu foco critico
na questão da organização, para onde quer que a
luta centralizada esteja controlada e limitada (para entendermos isso
precisa-se apenas pensar nos vários exemplos de movimentos
revolucionários na América Latina que até
recentemente eram controlados pelo 'Partido'). A luta autônoma
tem a capacidade de se espalhar de modo 'Capilar'.
Por essa
razão, o que o sistema teme não é os atos de
sabotagem em si, mas que eles se espalhem socialmente. A
incontrolabilidade em si mesma é a força de uma
insurreição. Todo individuo proletarizado que
dispõem mesmo dos mais modestos meios pode desenvolver seus
próprios objetivos, sozinhos ou juntamente com outros. É
materialmente impossível para o estado e o capital policiar o
terreno social totalmente. Qualquer um que realmente quer contestar a
rede de controle pode fazer sua própria
contribuição pratica e teórica como ele entende
apropriado. Não existe necessidade de se encaixar num papel
estruturado da revolta formalmente organizada ( a revolta que é
limitada e controlada por uma organização). O
aparecimento da primeira ruptura com os vínculos do
controle social coincide com a propagação dos atos de
revolta. A pratica anônima de libertação social
pode se espalhar para todos os campos, quebrando os códigos da
prevenção colocados pelo poder.
Em momentos quando
as insurreições em larga escala não estão
ocorrendo, pequenas ações - o que requer meios não
sofisticados que estão disponíveis para todos e que
são facilmente reproduzidos - são pela sua própria
simplicidade e espontaneidade incontroláveis. Zombam de toda
mais avançada tecnologia desenvolvida na
contra-insurgência. Nos Estados Unidos, uma seqüência
de incêndios em projetos ambientalmente prejudiciais, alguns
reivindicados pela E.LF. (sigla em inglês para Earth Liberation
Front, "Frente de Libertação da Terra"), tem se espalhado
pelo país devido a simplicidade básica da técnica.
Na Itália, a sabotagem em linhas de trem de alta velocidade tem
se espalhado incontrolavelmente, novamente devido a qualquer pessoa
poder planejar e levar adiante sua própria ação
sem precisar de uma grande organização com
princípios e constituição, técnica complexa
e conhecimento sofisticado.
Em
adição a isto, contrariando os matemáticos dos
grandes partidos revolucionários, nunca é possível
ver a conseqüência de uma luta especifica em progresso.
Mesmo uma luta limitada pode ter as conseqüências mais
inesperadas. A passagem de varias insurreições -
limitadas e definidas - para a revolução nunca pode ser
garantida em antecipado por qualquer método, nem alguém
saber antecipadamete que as ações atuais não
levaram para um futuro momento insurrecionário.
As Raízes do Anarquismo Insurrecionário
Como o anarquismo
insurrecionário é uma pratica em desenvolvimento -
não um modelo ideológico do futuro ou historia
determinista - os anarquistas insurrecionários não
tomam o trabalho de nenhum teórico revolucionário como
suas doutrinas centrais: portanto os anarquistas
insurrecionários não Bakunistas por exemplo, e não
sentem necessidade de defender todos seus escritos e
ações.Ainda sim Bakunin foi historicamente importante
para o desenvolvimento de um anarquismo que foca sua força na
insurreição. Diferentemente de Marx, quem construiu
seu apoio na Primeira Internacional, dentro de uma estrutura executiva
central, Bakunin trabalhou para construir um apoio para
ações coordenadas embora insurreições
autônomas na base, especialmente no sul da Europa. E desde os
tempos de Bakunin, anarquistas insurrecionários tem sido
concentrados no sul da europa.
Em resposta a
Comuna de Paris de 1987 e aos conflitos da Primeira Internacional ,
pode-se observar a formação de conceitos de anarquismo
insurrecionário. Enquanto Marx acreditava que a nova forma
política da Comuna ( formas de democracia e
representação) poderia levar adiante a
revolução social, Bakunin argumentava que formas
políticas e organizacionais tem freiado a
revolução. Também de influencia para os
insurrecionários posteriores, Bakunin argumentou que seriam as
ações que espalharariam a revolução ,
não palavras. Em 1987, Marx e seus partidários
aliados aos seguidores de Blanqui - de quem o conceito de "ditadura do
proletáriado" veio - para cortar Bakunin e seus apoiadores de
uma conferencia especial de fins sociais revolucionários.
Como o foi colocado em Sonviller que seria impossível "
para um sociedade livre e igualitária vir de uma
organização autoritária". Marx pejorativamente
denominou a conferência de Sonvilier de "anarquista", e aqueles
que estavam na conferencia denominaram a conferencia de Londres de
"Marxista" para marcar sua tentativa autoritária em controlar a
Internacional. Em 1872, Marx foi bem sucedido em expulsar Bakunin da
Internacional e exigiu que todos os membros da
organização defendessem a conquista do poder
político como pré-requisito necessário para a
revolução.
A luta social e individual
Outra
questão que tem causado muito debate nos círculos
anarquistas é a suposta contradição entre a luta
individual e a social: Novamente , esta é uma questão de
organização da luta. Este é um debate que tem
continuado e ainda continuará nos círculos anarquistas
insurrecionários; Renzo Novatore defendia a revolta individual,
Errico Malatesta a Luta social, enquanto Luigi Galleani acreditava que
não existe contradição entre as duas lutas.
Novatore, Um
anarquista italiano que morreu num tiroteio com a polícia em
1922, escreveu " a anarquia não é uma forma social, mas
um método de individualização. Nenhuma sociedade
irá me conceder mais do que uma liberdade limitada e conforto
que é permitido a cada um de seus membros "(4) Malatesta,
também um italiano e um insurrecionário atuante em toda a
sua vida, foi um anarco-comunitsa para quem o anarquismo foi baseado na
organização do ataque da luta coletiva, especialmene do
movimento trabalhista, e ainda assim , foi muito crítico de
qualquer forma de organização que poderia se tornar
autoritária. Esta foi a base de seu de sua divergência com
os plataformistas russos - que tentaram criar uma
organização revolucionária centralizada e
unitária.
Malatesta criticou
a proposta dos plataformistas - que tentaram por adiante seu programa
em resposta a vitória dos bolcheviques na Rússia - por
tentarem disciplinar e sintetizar a luta numa única
organização. Em sua critica à proposta ele
afirmou, "para chegarem a seus objetivos, as organizações
anarquistas devem em sua formação e
operação, permanecer em harmonia com os
princípios do anarquismo; isto é, devem saber como
combinar a livre ação de indivíduos com a
necessidade e o prazer da cooperação que serve para
desenvolver a consciência e a iniciativa de seus membros".
Enquanto muitos anarquistas sociais de hoje criticam os anarquistas
insurrecionários afirmando que tais anarquistas são
contra a organização como tal, vale lembrar que a
maioria dos anarquistas sociais e anarco-comunistas ativos no
começo do ultimo século não viam a
organização e o individualismo como uma
contradição, e que poucos anarquistas tem sido contra a
organização como tal. Malatesta em sua
declaração de 1927 sobre o assunto ostenta repetindo : "
Julgando por certas polêmicas pareceria que existe anarquistas
que rejeitam qualquer forma de organização; mas de fato
as muitas, muitas discussões sobre este tema, mesmo quando
ignorada por questões como linguagem ou envenenada por
questões pessoais, estão preocupadas com os meios e
não com o atual principio da organização.
Portanto, isto acontece quando aqueles camaradas que soam como os mais
hostis à organização querem de fato fazer algo
eles se organizam da mesma maneira como o resto de nós e muitas
vezes mais efetivamente. o problema, repito, é inteiramente
sobre meios".(5)
Gallleani, que
imigrou para os Estados Unidos em 1901 após enfrentar a
prisão na Europa editou um dos mais importantes jornais
anarquista italiano nos Estados Unidos, Cronaca Sovversiva, e foi
critico da organização formal. Em seus artigos e falas
ele unia as idéias de Kropotkin sobre apoio mútuo
com a insurgência irrestrita, defendendo o anarquismo comunista
contra o socialismo autoritário e o reformismo, falando sobre o
valor da espontaneidade, variedade, autonomia e independência,
ação direta e auto determinação. Galleani e
seus seguidores eram profundamente suspeitos quanto as
organizações formais, vendo-as como possíveis de
se tornarem organizações hierárquicas e
autoritárias. Desde então a critica à
organização formal tem se tornado uma
preocupação central para a maioria dos anarquistas
insurrecionários. Galleani não via
contradição entre a luta individual e a luta social, e
não via contradição entre a anarquia e o
comunismo. Galleani foi firmemente contra o comunismo
autoritário, cujo ele observava como algo crescente entre as
ideologias coletivistas - a idéia de que a
produção e consumo devem ser organizados num coletivo no
qual os indivíduos devem participar. Galleani foi uma das
principais influências daqueles que hoje se consideram
anarquistas insurrecionários.
"Por que somos anarquistas insurrecionários?
Porque
consideramos ser possível contribuir para o desenvolvimento das
lutas que estão aparecendo espontâneamente em todos os
lugares, tranformando as lutas em insurreções de massas -
o que significa revoluções efetivas.
Porque
queremos destruir a ordem capitalista do mundo da qual nao é
benéfica a ninguem , mas somente aos administradores da classe
dominante.
Porque
somos pelo ataque imediato e destrutivo contra as estruturas ,
indivíduos e organizações do capital, do estado e
de todas as formas de opressão.
Porque
criticamos construtivamente todos aqueles que estão em
negociação com o poder em suas crenças de que a
luta revolucionária é impossível no momento atual.
Porque no lugar de esperar, decidimos desenvolver ações, mesmo se o momento não seja oportuno.
Porque
queremos colocar um fim no estado das coisas imediatamente, no lugar de
esperar até que as condições façam tais
transformações possíveis.
Estas são algumas das razões do porque de sermos anarquistas, revolucionários e insurrecionários."
Alfredo Bonanno
O debate sobre a
relação entre a luta social e a luta individual, entre
individualismo e comunismo, continua atualmente. Alguns anarquistas
insurrecionários argumentam que a insurreição
começa com o desejo dos indivíduos em romper com as
circunstâncias de constrangimento e
controle, o desejo
de reapropriar a capacidade de criar sua própria vida da maneira
que lhe convém. Isto requer que se supere a
separação entre eles mesmos e suas
condições de existência - alimento,
habitação, etc. Onde poucos, os previlegiados, controlam
as condições de existência, não é
possível para a maioria dos indivíduos determinar
verdadeiramente suas existências em seus próprios termos.
A individualidade apenas pode florescer quando existe a igualdade do
acesso as condições de existência. Esta
igualdade de acesso é o comunismo; o que os indivíduos
fazem com que o acesso seja possível para eles e para aqueles ao
redor deles. Caso contrário, não existiria igualdade ou a
identidade individual subentendida num verdadeiro comunismo. O que nos
coage em uma identidade ou em uma igualdade de existência
são os papéis sociais impostos pelo sistema atual.
Portanto não existe contradição entre individualidade e comunismo.
O projeto
anarquista insurrecional se desenvolve do desejo individual em
determinar como se viver a sua própria vida e com quem levaremos
esse projeto de auto-determinação. Mas este desejo
é confrontado por todos os lados pela ordem existente, uma
realidade na qual as condições de nossa existência
e as relações sociais através da qual nossas vidas
são criadas tem sido prontamente determinado pelos interesses
das classes dominantes, que se beneficiam das atividades que nós
somos compelidos a fazer para a nossa própria
sobrevivência.
Portanto o desejo
pela auto-determinação e auto-realização
individual leva a necessidade de uma analise de classe e a luta de
classe. Mas as velhas concepções trabalhistas, as quais
perceberam a classe trabalhadora industrial como o sujeito central da
revolução, não estão adequadas a esta
tarefa. O que nos define como classe é a nossa
privação, o fato de que o sistema atual de
relações sociais rouba nossa capacidade de determinar as
condições de nossa existência. A luta de classes
existe em todos os atos individuais e coletivos de revolta onde
pequenas porções de nossa vida diária são
tomadas de volta ou pequenas porções dos aparatos de
dominação e exploração são
obstruídos, danificados ou destruídos. Num sentido
significativo, não existem atos de revoltas isolados ou
individuais. Todos esses atos são respostas à
situação social, e muitos envolvem alguns níveis
de cumplicidade, indicando um certo nivel de luta coletiva. Considere ,
por exemplo, a espontaneidade, em sua maioria de
organizações não pronunciadas do furto de bens e a
sabotagem no sistema de trabalho que continuam na maioria dos locais de
trabalho; está coordenação informal da atividade
subversiva carregada pelo interesse de cada individuo envolvido num
principio central da atividade coletiva para os anarquistas
insurrecionários, porque a coletividade existe para servir os
interesses e desejos de cada individuo na reapropriação
de suas vidas e muitas vezes carregam nisto um conceito de modos de
relações livres de exploração e
dominação.
Mas mesmo atos
solitários de revolta possuem seu aspecto social e são
parte da luta geral dos despossuídos. Através de uma
atitude crítica direcionada às lutas do passado, as
mudanças nas forças de dominação e suas
variações entre diferentes lugares,e o desenvolvimento
das lutas atuais, podemos fazer nosso ataque mais estratégico e
direcionado. Tal atitude crítica é o que permite as lutas
de difundirem. Ser estratégico, de qualquer forma não
significa que exista apenas um modo de luta; estratégias claras
são necessárias para permitir diferentes métodos
para serem usados de uma maneira coordenada e frutífera.
As lutas individuais e coletivas não são
contraditórias , nem idênticas.
Crítica da organização.
Na itália,
os fracassos dos movimentos sociais na décadas de 1960 e 1970
levaram a uma reflexão do movimento revolucionário e
outros o abandonarem. Durante a década de 1970 muitos grupos
leninistas concluíram que o capitalismo passando pela sua crise
final, e então se moveram para a luta armada. Estes grupos
atacaram como revolucionários profissionais, reduzindo suas
vidas a um papel social singular. Porém na década de 80
eles vieram a acreditar que o momento para a luta social
revolucionária tinha acabado, e então eles reclamaram
para os prisioneiros do movimento da década de 70, alguns foram
ao ponto de se desligarem da luta. Isto separou eles dos anarquistas
insurrecionários que acreditavam que a luta
revolucionária em derrubar o capitalismo e o estado ainda
continuava, por nenhuma historia determinista poder nomear o momento
correto para se rebelar. De fato, a historia determinista muitas
vezes se torna uma desculpa para não agir e apenas empurra uma
possível ruptura com o presente distante no impossível.
Muitas das
criticas dos anarquistas insurrecionários italianos ao movimento
da década de 70 focaram nas formas de organização
que formaram as forças da luta e disto uma idéia mais
desenvolvida de organização informal cresceu. Uma critica
das organizações autoritárias dos anos 70, cujo
membros muitas vezes acreditavam estar numa posição
privilegiada para a luta em comparação ao
proletáriado como um todo, foi refinada mais adiante nas lutas
da década de 80, como por exemplo no começo dos anos 80 a
luta contra uma base militar que foi abrigo para armas nucleares em
Comiso, Sicilia. Os anarquistas foram bem ativos nesta luta, que foi
organizada em ligas auto-gestionadas. Para este caso, as ligas
autônomas tomaram três princípios gerais para guiar
a organização da luta: conflito permanente, autonomia e
ataque! conflito permanente significa que a luta poderia permanecer em
conflito com a construção da base até o fim sem
mediação ou negociação. Estas ligas
são auto-criadas e auto-geridas; recusam a
delegação permanente da representação e do
profissionalismo na luta. As ligas foram
organizações do ataque contra a construção
da base, não a defesa dos interesses de um ou outro grupo. Este
tipo de organização permite aos grupos tomarem as
ações que eles consideram como as mais efetivas enquanto
que ainda sejam hábeis em coordenar o ataque quando seja
útil, desta forma mantém aberto o potencial da luta se
espalhar. Isto também mantém o foco da
organziação no objetivo do fim da
construção da base no lugar da construção
de organizações permanentes, nas quais a
mediação com as instituições do estado para
uma divisão de força comumente se torna o foco e
limita a autonomia da luta.
Assim como os
anarquistas na luta de Comiso entenderam, uma das razões
centrais que as lutas sociais estão impedidas de se
desenvolverem numa direção positiva é a
prevalência dessas formas de organização que nos
podam de nossas próprias forças para agir e fecha as
possibilidades de uma potencial insurreição. Estas
são as organizações permanentes, as que sintetizam
toda a luta numa única organização, e
organizações que mediam as lutas com as
instituições de dominação. As
organizações permanentes tendem a se desenvolver em
direção a instituições que estão
acima da luta da multidão. Tendem a desenvolver uma hierarquia
formal ou informal e a enfraquecer a multidão : a força
é alienada de sua forma ativa na multidão e é
instituída dentro da organização. Isto acaba
transformando a multidão ativa numa massa passiva. A
constituição hierárquica das
relações de poder remove a decisão de um momento
quanto tal decisão é necessária e a coloca dentro
da organização. Decisões que seriam feitas por
aqueles envolvidos numa ação são transferidas para
a organização; além do mais, as
organizações permanentes tendem a fazer decisões
não baseadas na necessidade de uma ação ou
objetivo especifico, mas nas necessidades da organização,
especialmente em sua preservação. A
organização se torna um fim em si mesma. Basta olhar para
as atividades de muitos partidos socialistas para ver isto em sua forma
mais ostensiva.
Como a
organização se move em direção a
permanência e vem a se colocar acima da multidão, o
organizador aparece - muitas vezes reivindicando ter criado a luta -e
começa a discursar para as massas. è o trabalho do
organizador em transformar a multidão em uma massa
controlável e a representar as massas para a mídia ou
instituições do estado. Os organizadores raramente
consideram a si mesmos como parte da multidão, portanto eles
não vêem a multidão como força para agir,
mas para a propaganda e organização, para isso é
as massas que agem.
A opinião Fabricada
Para os
organizadores, aqueles que tomam como lema " apenas o que aparece na
mídia existe", a ação real sempre toma um ar de
inferioridade para a manutenção da imagem
midiática. O objetivo da manutenção de tal imagem
nunca é atacar uma instituição de
dominação especifica, mas para ter influência sobre
a opinião pública, para a eterna construção
do movimento ou, ainda pior, da organização. Os
organizadores devem sempre se preocupar sobre como as
ações dos outros irão refletir no movimento, eles
devem, por essa razão, tentar disciplinar a luta da
multidão e tentar controlar como o movimento é
representado na mídia. A imagem comumente substitui a
ação pela organização permanente e o
organizador.
A tentativa de
controlar a imagem e a opinião-fabricada da sociedade é
uma batalha perdida, como se pudéssemos sempre tentar equiparar
a quantidade de imagens difundidas ela mídia ou fazê-las
'contarem a verdade'. Portanto, muitos anarquistas tem sido
extremamente críticos quanto a levar a luta com a mídia
capitalista. Na Itália, isto tem colocado os anarquistas
insurrecionário em disputa com organizações como o
Ya Basta! que consideram a mídia como um veículo chave
para seu movimento; em outras partes do mundo, a questão sobre
como os anarquistas poderiam se relacionar com a mídia tem sido
o foco de um debate nos anos recentes - especialmente desde 1999
em Seattle - por isso é importante para nós apresentarmos
as posições críticas de alguns anarquistas
insurrecionários.
Num nível
básico, devemos questionar , o que é a opinião?
Uma opinião não é algo essencialmente encontrado
entre o publico em geral e então, posteriormente, reproduzida
através da mídia, como uma simples noticia da
opinião pública. A opinião existe na mídia
primeiramente. Em segundo
lugar, a midia
reproduz a opinião um milhão de vezes, relacionando a
opinião a certos tipos de pessoas ( conservadores pensam X,
liberais pensam Y). em terceiro, como Alfredo Bonanno colocou "(uma
opinião) é uma idéia alisada, uma idéia que
foi uniformizada de maneira que a faça aceitável para um
grande número de pessoas. Opiniões são
idéias massificadas."(6) A opinião pública
é produzida como uma série de escolhas e
soluções simples ( " Eu sou favoravél a
globalização e pelo livre comércio" ou "Eu sou
favorável ao controle nacional e ao protecionismo"). Somos todos
esperados a escolher - assim como escolhemos os lideres ou nossos
hamburgueres - no lugar de pensarmos por nós mesmos. Portanto
é obvio que os anarquistas não podem usar a fabrica
de opinião-feita para criar uma contra-opinião, e
esperançosamente os anarquistas deveriam nunca querer operar no
nível da opinião , mesmo se pudéssemos de alguma
maneira exercer controle sobre o conteúdo vomitado pelos
portões da fabrica. De qualquer maneira, a ética do
anarquismo nunca poderia ser comunicada na forma de opinião;
morreria , uma vez massificada. Ainda porque, é exatamente no
nível da opinião que os organizadores trabalham, a
opinião e a manutenção da imagem são as
ferramentas do poder, ferramentas usadas para modelar e disciplinar a
multidão em massas controláveis.
No lugar de se
direcionar ao poder e a tomada de decisão em uma
organização, a maioria dos anarquistas
insurrecionários reconhecem a necessidade de se organizar
num modo que não possua a formalidade e a autoridade que separa
os organizadores desorganizados; estas forma é chamada
organização informal. Devido a natureza dos organizadores
em controlar e planificar, muitas vezes eles priorizam a
perpetuação da organização acima dos outros
objetivos. A organização informal, por outro lado, se
dissolve quando o objetivo é alcançado ou abandonado;
não se perpetua a si mesmos meramente para ao beneficio da
organização se os objetivos que causaram a
organização das pessoas tem cessado de existir.
Como no caso das
ligas de Comiso, a organização informal é um meio
para que os grupos de afinidade possam coordenar esforços quando
necessário. devemos sempre nos lembrar de que muitas coisas
podem ser feitas mais facilmente por um grupo de afinidade ou por um
individuo, nestes casos, grandes níveis de
organização apenas faz o processo da tomada de
decisão ser embaraçoso - insto nos sufoca. A menor
quantidade de organização necessária para
alcançar um objetivo é sempre o melhor para maximizar
nossos esforços.
As
organizações informais devem ser baseadas na ética
da ação autônoma; a autonomia é
necessária para evitar que nossas forças ativas se tornem
alienadas, para prevenir a formação de
relações de autoridade. Autonomia é a recusa em
obedecer ou dar ordens, o que é sempre gritado do alto ou
além da situação. A autonomia permite as
decisões serem feitas quando elas são necessárias,
no lugar de serem predeterminadas ou aguardadas pela decisão de
um comitê ou reunião. Isto não significa dizer
entretanto que não deveríamos pensar
estratégicamente sobre o futuro e fazer consenso ou planos. Ao
contrário, planos e consenso são úteis e
importantes. O que é enfatizado é a flexibilidade que
permite as pessoas a descatarem planos quando eles se tornam
inúteis. Planos devem ser adaptáveis aos eventos de
acordo com seu desdobramento.
Como uma
organização informal deve ter uma ética de
autonomia ou então será transformada em uma
organização autoritária, para evitar a
alienação de nossas forças ativas, também
devem ter uma ética de não negociar os objetivos da
organização.
Os objetivos da
organização poderiam ser abandonados ou levados adiante.
Negociar com aqueles que nós nos opomos (ou seja, Estado e
corporações) anula qualquer oposição real,
reduz nosso poder de ação com o dos nossos inimigos.
As migalhas
jogadas por aqueles que nós nos opomos para nos abrandar e
distrair devem ser recusados. Negociar com qualquer
instituição de dominação ( o Estado, a
policia, WTO, FMI, 'O Partido', etc) é sempre a
alienação de nossa força que nós
supostamente desejávamos destruir; este tipo de
negociação resulta na perda do nosso poder de agir
decisivamente, de fazer decisões e ações quando
decidimos. Como tal, negociar faz apenas o estado e o capital mais
fortes. Para aqueles que desejam abrir a possibilidade da
insurreição, para aqueles que não desejam esperar
por uma suposta condição material apropriada para a
revolução, para aqueles que não uma
revolução que é meramente a criação
de uma nova estrutura de poder, mas querem a destruição
de todas as estruturas de poder que alienação nossa
força de nós, a negociação é
contrária aos seus objetivos. Recusar continuamente a
negociação é estar em conflito perpétuo com
a ordem estabelecida e suas estruturas de dominação e
pobreza.
Solidariedade Revolucionário
A solidariedade
revolucionária, uma outra pratica central do anarquismo
insurrecionário, nos permite ir para além do estilo de
solidariedade "mande um cheque" que é tão penetrada na
esquerda, assim como a solidariedade que permanece em
petições ao estado ´para assistência ou
piedade. Um exemplo de solidariedade revolucionária foi a
ação de Nikos Maziots contra a empresa mineradora TVX
Gold, em dezembro de 1997. (7) Muitas pessoas dos vilarejos ao redor de
Strymonikos ao norte da Grécia estavam lutando contra a
instalação de uma usina mineradora em sua área. Em
solidariedade com os aldeões, Nikos colocou uma bomba no
Ministério da Indústria e Desenvolvimento que seria
detonada quando o edifício estivesse vazio; infelizmente, isto
não veio a acontecer. Nikos foi condenado a 50 anos de
prisão , mas agora está em liberdade. A TVX Gold é
uma multinacional sediada no Canadá, Existem muitos pontos onde
a solidariedade revolucionaria com os aldeões de Stryminikos
poderia ser permitida. Conseguir fundos para um camarada é
necessário e certamente apreciável, mas isto pode ser
unido com formas mais ativas de solidariedade com aqueles que lutam
contra nosso inimigo em comum. A solidariedade
revolucionária transmite o elo entre a exploração
e repressão de outros e nos apropria destruição, e
mostra as pessoas os pontos que o capitalismo e o estado operam em
modos similares e em lugares bem diferentes. Pela criação
de relações entre lutas contra o capital e o Estado, a
solidariedade revolucionária tem o potencial de tomar nossas
lutas locais num nível global.
Além disso,
a solidariedade revolucionária é um ataque ativo; sempre
envolve a recuperação de nossa própria
força ativa que multiplica em combinação - na
solidariedade - com as forças ativas de outros. Muitos
anarquistas insurrecionários têm se envolvido na
resistência contra o regime de prisão FIES (Ficheiros de
Internos de Especial Seguimento - Arquivo de Internos para
Monitoração Especial) na Espanha. Isto é uma luta
revolucionária porque não é almejado uma mera
reforma, mas seu objetivo ultimo é o desaparecimento de todas as
prisões, o que envolve uma mudança social radical.
è uma luta auto-organizada, na qual não existe nenhum
líder ou representantes, nem destro das prisões nem fora,
mas apenas a solidariedade que cresce entre as exploradas de dentro e
de fora do muro.
Umas das
principais forças da organização informal é
que ela permite ao anarquistas intervirem em lutas imediatas ou
específicas sem negociar os princípios ou exigindo
uniformidade da ação e política. Lutas organizadas
informalmente podem ser compostas por grupos de afinidade com
perpectivas políticas diferentes. Algumas pessoas desejam abrir
a possibilidade para a insurreição, enquanto outros
estão apenas preocupados com um objetivo imediato. Não
existe razões para aqueles que compartilham um alvo pratico
imediato mas divergem em seus objetivos de longo termo não
possam se unir. Por exemplo, um grupo anti-engenharia genética
(EG) poderia se formar e decidir coordenar poderia arrancar e destruir
uma plantação teste e circular panfletos anti-EG. Neste
caso aqueles que querem uma ruptura insurrecionária com esta
ordem social e aqueles que meramente odeiam a engenharia
genética poderia facilmente trabalhar juntos para este objetivo
imediato. Grupos que tomam um caminho mais insurrecionário para
a ação, de qualquer forma, muitas vezes acabam em
conflito com outros grupos que trabalham em questões similares.
A Frente de Libertação da Terra uma iniciativa organizada
informalmente de grupos que tem tomado uma posição de
ataque contra aqueles que consideram destruidores da Terra, tem sido
difamados pelo movimento ambiental em voga. Ao mesmo tempo, eles podem
provavelmente serem críticados por muitos anarquistas
insurrecionários por focarem defensivamente na
proteção da terra e ignorar o aspecto social da
revolução. O que é importante para permitir que
diferentes grupos trabalham é a co-ordenação com
autonomia.
Para aqueles que
desejam abrir a possibilidade de insurreição, tal
cooperação não irá fechar as portas para
seus sonhos. A organização informal, com sua ética
de autonomia e não-negociação, não controla
a luta, e o incontrolavel abre a possibilidade para uma ruptura
insurrecionária com a ordem social presente.
Notas:
1- Ver O ùnico e Sua Propriedade, Max Stiner
2- Anarquistas que
geralmente viram as costas para a ação direta e usa a
politica local para tentar ganhar reformas e estabelecerem cidades
"controladas de forma anarquistas".
3-Ver Albânia: Laboratory of Subversion by Anonymous (Elephant Editions, London, 1999)
4- A Strange and
Outcast Poet: The Life and Writings of Renzo Novatore (Venomous
Butterfly Publications) : www.geocities.com/kk_abacus/vbutterfly.html
5-Um Projeto de Organização , por Errico Malatesta (1927).
6- A tensão Anarquista, por Alfredo M Bonanno.
7-Quando Nikos foi
preso, recusou a reconhecer a autoridade de todo o sistema legal. Ele
fez uma declaração anarquista radical à corte
durante seu julgamento, dando razões para a bomba, e explicando
seu ódio insurrecionário pelo Estado e Indústria.