O continuo apelo do nacionalismo
Fredy Perlman


O nacionalismo foi proclamado morto severas vezes durante o presente século:

 - Depois da Primeira Guerra Mundial, quando os últimos impérios europeus, o austríaco e o turco, quebraram em nações autônomas, e não privaram os nacionalistas restantes, exceto os Sionistas;

- Depois do golpe de estado bolchevique, quando se assegurou que as lutas da burguesia pela autodeterminação tinham sido substituídas pelas lutas das massas trabalhadoras que não tinham país.

 - Depois da derrota militar da Itália fascista e da Alemanha nacional-socialista, quando os resultados do genocídio nacionalista tinham sido mostrados a todo mundo e quando se pensava que o nacionalismo, como credo e como prática se tinha desacreditado para sempre.

No entanto, quarenta anos depois da derrota dos fascistas e do nacional-socialismo, podemos ver que não só sobreviveu o nacionalismo, mas que renasceu com mais força. O nacionalismo foi revitalizado, não só pela chamada direita, Mas também e primeiramente pela chamada esquerda. Depois da guerra nacional socialista, o nacionalismo deixou de ser exclusivo dos conservadores, converteu-se em credo e prática dos revolucionários, chegando a demonstrar em si mesmo, que era o único credo revolucionário  que atualmente funciona.
 Esquerdistas ou revolucionários nacionalistas insistem que seus nacionalismos não tem nada em comum com o nacionalismo dos fascistas e dos nacional-socialistas; insistem que seus nacionalismos são os dos oprimidos, que oferecem tanto a libertação pessoal como a cultural. As exigências dos revolucionários nacionalistas foram difundidas pelo mundo por duas das instituições hierárquicas mais antigas, as quais sobrevivem ainda hoje: o Estado Chinês e, mais recentemente, a Igreja Católica. Na atualidade, o nacionalismo se apresenta como uma estratégia, ciência ou teologia da libertação, como uma realização do ditado iluminista, afirmando que o conhecimento é poder,  como uma resposta à pergunta "O que se deve fazer".

Para desafiar estas alegações, e para observá-los dentro de um contexto, tenho que me perguntar o que é o nacionalismo - não só o novo nacionalismo revolucionário, mas também o conservador ultrapassado. Não posso começar definindo o termo, já que o nacionalismo não é uma palavra com uma definição estática; é um termo que cobre uma seqüência de diferentes experiências históricas. Começarei dando uma breve descrição a essas experiências.

 De acordo com uma concepção comumente aceita, errada e manipuladora, o imperialismo é relativamente recente, consiste na colonização do mundo inteiro e é o último degrau do capitalismo. Este diagnóstico aponta para uma cura específica: o nacionalismo é oferecido como um antídoto do imperialismo; as lutas pela libertação nacional são citadas para quebrar o império capitalista.

Este diagnóstico serve a um propósito, mas não descreve nenhum evento nem situação. Chegamos perto da verdade quando analisamos esta idéia a partir de suas raízes e confirmamos que o imperialismo foi o primeiro degrau do capitalismo, que o mundo foi subseqüentemente colonizado por estados-nações, e que o nacionalismo é o estagio dominante, o atual, e (esperançosamente) o ultimo estagio do capitalismo. Os fatos deste acontecimento não se descobriram ontem, são tão familiares quanto a concepção equívoca que os nega.

 Tem sido conveniente, por numerosas razões, esquecer que, até os séculos recentes, os governos dominantes na Eurásia foram impérios e não nações-estados. Um império celestial a cargo da dinastia Ming, o império islâmico governado pela dinastia Otomana e o império católico, dirigido pela dinastia Habsburgo, todas elas vistas rivalizando por obter posse do mundo conhecido. Os católicos não foram os primeiros imperialistas, senão os últimos. O império divino dos Ming dominou a maior parte de Ásia oriental e tinha despachado grandes naves comerciais além dos mares um século antes de os marinheiros católicos invadirem o México.
Os que celebram o triunfo católico esquecem que entre 1420 e 1430, o burocrata imperial chinês Cheng Ho, dirigiu expedições navais de 70.000 homens e navegou, não só ao redor de Malásia, Indonésia e Ceylão, mas também chegou a portos do Golfo Pérsico, do Mar Vermelho e da África. Os que celebram os conquistadores católicos, menosprezam os triunfos imperiais dos Otomanos, que conquistaram todas as províncias ocidentais do antigo império romano, controlaram o Norte de África, Arábia, Oriente Médio e a metade de Europa, dominaram o Mediterrâneo e bateram com força as portas de Viena. Os imperiais católicos se orientaram para o oeste, além dos limites do mundo conhecido para, deste modo, escapar do cerco.

Entretanto, foram os imperiais católicos que “descobriram a América” e os que levaram a cabo sua destruição genocída, assim como a pilhagem de sua “descoberta”, mudando o equilíbrio de forças entre os impérios de Eurásia .
Teriam sido menos mortíferos os impérios chinês e turco se eles tivessem descoberto América? Os três impérios consideravam os estrangeiros como "menos" humanos e, conseqüentemente, como suas legítimas presas. Os chineses consideravam os outros como bárbaros; os muçulmanos e os católicos consideravam os outros infiéis. O termo infiel não é tão brutal como o termo bárbaro, já que um infiel cessa de ser uma presa legítima e se converte num ser humano completo pelo simples fato de se converter à verdadeira fé, enquanto que um bárbaro permanece como presa até que ela ou ele seja elevado como humanos pelo
 civilizador.

O termo infiel e a moral que se esconde por trás disto, entraram em conflito com as práticas dos invasores católicos. A contradição entre crença e comportamento foi delatada por um crítico muito precoce, um frade chamado Las Casas, que apontou que as cerimônias de conversão eram pretextos para separar e exterminar os infiéis, e que os convertidos não eram tratados como semelhantes católicos, mas como escravos.
As críticas de Las Casas não fizeram mais do que desconcertar a Igreja Católica e ao imperador. Aprovaram-se leis e permitiram investigações, mas com pouca eficácia, já que as duas metas das expedições católicas, a conversão e o saque, eram contraditórias. A maior parte dos membros da igreja se reconciliaram com eles mesmos para salvar o ouro e danar as almas. O imperador católico dependia cada vez mais das riquezas saqueadas para pagar os gastos da casa real, o exército, e as frotas que transportavam o saque.

A pilhagem seguiu tendo preponderância sobre a conversão, mas os católicos continuaram sentindo-se numa situação embaraçosa. Seu credo não condizia com a prática. Os católicos fizeram para conquistar os astecas e os Incas, os que descreveram como impérios com instituições similares as do império dos Habsburgo, e com práticas religiosas tão demoníacas como as do inimigo oficial, o temido império dos Turcos Otomanos. Os católicos não dirigiram tanto suas guerras de extermínio contra comunidades que não tinham nem imperadores nem exércitos. Tais fatos, ainda que perpetrados com regularidade, entravam em conflito com sua ideologia e não eram heróicos em modo algum
.
A contradição entre a profissão de fé dos invasores católicos e seus fatos não foi resolvida pelos imperiais católicos. Isto foi resolvido com a chegada de uma nova forma social: as nações-estado. Duas novidades apareceram no mesmo ano, em 1561: quando um dos aventureiros de ultramar, proclamou sua independência do Império. E quando vários dos banqueiros do Império e provedores do imperador desencadearam uma guerra de independência.
O marinheiro aventureiro, Lope de Aguirre, não encontrou apoio suficiente e foi executado.
Os banqueiros e provedores do imperador mobilizaram os habitantes de várias províncias imperiais, e tiveram sucesso ao romper essas províncias do império (províncias conhecidas mais tarde como Holanda).

Estes dois eventos não podem ser considerados como lutas de libertação nacional. Eram anúncios de acontecimentos que estavam por vir. Também eram reproduções do passado. No império romano, os guardas pretorianos tinham engajado em proteger ao imperador; estes guardas chegaram a assumir algumas das funções do imperador e eventualmente,  chegaram a manejar eles mesmos o poder, no lugar do imperador. No império árabe islâmico, o califa tinha contratado os guardas turcos para que protegessem sua pessoa; os guardas turcos, como fizeram anteriormente os pretorianos, assumiram muitas das funções do califa e numa eventualidade tinham tomado o palácio e do governo imperiais.

Lope de Aguirre e os nobres holandeses não eram os guardas dos monarcas de Habsburgo, mas os aventureiros coloniais andinos e as assinaturas comerciais e financeiras holandesas assumiram importantes cargos imperiais. Estes rebeldes, igualmente aos guardas pretorianos e turcos, desejavam liberar-se da indignidade espiritual e do jugo material de servir ao imperador; assumiram os poderes do imperador, que não era para eles mais que um parasita.

Aguirre, o aventureiro colonial, foi, aparentemente, um inepto rebelde; sua hora não tinha chegado ainda.

Os nobres holandeses não eram ineptos e sua hora tinha chegado. Não derrubaram o império, mas o racionalizaram. As casas comerciais e financeiras holandesas possuíam, já então, a maioria das riquezas do Novo Mundo. Tinham-nas recebido como pagamento por sustentar a casa, o exército e as frotas do imperador. Começaram então a saquear as colônias em nome próprio e para seu próprio benefício, livres de um senhor parasita. E como não eram católicos, senão protestantes calvinistas, não sentiram nenhum arrependimento pelas contradições entre suas crenças e seu comportamento. Não se comprometeram em salvar almas. Seu calvinismo lhes dizia que um Deus inescrutável tinha salvado ou condenado as almas desde o princípio da humanidade e que nenhum sacerdote holandês poderia mudar os planos desse Deus.

Os holandeses não eram cruzados; Restringiram-se a pilhagem não-heróicas, sem caráter, em nome dos negócios de maneira calculada e regularizada. As frotas saqueadoras partiam e regressavam no tempo previsto. O fato de que os estrangeiros saqueados fossem infiéis foi menos importante que o fato de serem holandeses.

Os precursores do nacionalismo do Oeste da Eurasia inventaram o termo selvagens. Este termo era um sinônimo de bárbaro, criado pelo Império Celestial Eurasiático. Ambos termos designavam aos seres humanos como presas legítimas.

Durante os dois séculos seguintes, as invasões, a subjugação e expropriações iniciadas pelos Habsburgo foram imitadas por outras casas reais européias.

Vistos através das lentes dos historiadores nacionalistas, os  coloniais iniciais, assim como seus últimos imitadores, se apresentavam como nações: Espanha, França, Holanda, Inglaterra. Mas vistos a partir de uma perspectiva do passado, os poderes colonizadores foram os Habsburgo, os Tudors, os Stuarts, os Bourbons, Oranges - isto é,  dinastias idênticas às famílias dinásticas que tinham disputado o poder e as riquezas desde a queda do Império romano do Ocidente. Os invasores podem ser vistos em ambos pontos de vista já que uma transição estava sucedendo naquele momento. Estas entidades já não eram meros estados feudais, mas também não eram nações por completo; possuíam alguns, mas não todos os atributos das nações-estado. Sua carência mais notória era a de um exército nacional. Os Tudors e os Bourbons ainda manejavam o britânico e o francês de seus súditos especialmente durante as lutas contra os súditos de outras monarquias. Mas nem os escoceses nem os irlandeses, como também não os Corsos ou os Provenzales foram recrutados para morrer por “amor a sua pátria”. A guerra era um enorme ônus feudal, um castigo; os únicos voluntários eram aventureiros que sonhavam com o ouro; os únicos patriotas foram os patriotas do Dourado.

As doutrinas do que se tornaria o credo nacionalista não atraíram as dinastias dirigentes, que permaneceram agarraram a seus próprios princípios . Os novos dogmas atraíram os mais altos servidores públicos da dinastia, a seus agiotas, aos vendedores de especiarias, aos provedores militares e aos saqueadores das colônias. Estas pessoas, igualmente a Lope de Aguirre e os nobres holandeses, ou os guardas turcos e romanos se apoderaram de cargos importantes, ainda que continuassem sendo subalternos. Alguns, ou a grande maioria deles, inflamaram para se livrarem da indignidade e do jugo, para se libertarem do senhor parasita, para continuar com a exploração dos camponeses e o saque dos colonizados em seu nome e para seu próprio benefício.

Conhecidos mais tarde como a burguesia ou classe média, estas pessoas tinham se tornado ricas e poderosas desde os dias das primeiras frotas comandadas para o Oeste. Uma porção de suas riquezas vinham das colônias saqueadas como pagamento dos serviços outorgados ao imperador; esta soma de riqueza seria reconhecida, mais tarde, como uma acumulação primitiva de capital. Outra porção de suas riquezas era da pilhagem a seus próprios camponeses locais e aos vizinhos, por meio de um método conhecido mais tarde como capitalismo; este método não era completamente novo, mas se estendeu amplamente uma vez que as classes médias se apossaram da prata e do ouro do Novo Mundo.

Esta classe média administravam cargos importantes mas não tinham experiência em controlar o poder central. Na Inglaterra derrubaram o monarca e proclamaram uma comunidade de riquezas, mas temendo que as energias populares, que eles mesmos tinham mobilizado contra as classes altas pudessem voltar-se contra eles mesmos, Rapidamente restauraram um monarca da mesma dinastia.

O nacionalismo na realidade não estourou até os finais do século XVIII, quando duas explosões, separadas por treze anos, derrubaram a relativa estabilidade das classes altas e mudaram para sempre a geografia política do globo. Em 1776, quando os mercadores e aventureiros colonizadores voltaram a proclamar sua independência - tal como tinha feito Aguirre - liberando-se da dinastia dirigente de além mar, ultrapassando seu antecessor ao mobilizar seus parceiros colonos em romper com o império britânico. E em 1789, quando alguns autores e mercadores iluministas ultrapassaram os pioneiros holandeses, mobilizando não só algumas províncias senão à população inteira; derrubando e matando o monarca Bourbon e convertendo todos os vínculos feudais em vínculos nacionais. Estes dois acontecimentos, marcaram o final de uma era. Daí em adiante, inclusive as dinastias sobreviventes se tornaram gradualmente nacionalistas e os estados que permaneceram monárquicos se posicionaram, mais do que nunca, nos atributos das nações-estado.
As duas revoluções do século XVIII foram muito diferentes e contribuíram com diferentes e conflitantes elementos ao credo e a prática do nacionalismo. Não tento analisar aqui estes eventos senão só recordar ao leitor algumas de suas características. Ambas rebeliões romperam com sucesso os vínculos de lealdade a uma casa monárquica, e as duas culminaram com o estabelecimento de nações-estados, mas entre o primeiro ato e o segundo tinha muito pouco em comum. Os principais animadores de ambas revoltas estavam familiarizados com as doutrinas racionalistas do iluminismo, mas o particular estilo dos americanos os confinou a problemas políticos, principalmente ao problema de estabelecer um mecanismo de estado que continuasse onde o Rei Jorge tinha sido tirado. Muitos franceses foram mais longe; propuseram o problema de reestruturar não só o estado senão toda a sociedade e criticaram, não só o vínculo do sujeito ao monarca , senão também o do escravo ao amo, um vínculo que era sagrado para os americanos. Ambos os dois grupos estavam indubitavelmente familiarizados com a observação feita por Jean Jacques Rousseau a respeito de que os seres humanos tinham nascido livres, ainda que por todas partes estivessem ameaçados com correntes, foram os franceses os que compreenderam profundamente estas correntes e fizeram um grande esforço por rompê-las.

Influenciados pelas doutrinas racionalistas, assim como Rousseau, os revolucionários franceses tentaram aplicar a razão social no meio humano, do mesmo modo que a razão natural, ou a ciência, começava a aplicar-se, então, no meio natural.
Rousseau tinha trabalhado em sua escrivaninha; tinha tentado estabelecer a justiça social por escrito, encarregando os assuntos humanos a uma entidade que incorporava a vontade geral. Os revolucionários se sublevaram para estabelecer uma justiça social não só no papel, senão também no meio dos seres humanos mobilizados e armados, muitos deles raivosos, mas a maioria pobres.

A entidade abstrata de Rousseau adquiriu a forma concreta de um Comitê de Segurança Pública (ou Saúde Pública), uma organização policial que se considerava a si mesma como uma encarnação da vontade geral. Os virtuosos membros do comitê, aplicaram conscientemente os fundamentos da razão aos assuntos humanos. Consideraram-se a si mesmos como os cirurgiões da nação. Introduziram suas obsessões pessoais na sociedade através da lamina decapitadora do estado.

A aplicação da ciência ao meio natural adquiriu a forma de terror sistemático. O instrumento da razão e da justiça foi a guilhotina. O terror decapitou aos governantes e depois se voltou contra os revolucionários.

O medo estimulou uma reação que varreu o terror assim como a Justiça. A energia mobilizada dos patriotas sedentos de sangue foi enviado ao estrangeiro, para impor ali, pela força, o iluminismo e expandir a nação em império. O abastecimento dos exércitos nacionais foi bem mais lucrativo do que jamais tinha sido seu homólogo dos exércitos feudais, de maneira que os antigos revolucionários passaram a ser ricos e poderosos membros da classe média, que se converteu então na classe alta , a classe dirigente. Tanto o terror como as guerras deixaram um legado fiel ao credo e à prática dos nacionalismos mais recentes.
O legado da Revolução Estadunidense teve um caráter completamente diferente. Aos estadunidenses não lhes preocupava muito a justiça e, pelo contrário, preocupava-lhes mais a propriedade.

Os colonos invasores das praias do Leste do continente do Norte não precisavam em absoluto de Jorge de Hannover, Assim como a Lope de Aguirre também não lhe tinha feito falta Felipe de Habsburgo. Mais ainda, os ricos e poderosos dentre os colonos precisavam os mecanismos do rei Jorge para proteger suas riquezas, mas não para obtê-las. Se podiam organizar um aparelho repressivo por sua conta, não precisariam do rei Jorge em absoluto.

Confiados em sua habilidade para criar este aparelho por sua própria conta, os escravistas colonizadores, os especuladores, os exportadores e os banqueiros declararam que os impostos e as leis do rei eram intoleráveis. A lei mais intolerável foi a que proibia incursões desautorizadas nas terras dos habitantes aborígenes do continente; enquanto os conselheiros do rei tinham postos seus olhos nas peles de animais conseguidas pelos caçadores nativos, os olhos dos especuladores se centravam nas terras dos caçadores nativos.

Diferente de Aguirre, os colonizadores federados do Norte conseguiram estabelecer seus próprios mecanismos repressivos, e o conseguiram agitando uns mínimos desejos de justiça. Seu propósito era derrubar o poder do rei, não o seu próprio. Antes de confiar em excesso em seus poucos afortunados colonos predecessores ou nos intrusos escondidos nos bosques, sem falar nos seus escravos, estes revolucionários se confiaram em mercenários e na ajuda indispensável do monarca Bourbon, que seria derrubado poucos anos depois por outros revolucionários mais virtuosos.

Os colonizadores norte-americanos romperam com os tradicionais laços feudais de lealdade e obediência mas, diferentemente dos franceses, só substituíram gradualmente estes laços tradicionais por laços de patriotismo e nacionalismo. Ainda não eram uma nação; sua relutante mobilização das terras colonizadas tinha impedido fusioná-los em uma, e toda essa população, multilíngüe, multicultural e socialmente dividida resistiu tal fusão. O novo aparelho repressivo não se provou nem experimentou, e não exerceu nenhum poder na lealdade intacta de toda essa população, que ainda não era patriótica. Precisava-se algo mais. Os donos de escravos, os quais tinham derrubado seu rei, temiam que seus escravos pudessem derrubar seus amos; a insurreição do Haiti fez com que seu medo fosse menos hipotético. E ainda que já não temessem ser expulsos para o mar pelos habitantes aborígenes do continente, os comerciantes e os especuladores começaram a inquietar-se a respeito de sua capacidade para adentrar no interior das novas terras.

Os invasores estadunidenses recorreram a um instrumento que não era um invento novo - como o foi a guilhotina - mas que, no entanto, foi tão eficaz como aquela. Este instrumento seria chamado racismo um pouco mais tarde e seria incorporado na prática nacionalista. O racismo, como os produtos posteriores dos práticos estadounidenses, era um princípio pragmático; seu conteúdo não era importante; o que importava era que obtinha resultados.

Seres humanos foram mobilizados em termos de seus mais baixo e mais superficial comum denominador e responderam.
 Pessoas que tinha abandonado seus povos e suas famílias, aqueles que estavam esquecendo suas linguagens e perdendo suas culturas, aos que se tinha desprovido inclusive de sociabilidade, foram manipulados ao considerar a cor de sua pele como um substituto de tudo o que tinham perdido.Lhes fizeram sentir orgulhosos de algo que não era sequer um bem pessoal - como a linguagem - uma aquisição pessoal. Eles foram fundidos numa nação de homens brancos. (As mulheres brancas e as crianças existiam só como vítimas, como provas da bestialidade da presa caçada). A extensão desta deploração se revela por meio das não-identidades que os homens brancos compartilhavam entre eles: sangue branco, idéias brancas, e os membros  na raça branca. Os devedores, os intrusos, os empregados, como homens brancos, tinham muitas coisas em comum com os banqueiros, os especuladores e os donos de plantações; não tinham nada em comum com os peles vermelhas, peles negras ou peles amarelas. Fusionados por tal princípio, podiam ser mobilizados por ele, converter-se em homens brancos fazedores da lei da rua, em “ exterminadores de índios”.

Inicialmente, o racismo tinha sido um dos diferentes métodos para mobilizar o exército colonial, e contudo isto explodiu bem mais do que tinha sido até então, não suplantou os outros métodos e sim os complementou. As vítimas dos pioneiros invasores eram descritas como infiéis, como pagões. Mas os pioneiros, como os primeiros holandeses, eram em sua maioria cristãos protestantes e consideravam o paganismo como algo para ser castigado e não remediado. As vítimas continuaram sendo vistas como selvagens, canibais e primitivos, mas estes termos, deixaram também de ser diagnóstico das condições que podiam ser remediadas, e tenderam a se converter em sinônimos de não-branco, uma condição que não podia ser remediada de modo algum. O racismo foi a ideologia que casava perfeitamente com a prática da escravatura e o extermínio.

A prática do linchamento de rua, o alinhamento nas vítimas definidas como inferiores, atraíram os matadores profissionais cuja humanidade era nula e a quem careciam de qualquer noção de jogo limpo. Mas este enfoque não agradou a todos. Os negociantes estadounidenses, em parte homens oportunistas e, em parte, homens de confiança sempre se mostraram otimistas. Para os numerosos Santos Jorges com alguma noção de honra e sede de heroísmo o inimigo era considerado como algo diferente; para eles tinha nações tão ricas e poderosas como a sua nos bosques depois das montanhas e nas praias dos Grandes Lagos.

Os que participaram nas heróicas proezas dos espanhóis imperiais encontraram impérios no México central e ao Norte dos Andes. Os que festejaram aos heróis americanos nacionalistas encontraram nações; transformaram resistências desesperadas de populações anárquicas em conspirações internacionais controladas por militares como o general Pontiac e o general Tecumseh; povoaram os bosques com formidáveis líderes nacionais, pessoal eficiente, e exércitos de incontáveis tropas patrióticas; projetaram seus próprios mecanismos repressivos no desconhecido; viram uma cópia exata deles mesmos, com todas as cores investidas, algo como um negativo fotográfico. De maneira que o inimigo se converteu num igual em termos de estrutura, poder e propósitos. A guerra contra tal inimigo não só era um jogo limpo; era necessária, uma questão de vida ou morte. Os demais atributos do inimigo - paganismo, selvageria, canibalismo - fizeram mais urgentes as tarefas de expropriação, escravatura e extermínio; também as converteram em fatos heróicos.

O repertório do programa nacionalista se encontrava mais ou menos completo nesse momento. Esta afirmação pode assombrar ao leitor que ainda não vê nenhuma “nação real” em perspectiva. Os Estados Unidos eram uma coleção de etnias multilíngües, multirreligiosas e multiculturais, e a nação francesa tinha extravasado suas fronteiras e tinha se convertido no império napoleônico. O leitor poderia tentar aplicar uma definição de nação como um território organizado formado por pessoas que compartilham uma linguagem, uma religião e alguns costumes em comum, ou pelo menos, um destes três fatores. Tal definição, clara, concisa e estática não é uma descrição deste fenômeno senão uma apologia do mesmo, sua justificativa. Tal fenômeno não foi uma definição estática senão um processo dinâmico. A linguagem, a religião e os costumes comuns como o sangue branco dos colonizadores estadounidenses foram meros pretextos, instrumentos para mobilizar os exércitos. A culminação do processo não foi a unificação dos fatores em comum senão o esgotamento, a perda total da linguagem, a religião e os costumes; os habitantes da nação falaram a linguagem do capital, adoraram no altar do estado e confiaram seus costumes ao permitido pela polícia nacional.

O nacionalismo é o oposto ao imperialismo apenas no âmbito das definições. Na prática, o nacionalismo foi a metodologia que conduziu ao império do capital. O continuado crescimento do capital, com freqüência denominado como progresso material, desenvolvimento econômico ou industrialização, foi a atividade principal das classes médias, as chamadas burguesia, já que o que eles possuíam era o capital, isto é a propriedade deles; as classes altas possuíam estados.

A descoberta de novos mundos de riqueza engrandeceu enormemente à classe média , mas também a fez vulnerável. Os reis e nobres, que inicialmente tinham celebrado as riquezas saqueadas no Novo Mundo, ressentiram-se da perda de quase todos seus ganhos nas mãos de seus mercadores de classe média. Não podia continuar desta maneira. A riqueza não chegava de forma utilizável, os mercadores proviam ao rei com coisas que ele podia usar em intercâmbio pelas riquezas desapropriadas. Ainda mais, os monarcas que se viam empobrecer enquanto seus mercadores e comerciantes se enriqueciam, não duvidaram em atacar com seus exércitos para saquear a seus ricos comerciantes. Como conseqüência, a classe média sofria golpes constantes sob o antigo regime, golpes a suas propriedades. O exército e a polícia reais não eram protetores de confiança para suas propriedades pelo que os poderosos mercadores, que já tinham em suas mãos os negócios do império, tomaram medidas para pôr fim a tanta instabilidade. Fizeram-se cargo da política. Podiam contratar exércitos privados e o fizeram com freqüência. Mas, tão cedo como os instrumentos para mobilizar os exércitos nacionais e às forças da polícia nacional apareceram ao horizonte, os castigados homens de negócios recorreram a eles. A principal virtude de uma força nacional armada é que esta garante que um empregado patriota lutará junto com seu próprio chefe contra o empregado do chefe inimigo.

A estabilidade assegurada pelos mecanismos repressivos nacionais deu aos proprietários algo como uma casa de inverno no qual seu capital podia crescer, ampliar e multiplicar-se. O termo "crescimento" e seus derivados provem do próprio vocabulário capitalista. Esta gente visualiza a unidade de capital como um grão ou semente que se investe em solo fértil. Na primavera vêem brotar uma planta de cada semente. No verão colhem tantas sementes de cada planta que, depois de pagar pelo terreno, pelo sol e pela chuva, ainda têm mais sementes do que tinham no início do processo. No ano seguinte seus campos são maiores e, gradualmente, toda a terra se torna cultivável. Na realidade, os grãos iniciais são dinheiro; o sol e a chuva são as energias gastas pelos trabalhadores; as plantas são fábricas, ateliês e minas; os frutos colhidos são produtos, pedaços de um mundo processado; o excesso ou as sementes adicionais, os benefícios, são ganhos que o capitalista retém para si, no lugar de repartir entre os trabalhadores.

O processo em sua totalidade consistiu em converter as substâncias naturais em materiais vendáveis ou em produtos e em encarcerar os trabalhadores assalariados nas plantas processadoras.

O casamento entre o Capital e a Ciência foi o responsável pelo enorme salto em que hoje vivemos. Os cientistas puros descobriram componentes entre os quais podiam decompor o meio natural; os investidores colocaram suas apostas nos diferentes métodos de decomposição; os cientistas aplicados e os diretores viram que os salários dos trabalhadores se levavam o projeto consigo. Os cientistas sociais investigaram modos para fazer os trabalhadores menos humanos, mais eficazes e mais parecidos a máquinas. Graças à ciência, os capitalistas foram capazes de transformar grande parte do meio natural num mundo processado, em artifício, e reduzir a uma maioria de seres humanos em eficazes servidores deste artifício.

O processo da produção capitalista foi criticado e analisado por diversos filósofos e poetas, mais notavelmente Karl Marx (1). Suas críticas animaram - e ainda continuam a animar os movimentos militantes socialistas. Mas Marx teve um significante erro e muitos de seus discípulos, e os que não foram, edificaram suas plataformas baseando-se nesse erro. Marx foi um defensor entusiasta das lutas da burguesia para livrarem-se dos laços feudais - quem não era entusiasta naqueles dias? Marx, que observou que as idéias dominantes de uma sociedade proviam da classe dominante, compartilhou muitas de suas idéias com a enriquecida nova classe média. Foi um entusiasta do iluminismo, do racionalismo, do progresso material. Foi Marx quem, com muito acerto, apontou que cada vez que um trabalhador reproduzia o poder de seu trabalho, cada minuto dedicado a uma tarefa atribuída, aumentava o material e os mecanismos sociais que o desumanizaram. Mas, ao mesmo tempo, defendeu com entusiasmo a aplicação da ciência à produção.

Marx levou a cabo uma complexa análise do processo de produção como exploração do trabalho, mas fez superficiais e relutantes comentários a respeito dos pré-requisitos para a produção capitalista, sobre o capital inicial que fez possível tal processo.2 Sem o capital inicial não teria havido investimentos, nem produção, nem o grande salto para adiante que teve depois. Este requisito foi analisado pelo marxista russo soviético Preobrazhensky, quem tomou emprestados diferentes pontos de vista da marxista polonesa Rosa Luxemburgo até formular sua teoria da acumulação primitiva.3 Preobrazhensky entendia por primitiva a base do edifício capitalista, seus alicerces, seus pré-requisitos. Todos eles não podem emergir do processo capitalista em si mesmo se tal processo não se acha em caminho. Deve provir, e assim o faz, do processo de produção. Vem das colônias saqueadas. Vem das populações desapropriadas e exterminadas das colônias. Nos primeiros dias, quando não existiam as colônias de além mar, o primeiro capital -requisito para a produção capitalista- tinha sido espremido das colônias internas, aos camponeses saqueados cujos campos lhes eram arrebatados e as colheitas roubadas; também, dos recém expulsos judeus e muçulmanos, a quem lhes foram desapropriadas seus pertences.

A primitiva ou preliminar acumulação de capital não é algo que aconteceu antes, num passado distante e nunca mais depois. É algo que continua acompanhando ao processo da produção capitalista e é uma parte integrante do mesmo. O processo descrito por Marx é o responsável pelos benefícios regulares esperados; o processo descrito por Preobrazhensky é responsável pelas ascensões, derrotas, e os grandes progressos do futuro. Os benefícios regulares são destruídos periodicamente por crises endêmicas ao sistema; injeções novas de capital preliminar são a única cura conhecida a estas crises. Sem uma continua primitiva acumulação de capital, o processo de produção teria se detido; cada crise tenderia a ser permanente.
O genocídio - o extermínio racional calculado dos seres humanos designados como presas - não foi considerado uma aberração enquanto acontece uma pacífica marcha do progresso. O genocídio foi um requisito desse progresso. Essa é a razão pela qual as forças armadas nacionais foram indispensáveis para os detentores do capital. Essas forças não só protegeram os donos do capital da fúria insurrecionaria de seus próprios trabalhadores assalariados. Essas forças, também,  capturaram o Santo Graal, a lanterna mágica, o capital preliminar, rompendo as portas dos forasteiros resistentes ou não resistentes, ao saqueá-los, deportá-los ou assassiná-los.

As façanhas dos exércitos nacionais são as marcas da marcha do progresso. Estes exércitos patriotas foram, e ainda o são, a sétima maravilha do mundo. Neles, o lobo dorme ao lado do cordeiro, a aranha ao lado da mosca. Para eles, os assalariados foram as presas dos exploradores, os camponeses devedores a presa dos credores, os tolos a presa dos oportunistas numa empresa estimulada, não pelo amor senão pelos menosprezados, odiados das hipotéticas fontes do capital primitivo e designados como infiéis, selvagens, raças inferiores.

Comunidades humanas tão diferentes em seus modos e crenças como os pássaros o são em suas plumagens, foram invadidas, despojadas e exterminadas até um ponto onde a imaginação não pode atingir. Os vestidos e utensílios das comunidades vencidas foram reunidos como troféus e exibidos em museus como façanhas adicionais da marcha do progresso; as crenças e costumes extinguidos se converteram em objeto de curiosidade das diferentes ciências dos invasores. Os campos, bosques e animais expropriados foram considerados como riquezas, como capital preliminar, como uma pré-condição do processo de produção que tinha que mudar os campos em granjas, as árvores em madeira, os animais em chapéus, os minerais em munições, os sobreviventes humanos em mãos de obra barata. O genocídio foi e, ainda o é, a condição preliminar, a pedra fundamental e o trabalho principal das empresas industriais e militares, dos meios ambientes industrializados, do mundo dos escritórios e dos estacionamentos.

O nacionalismo se acomodava tão perfeitamente a esta dupla missão - domesticar os trabalhadores e roubar os estrangeiros - que agradou a todo mundo, isto é, a quem aspirasse ou desejasse deter uma porção de capital.

Durante o século XIX, especialmente durante sua segunda metade, cada proprietário de capital instável descobriu que tinha raízes entre os camponeses que falavam sua língua materna e adoravam aos deuses de seu pai. O fervor de tal nacionalista era transparentemente cínico, já que ele é o homem que perdeu suas raízes entre as relações de seus pais: encontrou a salvação em suas poupanças, rezou por seus investimentos e falou a linguagem dos custos do investimento. Mas aprendeu, dos estadounidenses e dos franceses, que ainda que não podia mobilizar a seus camponeses como empregados leais, clientes ou compradores, podia mobiliza-los como leais colegas italianos, gregos ou alemães, como leais católicos, ortodoxos ou protestantes. As línguas, as religiões e os costumes se converteram em materiais para a construção das nações-estado.

Estes materiais foram meios e não fins. O propósito das entidades nacionais não era desenvolver as línguas, as religiões ou os costumes, senão desenvolver economias nacionais, transformar camponeses em trabalhadores, para fazer do país um campo de minas e fábricas, para converter aos estados dinásticos em empresas capitalistas. Sem o capital não teria munições nem reservas, nem exércitos nacionais nem nações.

A poupança e os investimentos, a busca de mercados e o gasto de custos, as obsessões da recente classe média racionalista, converteram-se nas obsessões dominantes. Estas obseções racionalistas se tornaram não só soberanas senão também exclusivas. Aos indivíduos que tinham outras obsessões, obsessões irracionais, eram colocados em aos manicômios e asilos.

As nações que usualmente tinham sido um dia monoteístas, mas já não o eram; o último deus ou deuses tinham perdido sua importância exceto como materiais utilizáveis. As nações eram mono-obsessivas e se o monoteísmo servia à obsessão dominante, também seria mobilizado.

A Primeira Guerra mundial marcou o final de uma fase do processo nacionalizador, a fase que começou com as revoluções americana e francesa, a fase que tinha sido anunciada muito antes com a declaração de Aguirre e a revolta dos nobres holandeses. As conflitivas demandas das antigas e das novas nações constituídas foram, de fato, as causas dessa guerra. Alemanha, Itália, e Japão assim como a Grécia, Sérvia e a América Latina colonial tinham tomado a maioria dos atributos de seus antecessores nacionalistas, tinham-se convertido em impérios nacionais, em monarquias e repúblicas, e os mais poderosos dos recém chegados aspiravam a conseguir o atributo do que careciam, o mais importante: o império colonial. Durante essa guerra todos os componentes mobilizáveis das duas dinastias imperiais reinantes, os Otomanos e os Habsburgo, constituíram-se em nações. Quando os burgueses com diferentes línguas e religiões, como os turcos e os armênios, reclamaram o mesmo território, os fracos foram tratados como os chamados índios americanos; foram exterminados. A Soberania Nacional e o genocídio foram - e ainda são - conseqüências.

Uma mesma linguagem e uma mesma religião parecem ser os resultados da nacionalidade, mas só como uma ilusão ótica. Como materiais de unificação, usaram as línguas e as religiões quando serviam a seus propósitos e quando não serviam eram descartados. Nem a Suíça multilíngüe nem a Iugoslávia multirreligiosa foram suprimidas da família de nações. A forma dos narizes e a cor do cabelo podiam ser usadas para mobilizar patriotas - e foram mais tarde. As heranças compartilhadas, as raízes e os traços comuns tinham que satisfazer um único critério: o da razão pragmática ao estilo estadounidense: Não tinha dado bons resultados? Tudo o que dava bons resultados era usado. Os traços compartilhados eram importantes não por seu conteúdo histórico, filosófico ou cultural, senão porque eram úteis para organizar uma polícia que protegesse a propriedade nacional e para mobilizar uma armada que saqueasse as colônias.

Uma vez constituída a nação, os seres humanos que viviam em território nacional, mas que não possuíam os traços nacionais, podiam ser transformados em colônias internas, principalmente em fontes de capital preliminar. Sem este, nenhuma nação poderia ser grande e as nações que aspiravam a grandeza, mas que careciam das colônias adequadas de além mar, poderiam solucionar isto com o saque, o extermínio e a expropriação de seus compatriotas que não possuíssem aqueles traços nacionais.

O estabelecimento das nações-estado foi recebido com eufórico entusiasmo pelos poetas, bem como pelos camponeses que pensaram que suas musas ou seus deuses tinham descido a terra. Os principais estraga prazeres entre os que agitavam bandeiras e os que lançavam confete voadores eram os governantes formais, os colonizados,e os dos discípulos de Karl Marx.

Os derrotados e os colonizados não se mostravam entusiasmados por razões óbvias. Os discípulos de Marx não eram entusiastas porque tinham aprendido de seu mestre que a libertação nacional implicava a exploração nacional; que o governo nacional era o comitê executivo da classe capitalista nacional, que a nação não tinha mais do que correntes para os trabalhadores. Estas estratégias para os trabalhadores, quem em si mesmos não eram trabalhadores senão tão burgueses como os dirigentes capitalistas, proclamaram que os trabalhadores não tinham país e se organizaram numa Internacional. Esta se fragmentou em três, e cada uma delas avançou rapidamente no mesmo erro em que tinha caído Marx.

A Primeira Internacional foi conduzida pelo que uma vez fora tradutor de Marx e seu então antagonista Bakunin, um rebelde que tinha sido um fervente nacionalista até que ouviu a respeito da exploração com Marx. Bakunin e seus colegas, rebeldes contra qualquer autoridade, rebelaram-se também contra a autoridade de Marx; suspeitaram que Marx tentava converter a Internacional num estado tão repressivo como o feudal e o nacional combinados. Bakunin e seus seguidores não eram ambíguos com respeito à rejeição de qualquer estado, mas sim o eram a respeito da empresa capitalista. Ainda mais do que Marx, glorificavam a ciência, celebravam o progresso material e apoiavam a industrialização. Como rebeldes, consideravam que cada luta era uma boa luta , mas a melhor de todas era a luta contra os últimos inimigos da burguesia, contra os senhores feudais e a Igreja Católica. De maneira que a Internacional de Bakunin floresceu em lugares como a Espanha, onde a burguesia não tinha completado sua luta pela independência e , no entanto, tinha-se aliado com os barões feudais e com a igreja para proteger-se dos trabalhadores insurgentes e dos camponeses. Os bakunistas brigaram por completar a revolução burguesa sem e contra a burguesia. Denominaram-se a si mesmos anarquistas e desdenharam qualquer estado, mas não começaram a explicar como devia sustentar a indústria preliminar ou a subseqüente, o progresso e a ciência, principalmente o capital, sem exércitos nem polícia. Nunca foi dado a eles a oportunidade real para resolver suas contradições na prática e até o dia de hoje não conseguiram resolvê-las. Os seguidores de Bakunin, nem sequer se deram conta de que existe uma contradição entre anarquia e indústria.

A Segunda Internacional, menos rebelde do que a primeira, pactuou em seguida com o capital bem como com o estado. Solidamente entrincheirados no engano de Marx, os membros desta organização não se emaranharam em nenhuma contradição bakunista. Para eles era óbvio que a exploração e o saque eram condições necessárias para o progresso material e se reconciliaram, na realidade, com o que não tinha solução. Tudo o que exigiam era uma melhor partilha dos benefícios entre os trabalhadores e se oficializaram na burocracia política por si mesmos, como porta-vozes dos trabalhadores. Como os bons unionistas que os precederam e seguiram, os professores socialistas estavam incomodados pelo  “problema colonial”, mas seu mal-estar, como o de Felipe de Habsburgo, simplesmente deu a eles má consciência. Com o tempo os imperiais alemães socialistas, os Reais dinamarqueses socialistas e os franceses republicanos socialistas cessaram inclusive de ser internacionalistas.

A Terça Internacional não só se alinhou com o capital e o estado, mas também os fez seu alvo final. Esta Internacional não esteve formada por rebeldes ou dissidentes intelectuais; foi criada por um estado, o estado russo, depois que o partido bolchevique se instalasse nos despachos estatais. O papel principal desta Internacional foi proclamar as façanhas do renovado estado russo, de seu partido dirigente, e as do fundador do partido: um homem que se fazia chamar Lenin. As façanhas desse partido e de seu fundador foram sem dúvida decisivas, mas seus emissários fizeram o seu melhor para ocultar o que foi mais grave sobre eles.

A Primeira Guerra Mundial tinha deixado dois vastos impérios em um dilema. O império celestial chinês, o estado mais antigo do mundo, e o império dos czares, uma operação bem mais recente; ambos ficaram suspendidos entre a possibilidade de tornar-se eles mesmos nações-estado e a de decompor-se em unidades menores, como tinham feito seus contraponentes: os Otomanos e os Habsburgo.

Lenin resolveu esse dilema para Rússia. como foi possível? Marx tinha observado que um indivíduo só não podia mudar as circunstâncias; o que podia fazer era valer-se daquelas. Provavelmente Marx tinha razão. A façanha de Lenin não consistiu em mudar as circunstâncias, senão em servir-se delas de uma maneira extraordinária. Esta façanha foi monumental quanto a seu oportunismo.

Lenin foi um burguês russo que detestava a debilidade e a inaptidão da burguesia russa.4  Um entusiasta do desenvolvimento capitalista, um ardente admirador do estilo  estadounidense de progresso, ele não se aliou com aqueles que detestava, mas sim com seus inimigos, os discípulos anticapitalistas de Marx. Ele mesmo utilizou o engano de Marx para transformar sua crítica do processo de produção capitalista num manual para desenvolver o capital, uma guia de “como fazer”. Os estudos de Marx sobre a exploração e o empobrecimento se converteram em comida para os famintos, uma cornucópia, um achado virtual de plenitude. Os negociantes estadounidenses já tinham comercializado a urina como agua mineral, mas nenhum estadounidense de confiança tinha dirigido uma inversão de semelhante magnitude.

As circunstâncias não mudaram. Cada degrau da inversão foi conduzido com circunstâncias utilizáveis, com métodos acessíveis. Os camponeses russos não podiam ser mobilizados em termos de ser russos, ou a ortodoxia, ou a brancura de sua pele; mas o podiam ser em termos de sua exploração, sua opressão, seus períodos de sofrimento sob o despotismo dos czares. A opressão e a exploração se converteram em materiais úteis. Os longos sofrimentos sob os czares foram usados do mesmo modo e com o mesmo propósito que os estadounidenses usaram o couro cabeludo das mulheres brancas e das crianças; foram usados para organizar as pessoas em unidades de luta, em embriões do exército nacional e na polícia nacional.

A apresentação do ditador e o comitê central  como uma ditadura do proletariado liberto parecia ser algo novo, mesmo que a novidade seja apenas nas palavras que foram usadas.  Isto foi algo tão antigo como os faraós do Egito e os chefes da Mesopotânia, que foram eleitos por Deus para governar o seu povo e que encarnavam seu povo em seus diálogos com seu Deus. Isto foi uma tentativa experimentada e verificada de mudança de dirigentes. Mesmo se os precedentes mais antigos foram esquecidos temporariamente, um precedente mais recente tinha sido produzido pelo Comitê Francês de Saúde Pública, que apresentou a si mesmo como encarnação da vontade geral da nação.

A meta, o comunismo, o derrocamento e a supressão do capitalismo, pareciam novos, pareciam ser uma mudança das circunstâncias. Mas só o discurso era novo. O propósito do ditador do proletariado se fez ao estilo do progresso estadounidense: desenvolvimento capitalista, eletrificação, rápido transporte das massas, ciência, a industrialização do meio ambiente natural. Sua meta foi o capitalismo que a débil e despreparada burguesia russa não tinha conseguido desenvolver. Com O Capital de Marx como guia e luz, o ditador e seu partido podiam desenvolver o capitalismo na Rússia; estes serviriam como substitutos da burguesia e usariam o poder do estado não só para vigiar o processo, senão também para organizá-lo e dirigí-lo.

Lenin não viveu o suficiente para demonstrar sua virtuosidade como diretor geral do capital russo mas, seu sucessor, Stalin demonstrou amplamente os poderes da máquina do fundador. O primeiro degrau foi a primitiva acumulação de capital. Se Marx não tinha sido muito claro neste ponto, Preobrazhensky tinha sido. Preobrazhenskye foi preso,mesmo que suas observações dos métodos testado e verificados para tentar acumular capital preliminar tenha sido aplicado vastamente na Rússia. O capital preliminar dos ingleses, americanos, belgas e de outros capitalistas vinham das colônias saqueadas de além mar. A Rússia não tinha colônias. Mas esta carência não era nenhum obstáculo. Toda Rússia ficou transformada numa colônia.

As primeiras fontes de capital preliminar foram os Kulaks, os camponeses que tinham algo de valor para saquear. Este achado teve tanto sucesso que se aplicou aos camponeses restantes com a racional expectativa de que pequenas quantidades expropriadas de muitas pessoas somariam grandes lucros.

Os camponeses não foram os únicos colonizados. A antiga classe dirigente tinha sido desapropriada de todas suas riquezas e propriedades, e ainda se encontraram outras fontes de capital preliminar. Com a totalidade do poder estatal concentrado em suas mãos, os ditadores, muito cedo, descobriram que podiam manufaturar fontes de acumulação primitiva. Empreendedores de sucesso, trabalhadores e camponeses insatisfeitos militantes de organizações concorrentes, e inclusive os membros desiludidos do partido, foram designados como contra-revolucionários, foram presos, desapropriados e enviados aos campos de trabalho. Todas as deportações, as execuções em massa e as expropriações dos primeiros colonizadores se deram outra vez, de novo, na Rússia.

Os primeiros colonizadores, sendo pioneiros, tinham superado o erro e a tentativa. Os ditadores russos não tiveram que superar nem o erro nem a tentativa. Em sua época, todos os métodos para obter capital preliminar tinham sidos verificados e comprovados, de modo que puderam aplicar-se cientificamente. O capital russo se desenvolveu numa atmosfera totalmente controlada, numa estufa. Cada nível, cada variável, eram controlados pela polícia nacional. Funções que tinham sido deixadas a esmo ou a outros corpos em ambientes menos controlados caíram ante a polícia da estufa russa. O fato de que os colonizados estavam no interior e não no exterior , e portanto, sujeitos à detenção e não à conquista, incrementou mais ainda o papel e o tamanho da polícia. Com o tempo, a onipotente e onipresente polícia se converteu na visível emanação e a encarnação do proletariado, e o comunismo se converteu no sinônimo de uma organização policial total e de controle.

As expectativas de Lenin não foram cumpridas em sua totalidade pela estufa russa. A polícia-como-capitalista conseguiu esperanças de tentar capital preliminar dos desapropriados contra-revolucionários, mas não o fez tão bem como dirigir o processo de produção capitalista. Pode ser que seja um pouco cedo para falar com segurança, mas até a data esta polícia burocrática foi pelo menos tão despreparada em seu papel como a burguesia que Lenin tinha atacado; suas aptidões para descobrir cada dia novas fontes de capital preliminar parece ser a única razão que a manteve em circulação.
O atrativo deste mecanismo também não se correspondeu com o nível de expectativas de Lenin. O aparelho da polícia leninista não agradou nem aos empresários nem aos políticos estabelecidos; não pôde recomendar-se como método superior para dirigir o processo de produção. Agradou, no entanto, a uma classe social diferente, uma classe que vou tentar descrever e se recomendou a si mesmo para esta classe, em primeiro lugar como um método para atingir poder nacional e, em segundo lugar, como método de acumulação primitiva de capital.

Os herdeiros de Lenin e de Stalin não foram realmente guardas pretorianos, também não foram supervisores do poder econômico e político em nome e a benefício de um monarca supérfluo; foram pretorianos instruídos, procuradores de poder econômico e político que se desesperaram ao não poderem atingir nem sequer níveis de poder intermédio. O modelo leninista lhes ofereceu a essas gentes a possibilidade de atingir esses níveis intermédias de poder inclusive dentro do mesmo palácio.

Os herdeiros de Lenin foram advogados e oficiais de pouca categoria: Mussolini, Mao tse tung e Hitler, gentes que como o mesmo Lenin, culparam os seus inexperientes e débeis burgueses por não terem estabelecido nações poderosas.

(Não incluo aos sionistas entre os herdeiros de Lenin porque estes pertencem a uma geração posterior. Foram os contemporâneos de Lenin que, possivelmente de forma independente, descobriram o poder da perseguição e o sofrimento como materiais úteis para a mobilização do exército nacional e da polícia. Os sionistas fizeram suas próprias contribuições. Seu tratamento de uma população religiosa dispersa como nação, sua imposição da nação-estado capitalista como fim e meio de existir da população, e sua redução da herança religiosa a uma herança racial, contribuíram elementos significativos à metodologia nacionalista, e tiveram funestas conseqüências quando foram aplicadas à população judia - nem todos era sionistas , por outra população reunida sob o nome de “raça alemã”.)

Mussolini, Mao Tse tung e Hitler atravessaram a cortina de slogans e tomaram as façanhas de Lenin e Stalin pelo que eram: métodos exitosos de atingir e manter o poder estatal. Os três aplicaram as essências desta metodologia. O primeiro degrau foi contatar com os estudiosos do poder e formar um núcleo de organização policial, um mecanismo, chamado, depois de Lenin, Partido. O próximo passo foi recrutar as massas de base, tropas disponíveis e provedores de tropas. O terceiro passo foi confiscar o aparelho estatal, instalar um teórico nos despachos do Duce, Dirigente ou Fuhrer, distribuir a polícia e as funções de governo entre a elite e pôr às massas de base pra trabalhar. O quarto passo foi assegurar o capital preliminar necessário para consertar ou organizar uma complexa indústria militar capaz de manter aos líderes nacionais e a seus oficiais, a polícia, o exército e aos dirigentes industriais; sem esse capital não podia ter armas, nem poder, nem nação.

Os herdeiros de Lenin e Stalin levaram mais longe esta metodologia, em seus impulsos, minimizando a exploração capitalista e concentrando-se na opressão nacional. O falar de exploração já não servia a seus propósitos, e se tinha convertido em algo incomodo já que era totalmente óbvio, especialmente para os assalariados, que os êxitosos revolucionários não só não tinham terminado com o trabalho assalariado senão que o tinham estendido e piorado.

Como eram tão pragmáticos como os empresários americanos, os novos revolucionários não falaram de libertação dos assalariados senão de libertação nacional.5 Este tipo de libertação não era um sonho de românticos utópicos; foi, precisamente, o que era possível naquele mundo existente; um que apenas tinha que fazer era servir-se das circunstâncias que já existiam para fazer possível o sonho. A libertação nacional consistiu na libertação do dirigente nacional e da polícia nacional das correntes da ineficiência; a investida do dirigente e o estabelecimento da polícia não eram sonhos senão os componentes de uma estratégia comprovada e experimentada: uma ciência.

Os partidos fascistas e nacional-socialistas foram os primeiros em demonstrar que a estratégia tinha resultados e que as façanhas do partido bolchevique podiam repetir-se. O dirigente nacional e seus cargos se instalaram no poder e trataram de obter o capital preliminar necessário para a grandeza de suas nações. Os fascistas se concentraram nas últimas regiões sem invadir da África, e adentraram ali como em outras épocas os primeiros industriais tinham adentrado nos impérios coloniais. A meta dos nacional socialistas foram os judeus, gentes que tinham sido membros da Alemanha unificada do mesmo modo que outros alemães; utilizaram-nos como uma fonte de acumulação de capital primário, já que muitos dos judeus, como a maioria dos camponeses de Stalin, tinham posses dignas de ser saqueadas.

Os sionistas tinham precedido aos nacional-socialistas em reduzir a religião a uma raça e os nacional-socialistas podiam olhar para atrás, aos pioneiros americanos quanto aos modos de usar o instrumento do racismo. A elite de Hitler somente precisou traduzir o corpus da busca racista americana para poder equipar seus institutos científicos com enormes bibliotecas. Os nacional-socialistas trataram aos judeus da mesma forma que os americanos tinham tratado uns séculos antes à população indígena América do Norte, exceto que os nacional-socialistas aplicaram uma tecnologia bem mais poderosa na tarefa de deportar, desapropriar e exterminar os seres humanos. Ainda que neste último não fossem os inovadores já que meramente se serviram das circunstâncias que tinham a seu alcance.

Os fascistas e nacional-socialistas se uniram aos construtores do império japonês, quem temiam que o descomposto império celestial pudesse converter-se em capital preliminar para os russos ou para os revolucionários industriais chineses. Formado um eixo, os três organizaram a conversão dos continentes do mundo em fontes de acumulação primitiva de capital. As demais nações não os molestaram até que começaram a invadir as colônias e os países dos poderes capitalistas estabelecidos. A redução dos já estabelecidos capitalistas na presas colonizadas se podia praticar internamente onde era legal, já que os dirigentes da nação faziam suas próprias leis - e já tinham posto em prática internamente pelos leninistas e stalinistas. Mas tal prática poderia ter atingido uma mudança de circunstâncias e não se podia carregar ao estrangeiro sem provocar uma guerra mundial. Os poderes do eixo se passaram do limite e perderam.

Depois da guerra, muita gente razoável falaria dos propósitos do eixo como irracionais e do Hitler como de um lunático. Também, a mesma gente razoável considerou a George Washginton e a Thomas Jefferson como sãos e racionais inclusive ainda que estes homens visionaram e começaram a conquista de um vasto continente, o extermínio e a deportação dos habitantes deste continente, numa época na qual esse projeto era menos realizável que o projeto do eixo.6 É verdade que as tecnologias, bem como as ciências biológicas, químicas e sociais aplicadas por Washington e Jefferson foram muito diferentes das aplicadas pelos nacional-socialistas. Mas se o conhecimento é poder, se era racional para os primeiros pioneiros mutilar e matar com pólvora na época das carroças a cavalos, por que ia ser irracional para os nacional-socialistas o matar e suprimir com explosivos, gases e agentes químicos na época dos submarinos, dos aviões e das auto-estradas?
Os nazistas foram, se foram algo, mais científicos em sua orientação do que os estadounidenses. Em seu tempo foram um sinônimo de eficácia científica para a maioria das pessoas. Tinham arquivos para tudo, tabulavam e contra-tabulavam seus achados, publicavam suas tabulações em jornais científicos. Entre eles, nem sequer o racismo era propriedade de agitadores, mas sim dos bem abastecidos institutos.
Muitas pessoas razoáveis parecem adequar a loucura com o fracasso. Não seria a primeira vez. Muitos tacharam a Napoleão de lunático quando estava em prisão ou no exílio, mas quando Napoleão ressurgiu como imperador, as mesmas pessoas falavam dele com respeito, inclusive com reverência. A prisão e o exílio não só são vistos como remédio para os lunáticos, senão também como sintomas. O fracasso é a loucura.
Mao Tse Tung, o terceiro pioneiro nacional-socialista (ou nacional-comunista; a segunda palavra já não importa dado que não é senão uma relíquia histórica; a expressão “asa esquerda fascista” serve do mesmo modo, mas lhe dá menos significado do que as expressões nacionalistas) conseguiu para o império chinês o que Lenin tinha conseguido para o império dos czares. O aparelho burocrático mais antigo do mundo não se decompôs em unidades menores nem em colônias de outros industriais; emergiu, muito mudado, como a República do Povo, como um estandarte das nações oprimidas.

Seu diretor e seus servidores públicos seguiram os passos de uma longa linha de antecessores e transformaram o império celeste numa enorme fonte de capital preliminar, completando-a com purgamento, perseguições e os conseqüentes horrores que seguiram.
O seguinte passo, a obtenção do processo capitalista de produção, cimentou-se no modelo russo, principalmente com a polícia nacional. Mas isto não funcionou melhor do que  tinha feito na Rússia. Aparentemente, a função empresarial tem que se pôr em mãos de homens de confiança ou em oportunistas capazes de atrair a outras pessoas e a polícia, em geral, não inspira demasiada confiança. Mas isto era menos importante para os maoístas do que tinha sido para os leninistas. O processo de produção capitalista segue sendo importante, ao menos tão importante como os impulsos regularizados de acumulação primitiva, dado que sem o capital não há poder nem nação. Mas os maoístas fizeram poucas e cada vez menos reclamações de seu modelo como um método superior de industrialização; neste ponto são mais modestos que os russos e ficam menos decepcionados com sua polícia industrial.
O modelo maoísta se oferece aos guardas de segurança, aos estudantes e ao mundo,como uma metodologia de poder comprovada e experimentada, como uma estratégia científica de libertação nacional. Conhecida, em geral, como “o pensamento de Mao-tse Tung”, esta ciência oferece aos aspirantes a dirigentes e a altos cargos o projeto de um poder sem precedentes entre os seres vivos, atividades humanas e inclusive idéias. 7 O papa e os sacerdotes da Igreja Católica, com todas as suas inquisições e crenças, nunca tiveram tal poder, não porque o tivessem recusado senão porque careciam dos instrumentos que a tecnologia moderna e a ciência tinham feito possíveis.

A libertação da nação é o último passo na eliminação dos parasitas. O capitalismo já tinha clareado em outras ocasiões a natureza dos parasitas e reduzido grande parte da natureza a matérias primas para indústrias processadoras. O nacional-socialismo moderno ou o social-nacionalismo defende, dessa forma, o propósito de eliminar aos parasitas da sociedade. Os parasitas humanos são com freqüência fontes de capital preliminar, mas o capital não é sempre material; pode ser também espiritual ou cultural. Os costumes, os mitos, a poesia e a música das pessoas se liquidam facilmente; parte da música e dos costumes da última “cultura popular” reaparecem seguidamente, processadas e empacotadas como elementos de um espetáculo nacional, como decorações dos impulsos de acumulação nacional; os costumes e os mitos se convertem em matérias primas para ser processadas por uma ou variadas das ciências humanas. Inclusive se elimina o ressentimento inútil dos assalariados ao seu trabalho alienado. Quando a nação é libertada, o trabalho assalariado deixa de ser uma carga pesada e se converte numa obrigação nacional, para ser levada a cabo com alegria. Os habitantes de uma nação completamente libertada lêem a obra de Orwell 1984, como um estudo antropológico ou uma descrição de uma era anterior.

Não é mais possível satirizar este estado de coisas. Toda sátira corre o risco de converter-se numa Bíblia para outra frente de libertação nacional.8  Todo satírico corre o risco de converter-se no fundador de uma religião nova, Buda, Zaratustra, Jesus, Maomé ou Marx. Toda exposição das seqüelas de um sistema dominante, toda crítica dos resultados de um sistema, converte-se em forragem para os cavalos dos libertadores, materiais disponíveis para os fabricantes de armas. O pensamento de Mao Tse Tung, em suas numerosas versões e revisões é uma ciência completa, como também é uma tecnologia completa; é física social e também é metafísica cósmica. O comitê francês de saúde nacional exigiu encarnar, unicamente, a vontade geral da nação francesa. As revisões do pensamento de Mao Tse Tung reclamavam a encarnação da vontade geral dos oprimidos do mundo inteiro.
São necessárias as constantes revisões deste pensamento porque suas formulações iniciais não foram aplicáveis a nenhuma das populações colonizadas da terra. Nenhum dos povos colonizados compartilhava a herança chinesa de ter agüentado um aparelho estatal nos últimos dois mil anos. Muito poucos dos oprimidos do mundo tinham possuído nenhum dos atributos de uma nação num passado recente ou distante. O pensamento de Mao tinha que ser adaptado a gentes cujos antepassados tinham vivido sem dirigentes nacionais , sem exércitos ou sem polícia, sem processos de produção capitalista e portanto, sem a necessidade de capital preliminar.

Estas revisões se levaram a cabo por meio do enriquecimento do pensamento inicial com empréstimos de Mussolini, Hitler, e do estado sionista de Israel. A teoria de Mussolini da culminação de uma nação em estado foi a meta central. Grupos de pessoas, grandes ou pequenos, industriais ou não, concentrados ou dispersos, foram vistos como nações, não em termos de seu passado senão em termos de sua aura e seu potencial, um potencial incorporado em suas frentes de libertação nacionais. O tratamento de Hitler (e o dos sionistas) da nação como entidade racial foi outra meta central. A estrutura foi recrutada entre pessoas desprovidas dos costumes e das relações de seus antepassados e conseqüentemente, os libertadores não se distinguia dos opressores, em termos de linguagem, crenças, costumes e armas; o único material disponível que unia entre eles e a suas massas de base era o material que tinha sujeitado os empregados brancos a seus chefes brancos na fronteira estadounidense; o salto racial lhes deu identidade aos que não a tinham, relações a quem não tinham nenhuma, comunidade aos que a tinham perdido; foi o último lucro dos despossuidos culturalmente.

Uma vez o pensamento revisado, podia-se aplicar aos africanos assim como aos navajos, apaches e aos palestinos.9 Os empréstimos de Mussolini, Hitler e os sionistas são judiciosamente encobertos, porque Mussolini e Hitler fracassaram em sua tentativa de manter o poder conseguido e porque os brilhantes sionistas converteram a seu estado na polícia mundial contra a todos as demais frentes de libertação nacional. A Lenin, Stalin e Mao Tse Tung  deve se conceder ainda mais crédito do que merecem.

Estes modelos revisados, universalmente aplicáveis, funcionam mais ou menos como seus originais, ainda que mais sutilmente; a libertação nacional se converteu numa ciência aplicada; seu aparelho se comprovou freqüentemente; as numerosas relações originais foram desde então atadas e bem atadas; tudo isto se precisa para fazer que seu dispositivo funcione com o seu motorista, com seu canal de transmissão, e combustível.

O motorista, é claro, é o próprio teórico ou seu discípulo mais próximo. O canal de transmissão são os encarregados gerais, a organização - também chamada Partido - ou o partido comunista. Este partido comunista com um "c" pequeno é exatamente o que é popularmente entendido. É o núcleo da organização policial que leva a cabo o purgamento e que será auto purgado tão cedo uma vez que seu líder se converte no líder nacional e precisa revisar sua ideologia enquanto se adapta a família das nações ou, pelo menos, a família dos banqueiros, aos provedores de munições e aos investidores. E o combustível: a nação oprimida, as massas sofridas, o povo libertado, são e continuarão sendo, seu combustível.

O líder e seus diretores gerais não provem do estrangeiro; não são agitadores forasteiros. São produtos integrais do processo de produção capitalista. Este processo de produção veio acompanhando, invariavelmente, do racismo. O racismo não é um componente necessário da produção; mas o racismo, de certa forma, foi um componente necessário do processo de acumulação primitiva de capital e quase sempre derivou no processo de produção.

As nações industrializadas obtiveram o capital preliminar mediante a expropriação, a deportação, a perseguição e a segregação, se não foi sempre com o extermínio dos povos designados como legítimas presas. Romperam-se laços familiares, destruíram-se as paisagens,  as orientações culturais e costumes  foram eliminados.

Os descendentes e sobreviventes de tais despojos são afortunados se conservam suas relíquias mais elementares, os traços mais sutis das culturas de seus antepassados; a alguns destes descendentes nem sequer  ficam traços; encontram-se totalmente desprovidos; vão ao trabalho; mais adiante engrandecem o mecanismo que destruiu a cultura de seus ancestrais. E no mundo do trabalho são levados para as margens, aos trabalhos mais desagradáveis e pior pagos. Isto os deixam loucos. Um empacotador de supermercado, por exemplo, sabe mais sobre demandas e depósitos do que o próprio encarregado; saber que o racismo é a única razão pela qual ele não é o encarregado e este não é o empacotador. Um guarda de segurança sabe que o racismo é a única razão pela qual não é chefe de polícia. É entre as pessoas que perderam suas raízes, entre os que sonham para si mesmos os postos de encarregados de supermercado e chefes de polícia, onde a frente de libertação nacional encontra suas próprias raízes; entre eles é onde se formam o líder e seus generais.

O nacionalismo continua atraindo aos despossuídos porque outros projetos se apresentam como vazios. A cultura dos ancestrais foi destruída, e segundo os postulados pragmáticos foi um fracasso; os únicos antepassados sobreviventes foram os que se acomodaram ao sistema dos invasores, ainda que sobreviveram nos limites dos montões de lixo. As diferentes utopias dos poetas, dos sonhadores, e as numerosas mitologias do proletariado fracassaram também; não se demonstraram como válidas na prática; não foram mais do que quimeras, sonhos rompidos, castelos no ar, e o proletariado atual é tão racista como seus chefes e a polícia.

O empacotador e o guarda de segurança perderam contatos com a ancestral cultura; os sonhos e as utopias já não lhes interessam; de fato, encontram-se rejeitados pelo pratico homem de negócios, se tornam desprezados para os poetas e sonhadores. O nacionalismo lhes oferece algo concreto, algo que se verificou e foi comprovado e se sabe que funciona. Não há razão terrenas para os descendentes dos perseguidos continuam sendo perseguidos quando o nacionalismo lhes oferece a possibilidade de converter-se em perseguidores. Familiares próximos e longínquos das vítimas podem converter-se numa nação-estado racista; podem, assim mesmo, empurrar a outras pessoas a campos de concentração, controlar as vontades de outras pessoas, perpetuar lutas genocidas contra eles, obter capital preliminar ao desapropriá-los. E se os “familiares raciais” das vítimas de Hitler podem fazê-lo, do mesmo modo o farão os familiares longínquos das vítimas de Washington, Jackson, Reagan ou Begin.

Toda população oprimida pode converter-se numa nação, um negativo fotográfico da nação opressora, um lugar onde o empacotador seja o encarregado do supermercado, onde a polícia de segurança seja o chefe de polícia. Aplicando a estratégia correta, cada guarda de segurança pode seguir o precedente do antigo guarda pretoriano da Roma imperial. O policial de segurança de um complexo mineiro estrangeiro pode declará-lo, ele mesmo, como república, liberar a sua gente, e seguir com sua libertação até que não fique nada mais que rezar pelo fim da libertação. Inclusive antes de tomar o poder , um grupo pode denominar-se a si mesma Frente e oferecer para as pobres pessoas que sofrem impostos elevados e forte vigilância, um pouco do que elas carecem: uma organização coletora de impostos e uns capatazes, principalmente, camponeses e polícia, de entre sua própria gente. Deste modo o povo pode ser libertado das impressões de seus antepassados vítimizados; todas as relíquias que ainda sobrevivem desde os tempos pré-industriais e das culturas não capitalistas podem, por fim, serem permanentemente exterminadas.

É errônea a idéia de que um entendimento do genocídio, ou a memória do holocausto podem unicamente levar ao povo a desmantelar o sistema. O contínuo apelo do Nacionalismo sugere que o oposto é mais verdadeiro, tendo em conta que o entendimento do genocídio levou o povo a mobilizar armas genocidas, que a memória do holocausto levou aos povos a cometer holocaustos. Os poetas sensíveis que recordaram a perda, os pesquisadores que a documentaram foram como os cientistas puros que descobriram a estrutura do átomo. Os cientistas aplicados usaram a descoberta para dividir o núcleo do átomo, para produzir armas que podem dividir cada núcleo do átomo; os nacionalistas usaram a poesia para dividir e aniquilar populações humanas, para mobilizar armas genocidas, para cometer novos holocaustos.

Os cientistas puros, os poetas e pesquisadores se consideram inocentes pelas paisagens devastadas e os corpos destroçados São inocentes?

Parece-me que, pelo menos, uma das observações de Marx é verdadeira: cada minuto dedicado ao processo de produção capitalista, a cada pensamento contribuinte ao sistema industrial, alongam cada vez mais um poder que é contrário à natureza, contrario a cultura e a  vida. A ciência aplicada não  é de natureza diferente; é uma parte integral do processo de produção capitalista. O nacionalismo não surge por fora, é um produto do processo de produção capitalista, assim como os agentes químicos envenenando os lagos , o ar, os animais, e as pessoas; assim como as usinas nucleares radioativam micro-ambientes em preparação para a radioativação de macro-ambientes.

Como um pos-escrito eu gostaria de contestar uma pergunta antes que seja feita. A pergunta é: Não acha que  um descendente de um povo oprimido esteja em melhor situação do que um gerente de supermercado ou de um chefe policial? Minha resposta é outra pergunta: Qual encarregado de um campo de concentração, qual carrasco nacional ou qual torturador não são descendentes de povos oprimidos?

Fredy Perlman. Título original: The Continuing Appeal of Nationalism
Detroit, 1984.

Notas:
1.O subtítulo do primeiro volume do Capital é uma crítica de política econômica: o processo de produção capitalista. (Batas um papo H. Kerr e Co., 1906; reeditada por Random House).
2.Ibidem., pág. 784-850; parte VIII: “A chamada acumulação primitiva”.
#.E. Preobrazhensky, The New Economics (Moscou, 1926; a tradução em inglês foi publicada por Clarendon Press, Oxford, 1965), um livro que anunciava a terrível “lei de acumulação socialista primitiva”.
4.Ver V. I Lenin, O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (Moscou: Progress Publishers, 1964; publicado pela primeira vez em 1899). Cito da página 599: “ Se…comparamos a atual rapidez do desenvolvimento com o que pode conseguir-se com o nível geral de técnica e de cultura tal e como funciona hoje em dia, o atual ritmo de desenvolvimento do capitalismo na Rússia deve ser considerado realmente como lento. E não pode ser senão lento já que em nenhum país capitalista teve nunca tão enorme sobrevivencia de instituições antigas que são incompatíveis com o capitalismo, atrasam seu desenvolvimento e fazem muito piores as condições dos produtores …”.
5.Ou a libertação do estado: “Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação”. É o estado o que cria a nação , outorgando vontade e portanto vida real entre as gentes conscientes de sua unidade moral”; “Sempre, o máximo de liberdade coincide com o máximo de forças do estado”; “Tudo para o estado, nada contra o estado, nada fora do estado”; De Che costure e il fascismo e A doutrina do fascismo, citado por G. H. Sabine, A History of Political Theory (Nova York, 1955), pp. 872-878
6. "…a gradual extensão de nossos assentamentos farão com que os selvagens,assim como o lobo, retirem-se; sendo os duas bestas de presa, ainda que “difiram em forma” " (G. Washington 1n 1783). “…se alguma vez nos vemos obrigados a levantar o arma contra uma tribo, nunca a baixaremos até que essa tribo tenha sido exterminada , ou conduzida além de nossos domínios…” (T. Jefferson em 1807). “…os cruéis massacres que cometeram nas mulheres e nas crianças de nossas fronteiras, tomando-os por surpresa, vão-nos a obrigar a prosseguir com seu extermínio, ou conduzí-los até novos assentamentos fora de nosso alcance”(T. Jefferson em 1813). Citado por Richard Drinnon em Facing West: The Methaphisics of Indian-Hating and Empire Building (Nova York: New American Library, 1980).
7. Quotations from Chairman Mao Citas do chefe Mao (Pequim: Dep. político do exército de libertação do povo, 1966).
8.Negros e vermelhos tentaram satirizar esta situação faz uns três anos com a publicação de um enganoso Manual para líderes revolucionários, uma guia de “como fazer as coisas”. Seu autor, Michael Velli, ofereceu para o revolucionário príncipe moderno o que Maquiavel tinha oferecido ao príncipe feudal. Este falso “Manual” fusionou o pensamento de Mao com os de Lenin, Stalin, Mussolini, Hitler e seus sucessivos seguidores; oferecia saborosas receitas para a preparação de organizações revolucionárias e a consecução total do poder. Assombrosamente, pelo menos a metade de pedidos deste “Manual” veio de parte de aspirantes a libertadores nacionais e é possível que algumas das atuais versões da metafísica nacionalista contenham receitas oferecidas por Michael Velli.
9.Não exagero. Tenho ante meus olhos um panfleto tão extenso como um livro, titulado A Mitologia do proletariado branco: um curto caminho para entender a Babilônia de J. Sakai (Chicago: Morningster Press, 1983). Como aplicação do pensamento de Mao Tse TUng à história estadounidense é o trabalho maoista mais sentimental dos que vi. Documenta e descreve, as vezes vívidamente, a opressão dos escravos africanos na América, as deportações e o extermínio dos habitantes indígenas do continente americano, a exploração racista dos chineses, a reclusão dos japoneses americanos em campos de concentração. O autor mobiliza todas estas experiências de cruel terror, não para procurar modos de atacar o sistema que os perpetrou, senão para urgir às vítimas que o sofreram a reproduzir o mesmo sistema entre eles. Salpicados de fotografias e citações de chefes como Stalin, Lenin, Mao e Ho-Chi-Ming, este trabalho não tenta ocultar ou disfarçar seus propósitos repressores; urge aos africanos, aos navajos, aos apaches e aos palestinos a organizar-se em partido, tomar o poder, e a liquidar aos parasitas.