O continuo apelo do nacionalismo
Fredy Perlman
O nacionalismo foi proclamado morto severas vezes durante o presente século:
- Depois da
Primeira Guerra Mundial, quando os últimos impérios
europeus, o austríaco e o turco, quebraram em
nações autônomas, e não privaram os
nacionalistas restantes, exceto os Sionistas;
- Depois do golpe
de estado bolchevique, quando se assegurou que as lutas da burguesia
pela autodeterminação tinham sido substituídas
pelas lutas das massas trabalhadoras que não tinham país.
- Depois da
derrota militar da Itália fascista e da Alemanha
nacional-socialista, quando os resultados do genocídio
nacionalista tinham sido mostrados a todo mundo e quando se pensava que
o nacionalismo, como credo e como prática se tinha desacreditado
para sempre.
No entanto,
quarenta anos depois da derrota dos fascistas e do nacional-socialismo,
podemos ver que não só sobreviveu o nacionalismo, mas que
renasceu com mais força. O nacionalismo foi revitalizado,
não só pela chamada direita, Mas também e
primeiramente pela chamada esquerda. Depois da guerra nacional
socialista, o nacionalismo deixou de ser exclusivo dos conservadores,
converteu-se em credo e prática dos revolucionários,
chegando a demonstrar em si mesmo, que era o único credo
revolucionário que atualmente funciona.
Esquerdistas
ou revolucionários nacionalistas insistem que seus nacionalismos
não tem nada em comum com o nacionalismo dos fascistas e dos
nacional-socialistas; insistem que seus nacionalismos são os dos
oprimidos, que oferecem tanto a libertação pessoal como a
cultural. As exigências dos revolucionários nacionalistas
foram difundidas pelo mundo por duas das instituições
hierárquicas mais antigas, as quais sobrevivem ainda hoje: o
Estado Chinês e, mais recentemente, a Igreja Católica. Na
atualidade, o nacionalismo se apresenta como uma estratégia,
ciência ou teologia da libertação, como uma
realização do ditado iluminista, afirmando que o
conhecimento é poder, como uma resposta à pergunta
"O que se deve fazer".
Para desafiar
estas alegações, e para observá-los dentro de um
contexto, tenho que me perguntar o que é o nacionalismo -
não só o novo nacionalismo revolucionário, mas
também o conservador ultrapassado. Não posso
começar definindo o termo, já que o nacionalismo
não é uma palavra com uma definição
estática; é um termo que cobre uma seqüência
de diferentes experiências históricas. Começarei
dando uma breve descrição a essas experiências.
De acordo
com uma concepção comumente aceita, errada e
manipuladora, o imperialismo é relativamente recente, consiste
na colonização do mundo inteiro e é o
último degrau do capitalismo. Este diagnóstico aponta
para uma cura específica: o nacionalismo é oferecido como
um antídoto do imperialismo; as lutas pela
libertação nacional são citadas para quebrar o
império capitalista.
Este
diagnóstico serve a um propósito, mas não descreve
nenhum evento nem situação. Chegamos perto da verdade
quando analisamos esta idéia a partir de suas raízes e
confirmamos que o imperialismo foi o primeiro degrau do capitalismo,
que o mundo foi subseqüentemente colonizado por
estados-nações, e que o nacionalismo é o estagio
dominante, o atual, e (esperançosamente) o ultimo estagio do
capitalismo. Os fatos deste acontecimento não se descobriram
ontem, são tão familiares quanto a
concepção equívoca que os nega.
Tem sido
conveniente, por numerosas razões, esquecer que, até os
séculos recentes, os governos dominantes na Eurásia foram
impérios e não nações-estados. Um
império celestial a cargo da dinastia Ming, o império
islâmico governado pela dinastia Otomana e o império
católico, dirigido pela dinastia Habsburgo, todas elas vistas
rivalizando por obter posse do mundo conhecido. Os católicos
não foram os primeiros imperialistas, senão os
últimos. O império divino dos Ming dominou a maior parte
de Ásia oriental e tinha despachado grandes naves comerciais
além dos mares um século antes de os marinheiros
católicos invadirem o México.
Os que celebram o
triunfo católico esquecem que entre 1420 e 1430, o burocrata
imperial chinês Cheng Ho, dirigiu expedições navais
de 70.000 homens e navegou, não só ao redor de
Malásia, Indonésia e Ceylão, mas também
chegou a portos do Golfo Pérsico, do Mar Vermelho e da
África. Os que celebram os conquistadores católicos,
menosprezam os triunfos imperiais dos Otomanos, que conquistaram todas
as províncias ocidentais do antigo império romano,
controlaram o Norte de África, Arábia, Oriente
Médio e a metade de Europa, dominaram o Mediterrâneo e
bateram com força as portas de Viena. Os imperiais
católicos se orientaram para o oeste, além dos limites do
mundo conhecido para, deste modo, escapar do cerco.
Entretanto, foram
os imperiais católicos que “descobriram a
América” e os que levaram a cabo sua
destruição genocída, assim como a pilhagem de sua
“descoberta”, mudando o equilíbrio de forças
entre os impérios de Eurásia .
Teriam sido menos
mortíferos os impérios chinês e turco se eles
tivessem descoberto América? Os três impérios
consideravam os estrangeiros como "menos" humanos e,
conseqüentemente, como suas legítimas presas. Os chineses
consideravam os outros como bárbaros; os muçulmanos e os
católicos consideravam os outros infiéis. O termo infiel
não é tão brutal como o termo bárbaro,
já que um infiel cessa de ser uma presa legítima e se
converte num ser humano completo pelo simples fato de se converter
à verdadeira fé, enquanto que um bárbaro permanece
como presa até que ela ou ele seja elevado como humanos pelo
civilizador.
O termo infiel e a
moral que se esconde por trás disto, entraram em conflito com as
práticas dos invasores católicos. A
contradição entre crença e comportamento foi
delatada por um crítico muito precoce, um frade chamado Las
Casas, que apontou que as cerimônias de conversão eram
pretextos para separar e exterminar os infiéis, e que os
convertidos não eram tratados como semelhantes católicos,
mas como escravos.
As críticas
de Las Casas não fizeram mais do que desconcertar a Igreja
Católica e ao imperador. Aprovaram-se leis e permitiram
investigações, mas com pouca eficácia, já
que as duas metas das expedições católicas, a
conversão e o saque, eram contraditórias. A maior parte
dos membros da igreja se reconciliaram com eles mesmos para salvar o
ouro e danar as almas. O imperador católico dependia cada vez
mais das riquezas saqueadas para pagar os gastos da casa real, o
exército, e as frotas que transportavam o saque.
A pilhagem seguiu
tendo preponderância sobre a conversão, mas os
católicos continuaram sentindo-se numa situação
embaraçosa. Seu credo não condizia com a prática.
Os católicos fizeram para conquistar os astecas e os Incas, os
que descreveram como impérios com instituições
similares as do império dos Habsburgo, e com práticas
religiosas tão demoníacas como as do inimigo oficial, o
temido império dos Turcos Otomanos. Os católicos
não dirigiram tanto suas guerras de extermínio contra
comunidades que não tinham nem imperadores nem exércitos.
Tais fatos, ainda que perpetrados com regularidade, entravam em
conflito com sua ideologia e não eram heróicos em modo
algum
.
A
contradição entre a profissão de fé dos
invasores católicos e seus fatos não foi resolvida pelos
imperiais católicos. Isto foi resolvido com a chegada de uma
nova forma social: as nações-estado. Duas novidades
apareceram no mesmo ano, em 1561: quando um dos aventureiros de
ultramar, proclamou sua independência do Império. E quando
vários dos banqueiros do Império e provedores do
imperador desencadearam uma guerra de independência.
O marinheiro aventureiro, Lope de Aguirre, não encontrou apoio suficiente e foi executado.
Os banqueiros e
provedores do imperador mobilizaram os habitantes de várias
províncias imperiais, e tiveram sucesso ao romper essas
províncias do império (províncias conhecidas mais
tarde como Holanda).
Estes dois eventos
não podem ser considerados como lutas de
libertação nacional. Eram anúncios de
acontecimentos que estavam por vir. Também eram
reproduções do passado. No império romano, os
guardas pretorianos tinham engajado em proteger ao imperador; estes
guardas chegaram a assumir algumas das funções do
imperador e eventualmente, chegaram a manejar eles mesmos o
poder, no lugar do imperador. No império árabe
islâmico, o califa tinha contratado os guardas turcos para que
protegessem sua pessoa; os guardas turcos, como fizeram anteriormente
os pretorianos, assumiram muitas das funções do califa e
numa eventualidade tinham tomado o palácio e do governo
imperiais.
Lope de Aguirre e
os nobres holandeses não eram os guardas dos monarcas de
Habsburgo, mas os aventureiros coloniais andinos e as assinaturas
comerciais e financeiras holandesas assumiram importantes cargos
imperiais. Estes rebeldes, igualmente aos guardas pretorianos e turcos,
desejavam liberar-se da indignidade espiritual e do jugo material de
servir ao imperador; assumiram os poderes do imperador, que não
era para eles mais que um parasita.
Aguirre, o aventureiro colonial, foi, aparentemente, um inepto rebelde; sua hora não tinha chegado ainda.
Os nobres
holandeses não eram ineptos e sua hora tinha chegado. Não
derrubaram o império, mas o racionalizaram. As casas comerciais
e financeiras holandesas possuíam, já então, a
maioria das riquezas do Novo Mundo. Tinham-nas recebido como pagamento
por sustentar a casa, o exército e as frotas do imperador.
Começaram então a saquear as colônias em nome
próprio e para seu próprio benefício, livres de um
senhor parasita. E como não eram católicos, senão
protestantes calvinistas, não sentiram nenhum arrependimento
pelas contradições entre suas crenças e seu
comportamento. Não se comprometeram em salvar almas. Seu
calvinismo lhes dizia que um Deus inescrutável tinha salvado ou
condenado as almas desde o princípio da humanidade e que nenhum
sacerdote holandês poderia mudar os planos desse Deus.
Os holandeses
não eram cruzados; Restringiram-se a pilhagem
não-heróicas, sem caráter, em nome dos
negócios de maneira calculada e regularizada. As frotas
saqueadoras partiam e regressavam no tempo previsto. O fato de que os
estrangeiros saqueados fossem infiéis foi menos importante que o
fato de serem holandeses.
Os precursores do
nacionalismo do Oeste da Eurasia inventaram o termo selvagens. Este
termo era um sinônimo de bárbaro, criado pelo
Império Celestial Eurasiático. Ambos termos designavam
aos seres humanos como presas legítimas.
Durante os dois
séculos seguintes, as invasões, a
subjugação e expropriações iniciadas pelos
Habsburgo foram imitadas por outras casas reais européias.
Vistos
através das lentes dos historiadores nacionalistas, os
coloniais iniciais, assim como seus últimos imitadores, se
apresentavam como nações: Espanha, França,
Holanda, Inglaterra. Mas vistos a partir de uma perspectiva do passado,
os poderes colonizadores foram os Habsburgo, os Tudors, os Stuarts, os
Bourbons, Oranges - isto é, dinastias idênticas
às famílias dinásticas que tinham disputado o
poder e as riquezas desde a queda do Império romano do Ocidente.
Os invasores podem ser vistos em ambos pontos de vista já que
uma transição estava sucedendo naquele momento. Estas
entidades já não eram meros estados feudais, mas
também não eram nações por completo;
possuíam alguns, mas não todos os atributos das
nações-estado. Sua carência mais notória era
a de um exército nacional. Os Tudors e os Bourbons ainda
manejavam o britânico e o francês de seus súditos
especialmente durante as lutas contra os súditos de outras
monarquias. Mas nem os escoceses nem os irlandeses, como também
não os Corsos ou os Provenzales foram recrutados para morrer por
“amor a sua pátria”. A guerra era um enorme
ônus feudal, um castigo; os únicos voluntários eram
aventureiros que sonhavam com o ouro; os únicos patriotas foram
os patriotas do Dourado.
As doutrinas do
que se tornaria o credo nacionalista não atraíram as
dinastias dirigentes, que permaneceram agarraram a seus próprios
princípios . Os novos dogmas atraíram os mais altos
servidores públicos da dinastia, a seus agiotas, aos vendedores
de especiarias, aos provedores militares e aos saqueadores das
colônias. Estas pessoas, igualmente a Lope de Aguirre e os nobres
holandeses, ou os guardas turcos e romanos se apoderaram de cargos
importantes, ainda que continuassem sendo subalternos. Alguns, ou a
grande maioria deles, inflamaram para se livrarem da indignidade e do
jugo, para se libertarem do senhor parasita, para continuar com a
exploração dos camponeses e o saque dos colonizados em
seu nome e para seu próprio benefício.
Conhecidos mais
tarde como a burguesia ou classe média, estas pessoas tinham se
tornado ricas e poderosas desde os dias das primeiras frotas comandadas
para o Oeste. Uma porção de suas riquezas vinham das
colônias saqueadas como pagamento dos serviços outorgados
ao imperador; esta soma de riqueza seria reconhecida, mais tarde, como
uma acumulação primitiva de capital. Outra
porção de suas riquezas era da pilhagem a seus
próprios camponeses locais e aos vizinhos, por meio de um
método conhecido mais tarde como capitalismo; este método
não era completamente novo, mas se estendeu amplamente uma vez
que as classes médias se apossaram da prata e do ouro do Novo
Mundo.
Esta classe
média administravam cargos importantes mas não tinham
experiência em controlar o poder central. Na Inglaterra
derrubaram o monarca e proclamaram uma comunidade de riquezas, mas
temendo que as energias populares, que eles mesmos tinham mobilizado
contra as classes altas pudessem voltar-se contra eles mesmos,
Rapidamente restauraram um monarca da mesma dinastia.
O nacionalismo na
realidade não estourou até os finais do século
XVIII, quando duas explosões, separadas por treze anos,
derrubaram a relativa estabilidade das classes altas e mudaram para
sempre a geografia política do globo. Em 1776, quando os
mercadores e aventureiros colonizadores voltaram a proclamar sua
independência - tal como tinha feito Aguirre - liberando-se da
dinastia dirigente de além mar, ultrapassando seu antecessor ao
mobilizar seus parceiros colonos em romper com o império
britânico. E em 1789, quando alguns autores e mercadores
iluministas ultrapassaram os pioneiros holandeses, mobilizando
não só algumas províncias senão à
população inteira; derrubando e matando o monarca Bourbon
e convertendo todos os vínculos feudais em vínculos
nacionais. Estes dois acontecimentos, marcaram o final de uma era.
Daí em adiante, inclusive as dinastias sobreviventes se tornaram
gradualmente nacionalistas e os estados que permaneceram
monárquicos se posicionaram, mais do que nunca, nos atributos
das nações-estado.
As duas
revoluções do século XVIII foram muito diferentes
e contribuíram com diferentes e conflitantes elementos ao credo
e a prática do nacionalismo. Não tento analisar aqui
estes eventos senão só recordar ao leitor algumas de suas
características. Ambas rebeliões romperam com sucesso os
vínculos de lealdade a uma casa monárquica, e as duas
culminaram com o estabelecimento de nações-estados, mas
entre o primeiro ato e o segundo tinha muito pouco em comum. Os
principais animadores de ambas revoltas estavam familiarizados com as
doutrinas racionalistas do iluminismo, mas o particular estilo dos
americanos os confinou a problemas políticos, principalmente ao
problema de estabelecer um mecanismo de estado que continuasse onde o
Rei Jorge tinha sido tirado. Muitos franceses foram mais longe;
propuseram o problema de reestruturar não só o estado
senão toda a sociedade e criticaram, não só o
vínculo do sujeito ao monarca , senão também o do
escravo ao amo, um vínculo que era sagrado para os americanos.
Ambos os dois grupos estavam indubitavelmente familiarizados com a
observação feita por Jean Jacques Rousseau a respeito de
que os seres humanos tinham nascido livres, ainda que por todas partes
estivessem ameaçados com correntes, foram os franceses os que
compreenderam profundamente estas correntes e fizeram um grande
esforço por rompê-las.
Influenciados
pelas doutrinas racionalistas, assim como Rousseau, os
revolucionários franceses tentaram aplicar a razão social
no meio humano, do mesmo modo que a razão natural, ou a
ciência, começava a aplicar-se, então, no meio
natural.
Rousseau tinha
trabalhado em sua escrivaninha; tinha tentado estabelecer a
justiça social por escrito, encarregando os assuntos humanos a
uma entidade que incorporava a vontade geral. Os revolucionários
se sublevaram para estabelecer uma justiça social não
só no papel, senão também no meio dos seres
humanos mobilizados e armados, muitos deles raivosos, mas a maioria
pobres.
A entidade
abstrata de Rousseau adquiriu a forma concreta de um Comitê de
Segurança Pública (ou Saúde Pública), uma
organização policial que se considerava a si mesma como
uma encarnação da vontade geral. Os virtuosos membros do
comitê, aplicaram conscientemente os fundamentos da razão
aos assuntos humanos. Consideraram-se a si mesmos como os
cirurgiões da nação. Introduziram suas
obsessões pessoais na sociedade através da lamina
decapitadora do estado.
A
aplicação da ciência ao meio natural adquiriu a
forma de terror sistemático. O instrumento da razão e da
justiça foi a guilhotina. O terror decapitou aos governantes e
depois se voltou contra os revolucionários.
O medo estimulou
uma reação que varreu o terror assim como a
Justiça. A energia mobilizada dos patriotas sedentos de sangue
foi enviado ao estrangeiro, para impor ali, pela força, o
iluminismo e expandir a nação em império. O
abastecimento dos exércitos nacionais foi bem mais lucrativo do
que jamais tinha sido seu homólogo dos exércitos feudais,
de maneira que os antigos revolucionários passaram a ser ricos e
poderosos membros da classe média, que se converteu então
na classe alta , a classe dirigente. Tanto o terror como as guerras
deixaram um legado fiel ao credo e à prática dos
nacionalismos mais recentes.
O legado da
Revolução Estadunidense teve um caráter
completamente diferente. Aos estadunidenses não lhes preocupava
muito a justiça e, pelo contrário, preocupava-lhes mais a
propriedade.
Os colonos
invasores das praias do Leste do continente do Norte não
precisavam em absoluto de Jorge de Hannover, Assim como a Lope de
Aguirre também não lhe tinha feito falta Felipe de
Habsburgo. Mais ainda, os ricos e poderosos dentre os colonos
precisavam os mecanismos do rei Jorge para proteger suas riquezas, mas
não para obtê-las. Se podiam organizar um aparelho
repressivo por sua conta, não precisariam do rei Jorge em
absoluto.
Confiados em sua
habilidade para criar este aparelho por sua própria conta, os
escravistas colonizadores, os especuladores, os exportadores e os
banqueiros declararam que os impostos e as leis do rei eram
intoleráveis. A lei mais intolerável foi a que proibia
incursões desautorizadas nas terras dos habitantes
aborígenes do continente; enquanto os conselheiros do rei tinham
postos seus olhos nas peles de animais conseguidas pelos
caçadores nativos, os olhos dos especuladores se centravam nas
terras dos caçadores nativos.
Diferente de
Aguirre, os colonizadores federados do Norte conseguiram estabelecer
seus próprios mecanismos repressivos, e o conseguiram agitando
uns mínimos desejos de justiça. Seu propósito era
derrubar o poder do rei, não o seu próprio. Antes de
confiar em excesso em seus poucos afortunados colonos predecessores ou
nos intrusos escondidos nos bosques, sem falar nos seus escravos, estes
revolucionários se confiaram em mercenários e na ajuda
indispensável do monarca Bourbon, que seria derrubado poucos
anos depois por outros revolucionários mais virtuosos.
Os colonizadores
norte-americanos romperam com os tradicionais laços feudais de
lealdade e obediência mas, diferentemente dos franceses,
só substituíram gradualmente estes laços
tradicionais por laços de patriotismo e nacionalismo. Ainda
não eram uma nação; sua relutante
mobilização das terras colonizadas tinha impedido
fusioná-los em uma, e toda essa população,
multilíngüe, multicultural e socialmente dividida resistiu
tal fusão. O novo aparelho repressivo não se provou nem
experimentou, e não exerceu nenhum poder na lealdade intacta de
toda essa população, que ainda não era
patriótica. Precisava-se algo mais. Os donos de escravos, os
quais tinham derrubado seu rei, temiam que seus escravos pudessem
derrubar seus amos; a insurreição do Haiti fez com que
seu medo fosse menos hipotético. E ainda que já
não temessem ser expulsos para o mar pelos habitantes
aborígenes do continente, os comerciantes e os especuladores
começaram a inquietar-se a respeito de sua capacidade para
adentrar no interior das novas terras.
Os invasores
estadunidenses recorreram a um instrumento que não era um
invento novo - como o foi a guilhotina - mas que, no entanto, foi
tão eficaz como aquela. Este instrumento seria chamado racismo
um pouco mais tarde e seria incorporado na prática nacionalista.
O racismo, como os produtos posteriores dos práticos
estadounidenses, era um princípio pragmático; seu
conteúdo não era importante; o que importava era que
obtinha resultados.
Seres humanos foram mobilizados em termos de seus mais baixo e mais superficial comum denominador e responderam.
Pessoas que
tinha abandonado seus povos e suas famílias, aqueles que estavam
esquecendo suas linguagens e perdendo suas culturas, aos que se tinha
desprovido inclusive de sociabilidade, foram manipulados ao considerar
a cor de sua pele como um substituto de tudo o que tinham perdido.Lhes
fizeram sentir orgulhosos de algo que não era sequer um bem
pessoal - como a linguagem - uma aquisição pessoal. Eles
foram fundidos numa nação de homens brancos. (As mulheres
brancas e as crianças existiam só como vítimas,
como provas da bestialidade da presa caçada). A extensão
desta deploração se revela por meio das
não-identidades que os homens brancos compartilhavam entre eles:
sangue branco, idéias brancas, e os membros na raça
branca. Os devedores, os intrusos, os empregados, como homens brancos,
tinham muitas coisas em comum com os banqueiros, os especuladores e os
donos de plantações; não tinham nada em comum com
os peles vermelhas, peles negras ou peles amarelas. Fusionados por tal
princípio, podiam ser mobilizados por ele, converter-se em
homens brancos fazedores da lei da rua, em “ exterminadores de
índios”.
Inicialmente, o
racismo tinha sido um dos diferentes métodos para mobilizar o
exército colonial, e contudo isto explodiu bem mais do que tinha
sido até então, não suplantou os outros
métodos e sim os complementou. As vítimas dos pioneiros
invasores eram descritas como infiéis, como pagões. Mas
os pioneiros, como os primeiros holandeses, eram em sua maioria
cristãos protestantes e consideravam o paganismo como algo para
ser castigado e não remediado. As vítimas continuaram
sendo vistas como selvagens, canibais e primitivos, mas estes termos,
deixaram também de ser diagnóstico das
condições que podiam ser remediadas, e tenderam a se
converter em sinônimos de não-branco, uma
condição que não podia ser remediada de modo
algum. O racismo foi a ideologia que casava perfeitamente com a
prática da escravatura e o extermínio.
A prática
do linchamento de rua, o alinhamento nas vítimas definidas como
inferiores, atraíram os matadores profissionais cuja humanidade
era nula e a quem careciam de qualquer noção de jogo
limpo. Mas este enfoque não agradou a todos. Os negociantes
estadounidenses, em parte homens oportunistas e, em parte, homens de
confiança sempre se mostraram otimistas. Para os numerosos
Santos Jorges com alguma noção de honra e sede de
heroísmo o inimigo era considerado como algo diferente; para
eles tinha nações tão ricas e poderosas como a sua
nos bosques depois das montanhas e nas praias dos Grandes Lagos.
Os que
participaram nas heróicas proezas dos espanhóis imperiais
encontraram impérios no México central e ao Norte dos
Andes. Os que festejaram aos heróis americanos nacionalistas
encontraram nações; transformaram resistências
desesperadas de populações anárquicas em
conspirações internacionais controladas por militares
como o general Pontiac e o general Tecumseh; povoaram os bosques com
formidáveis líderes nacionais, pessoal eficiente, e
exércitos de incontáveis tropas patrióticas;
projetaram seus próprios mecanismos repressivos no desconhecido;
viram uma cópia exata deles mesmos, com todas as cores
investidas, algo como um negativo fotográfico. De maneira que o
inimigo se converteu num igual em termos de estrutura, poder e
propósitos. A guerra contra tal inimigo não só era
um jogo limpo; era necessária, uma questão de vida ou
morte. Os demais atributos do inimigo - paganismo, selvageria,
canibalismo - fizeram mais urgentes as tarefas de
expropriação, escravatura e extermínio;
também as converteram em fatos heróicos.
O
repertório do programa nacionalista se encontrava mais ou menos
completo nesse momento. Esta afirmação pode assombrar ao
leitor que ainda não vê nenhuma “nação
real” em perspectiva. Os Estados Unidos eram uma
coleção de etnias multilíngües,
multirreligiosas e multiculturais, e a nação francesa
tinha extravasado suas fronteiras e tinha se convertido no
império napoleônico. O leitor poderia tentar aplicar uma
definição de nação como um
território organizado formado por pessoas que compartilham uma
linguagem, uma religião e alguns costumes em comum, ou pelo
menos, um destes três fatores. Tal definição,
clara, concisa e estática não é uma
descrição deste fenômeno senão uma apologia
do mesmo, sua justificativa. Tal fenômeno não foi uma
definição estática senão um processo
dinâmico. A linguagem, a religião e os costumes comuns
como o sangue branco dos colonizadores estadounidenses foram meros
pretextos, instrumentos para mobilizar os exércitos. A
culminação do processo não foi a
unificação dos fatores em comum senão o
esgotamento, a perda total da linguagem, a religião e os
costumes; os habitantes da nação falaram a linguagem do
capital, adoraram no altar do estado e confiaram seus costumes ao
permitido pela polícia nacional.
O nacionalismo
é o oposto ao imperialismo apenas no âmbito das
definições. Na prática, o nacionalismo foi a
metodologia que conduziu ao império do capital. O continuado
crescimento do capital, com freqüência denominado como
progresso material, desenvolvimento econômico ou
industrialização, foi a atividade principal das classes
médias, as chamadas burguesia, já que o que eles
possuíam era o capital, isto é a propriedade deles; as
classes altas possuíam estados.
A descoberta de
novos mundos de riqueza engrandeceu enormemente à classe
média , mas também a fez vulnerável. Os reis e
nobres, que inicialmente tinham celebrado as riquezas saqueadas no Novo
Mundo, ressentiram-se da perda de quase todos seus ganhos nas
mãos de seus mercadores de classe média. Não podia
continuar desta maneira. A riqueza não chegava de forma
utilizável, os mercadores proviam ao rei com coisas que ele
podia usar em intercâmbio pelas riquezas desapropriadas. Ainda
mais, os monarcas que se viam empobrecer enquanto seus mercadores e
comerciantes se enriqueciam, não duvidaram em atacar com seus
exércitos para saquear a seus ricos comerciantes. Como
conseqüência, a classe média sofria golpes constantes
sob o antigo regime, golpes a suas propriedades. O exército e a
polícia reais não eram protetores de confiança
para suas propriedades pelo que os poderosos mercadores, que já
tinham em suas mãos os negócios do império,
tomaram medidas para pôr fim a tanta instabilidade. Fizeram-se
cargo da política. Podiam contratar exércitos privados e
o fizeram com freqüência. Mas, tão cedo como os
instrumentos para mobilizar os exércitos nacionais e às
forças da polícia nacional apareceram ao horizonte, os
castigados homens de negócios recorreram a eles. A principal
virtude de uma força nacional armada é que esta garante
que um empregado patriota lutará junto com seu próprio
chefe contra o empregado do chefe inimigo.
A estabilidade
assegurada pelos mecanismos repressivos nacionais deu aos
proprietários algo como uma casa de inverno no qual seu capital
podia crescer, ampliar e multiplicar-se. O termo "crescimento" e seus
derivados provem do próprio vocabulário capitalista. Esta
gente visualiza a unidade de capital como um grão ou semente que
se investe em solo fértil. Na primavera vêem brotar uma
planta de cada semente. No verão colhem tantas sementes de cada
planta que, depois de pagar pelo terreno, pelo sol e pela chuva, ainda
têm mais sementes do que tinham no início do processo. No
ano seguinte seus campos são maiores e, gradualmente, toda a
terra se torna cultivável. Na realidade, os grãos
iniciais são dinheiro; o sol e a chuva são as energias
gastas pelos trabalhadores; as plantas são fábricas,
ateliês e minas; os frutos colhidos são produtos,
pedaços de um mundo processado; o excesso ou as sementes
adicionais, os benefícios, são ganhos que o capitalista
retém para si, no lugar de repartir entre os trabalhadores.
O processo em sua
totalidade consistiu em converter as substâncias naturais em
materiais vendáveis ou em produtos e em encarcerar os
trabalhadores assalariados nas plantas processadoras.
O casamento entre
o Capital e a Ciência foi o responsável pelo enorme salto
em que hoje vivemos. Os cientistas puros descobriram componentes entre
os quais podiam decompor o meio natural; os investidores colocaram suas
apostas nos diferentes métodos de decomposição; os
cientistas aplicados e os diretores viram que os salários dos
trabalhadores se levavam o projeto consigo. Os cientistas sociais
investigaram modos para fazer os trabalhadores menos humanos, mais
eficazes e mais parecidos a máquinas. Graças à
ciência, os capitalistas foram capazes de transformar grande
parte do meio natural num mundo processado, em artifício, e
reduzir a uma maioria de seres humanos em eficazes servidores deste
artifício.
O processo da
produção capitalista foi criticado e analisado por
diversos filósofos e poetas, mais notavelmente Karl Marx (1).
Suas críticas animaram - e ainda continuam a animar os
movimentos militantes socialistas. Mas Marx teve um significante erro e
muitos de seus discípulos, e os que não foram, edificaram
suas plataformas baseando-se nesse erro. Marx foi um defensor
entusiasta das lutas da burguesia para livrarem-se dos laços
feudais - quem não era entusiasta naqueles dias? Marx, que
observou que as idéias dominantes de uma sociedade proviam da
classe dominante, compartilhou muitas de suas idéias com a
enriquecida nova classe média. Foi um entusiasta do iluminismo,
do racionalismo, do progresso material. Foi Marx quem, com muito
acerto, apontou que cada vez que um trabalhador reproduzia o poder de
seu trabalho, cada minuto dedicado a uma tarefa atribuída,
aumentava o material e os mecanismos sociais que o desumanizaram. Mas,
ao mesmo tempo, defendeu com entusiasmo a aplicação da
ciência à produção.
Marx levou a cabo
uma complexa análise do processo de produção como
exploração do trabalho, mas fez superficiais e relutantes
comentários a respeito dos pré-requisitos para a
produção capitalista, sobre o capital inicial que fez
possível tal processo.2 Sem o capital inicial não teria
havido investimentos, nem produção, nem o grande salto
para adiante que teve depois. Este requisito foi analisado pelo
marxista russo soviético Preobrazhensky, quem tomou emprestados
diferentes pontos de vista da marxista polonesa Rosa Luxemburgo
até formular sua teoria da acumulação primitiva.3
Preobrazhensky entendia por primitiva a base do edifício
capitalista, seus alicerces, seus pré-requisitos. Todos eles
não podem emergir do processo capitalista em si mesmo se tal
processo não se acha em caminho. Deve provir, e assim o faz, do
processo de produção. Vem das colônias saqueadas.
Vem das populações desapropriadas e exterminadas das
colônias. Nos primeiros dias, quando não existiam as
colônias de além mar, o primeiro capital -requisito para a
produção capitalista- tinha sido espremido das
colônias internas, aos camponeses saqueados cujos campos lhes
eram arrebatados e as colheitas roubadas; também, dos
recém expulsos judeus e muçulmanos, a quem lhes foram
desapropriadas seus pertences.
A primitiva ou
preliminar acumulação de capital não é algo
que aconteceu antes, num passado distante e nunca mais depois. É
algo que continua acompanhando ao processo da produção
capitalista e é uma parte integrante do mesmo. O processo
descrito por Marx é o responsável pelos benefícios
regulares esperados; o processo descrito por Preobrazhensky é
responsável pelas ascensões, derrotas, e os grandes
progressos do futuro. Os benefícios regulares são
destruídos periodicamente por crises endêmicas ao sistema;
injeções novas de capital preliminar são a
única cura conhecida a estas crises. Sem uma continua primitiva
acumulação de capital, o processo de
produção teria se detido; cada crise tenderia a ser
permanente.
O genocídio
- o extermínio racional calculado dos seres humanos designados
como presas - não foi considerado uma aberração
enquanto acontece uma pacífica marcha do progresso. O
genocídio foi um requisito desse progresso. Essa é a
razão pela qual as forças armadas nacionais foram
indispensáveis para os detentores do capital. Essas
forças não só protegeram os donos do capital da
fúria insurrecionaria de seus próprios trabalhadores
assalariados. Essas forças, também, capturaram o
Santo Graal, a lanterna mágica, o capital preliminar, rompendo
as portas dos forasteiros resistentes ou não resistentes, ao
saqueá-los, deportá-los ou assassiná-los.
As façanhas
dos exércitos nacionais são as marcas da marcha do
progresso. Estes exércitos patriotas foram, e ainda o
são, a sétima maravilha do mundo. Neles, o lobo dorme ao
lado do cordeiro, a aranha ao lado da mosca. Para eles, os assalariados
foram as presas dos exploradores, os camponeses devedores a presa dos
credores, os tolos a presa dos oportunistas numa empresa estimulada,
não pelo amor senão pelos menosprezados, odiados das
hipotéticas fontes do capital primitivo e designados como
infiéis, selvagens, raças inferiores.
Comunidades
humanas tão diferentes em seus modos e crenças como os
pássaros o são em suas plumagens, foram invadidas,
despojadas e exterminadas até um ponto onde a
imaginação não pode atingir. Os vestidos e
utensílios das comunidades vencidas foram reunidos como
troféus e exibidos em museus como façanhas adicionais da
marcha do progresso; as crenças e costumes extinguidos se
converteram em objeto de curiosidade das diferentes ciências dos
invasores. Os campos, bosques e animais expropriados foram considerados
como riquezas, como capital preliminar, como uma
pré-condição do processo de produção
que tinha que mudar os campos em granjas, as árvores em madeira,
os animais em chapéus, os minerais em munições, os
sobreviventes humanos em mãos de obra barata. O genocídio
foi e, ainda o é, a condição preliminar, a pedra
fundamental e o trabalho principal das empresas industriais e
militares, dos meios ambientes industrializados, do mundo dos
escritórios e dos estacionamentos.
O nacionalismo se
acomodava tão perfeitamente a esta dupla missão -
domesticar os trabalhadores e roubar os estrangeiros - que agradou a
todo mundo, isto é, a quem aspirasse ou desejasse deter uma
porção de capital.
Durante o
século XIX, especialmente durante sua segunda metade, cada
proprietário de capital instável descobriu que tinha
raízes entre os camponeses que falavam sua língua materna
e adoravam aos deuses de seu pai. O fervor de tal nacionalista era
transparentemente cínico, já que ele é o homem que
perdeu suas raízes entre as relações de seus pais:
encontrou a salvação em suas poupanças, rezou por
seus investimentos e falou a linguagem dos custos do investimento. Mas
aprendeu, dos estadounidenses e dos franceses, que ainda que não
podia mobilizar a seus camponeses como empregados leais, clientes ou
compradores, podia mobiliza-los como leais colegas italianos, gregos ou
alemães, como leais católicos, ortodoxos ou protestantes.
As línguas, as religiões e os costumes se converteram em
materiais para a construção das
nações-estado.
Estes materiais
foram meios e não fins. O propósito das entidades
nacionais não era desenvolver as línguas, as
religiões ou os costumes, senão desenvolver economias
nacionais, transformar camponeses em trabalhadores, para fazer do
país um campo de minas e fábricas, para converter aos
estados dinásticos em empresas capitalistas. Sem o capital
não teria munições nem reservas, nem
exércitos nacionais nem nações.
A poupança
e os investimentos, a busca de mercados e o gasto de custos, as
obsessões da recente classe média racionalista,
converteram-se nas obsessões dominantes. Estas
obseções racionalistas se tornaram não só
soberanas senão também exclusivas. Aos indivíduos
que tinham outras obsessões, obsessões irracionais, eram
colocados em aos manicômios e asilos.
As
nações que usualmente tinham sido um dia
monoteístas, mas já não o eram; o último
deus ou deuses tinham perdido sua importância exceto como
materiais utilizáveis. As nações eram
mono-obsessivas e se o monoteísmo servia à
obsessão dominante, também seria mobilizado.
A Primeira Guerra
mundial marcou o final de uma fase do processo nacionalizador, a fase
que começou com as revoluções americana e
francesa, a fase que tinha sido anunciada muito antes com a
declaração de Aguirre e a revolta dos nobres holandeses.
As conflitivas demandas das antigas e das novas nações
constituídas foram, de fato, as causas dessa guerra. Alemanha,
Itália, e Japão assim como a Grécia, Sérvia
e a América Latina colonial tinham tomado a maioria dos
atributos de seus antecessores nacionalistas, tinham-se convertido em
impérios nacionais, em monarquias e repúblicas, e os mais
poderosos dos recém chegados aspiravam a conseguir o atributo do
que careciam, o mais importante: o império colonial. Durante
essa guerra todos os componentes mobilizáveis das duas dinastias
imperiais reinantes, os Otomanos e os Habsburgo, constituíram-se
em nações. Quando os burgueses com diferentes
línguas e religiões, como os turcos e os armênios,
reclamaram o mesmo território, os fracos foram tratados como os
chamados índios americanos; foram exterminados. A Soberania
Nacional e o genocídio foram - e ainda são -
conseqüências.
Uma mesma
linguagem e uma mesma religião parecem ser os resultados da
nacionalidade, mas só como uma ilusão ótica. Como
materiais de unificação, usaram as línguas e as
religiões quando serviam a seus propósitos e quando
não serviam eram descartados. Nem a Suíça
multilíngüe nem a Iugoslávia multirreligiosa foram
suprimidas da família de nações. A forma dos
narizes e a cor do cabelo podiam ser usadas para mobilizar patriotas -
e foram mais tarde. As heranças compartilhadas, as raízes
e os traços comuns tinham que satisfazer um único
critério: o da razão pragmática ao estilo
estadounidense: Não tinha dado bons resultados? Tudo o que dava
bons resultados era usado. Os traços compartilhados eram
importantes não por seu conteúdo histórico,
filosófico ou cultural, senão porque eram úteis
para organizar uma polícia que protegesse a propriedade nacional
e para mobilizar uma armada que saqueasse as colônias.
Uma vez
constituída a nação, os seres humanos que viviam
em território nacional, mas que não possuíam os
traços nacionais, podiam ser transformados em colônias
internas, principalmente em fontes de capital preliminar. Sem este,
nenhuma nação poderia ser grande e as
nações que aspiravam a grandeza, mas que careciam das
colônias adequadas de além mar, poderiam solucionar isto
com o saque, o extermínio e a expropriação de seus
compatriotas que não possuíssem aqueles traços
nacionais.
O estabelecimento
das nações-estado foi recebido com eufórico
entusiasmo pelos poetas, bem como pelos camponeses que pensaram que
suas musas ou seus deuses tinham descido a terra. Os principais estraga
prazeres entre os que agitavam bandeiras e os que lançavam
confete voadores eram os governantes formais, os colonizados,e os dos
discípulos de Karl Marx.
Os derrotados e os
colonizados não se mostravam entusiasmados por razões
óbvias. Os discípulos de Marx não eram entusiastas
porque tinham aprendido de seu mestre que a libertação
nacional implicava a exploração nacional; que o governo
nacional era o comitê executivo da classe capitalista nacional,
que a nação não tinha mais do que correntes para
os trabalhadores. Estas estratégias para os trabalhadores, quem
em si mesmos não eram trabalhadores senão tão
burgueses como os dirigentes capitalistas, proclamaram que os
trabalhadores não tinham país e se organizaram numa
Internacional. Esta se fragmentou em três, e cada uma delas
avançou rapidamente no mesmo erro em que tinha caído Marx.
A Primeira
Internacional foi conduzida pelo que uma vez fora tradutor de Marx e
seu então antagonista Bakunin, um rebelde que tinha sido um
fervente nacionalista até que ouviu a respeito da
exploração com Marx. Bakunin e seus colegas, rebeldes
contra qualquer autoridade, rebelaram-se também contra a
autoridade de Marx; suspeitaram que Marx tentava converter a
Internacional num estado tão repressivo como o feudal e o
nacional combinados. Bakunin e seus seguidores não eram
ambíguos com respeito à rejeição de
qualquer estado, mas sim o eram a respeito da empresa capitalista.
Ainda mais do que Marx, glorificavam a ciência, celebravam o
progresso material e apoiavam a industrialização. Como
rebeldes, consideravam que cada luta era uma boa luta , mas a melhor de
todas era a luta contra os últimos inimigos da burguesia, contra
os senhores feudais e a Igreja Católica. De maneira que a
Internacional de Bakunin floresceu em lugares como a Espanha, onde a
burguesia não tinha completado sua luta pela independência
e , no entanto, tinha-se aliado com os barões feudais e com a
igreja para proteger-se dos trabalhadores insurgentes e dos camponeses.
Os bakunistas brigaram por completar a revolução burguesa
sem e contra a burguesia. Denominaram-se a si mesmos anarquistas e
desdenharam qualquer estado, mas não começaram a explicar
como devia sustentar a indústria preliminar ou a
subseqüente, o progresso e a ciência, principalmente o
capital, sem exércitos nem polícia. Nunca foi dado a eles
a oportunidade real para resolver suas contradições na
prática e até o dia de hoje não conseguiram
resolvê-las. Os seguidores de Bakunin, nem sequer se deram conta
de que existe uma contradição entre anarquia e
indústria.
A Segunda
Internacional, menos rebelde do que a primeira, pactuou em seguida com
o capital bem como com o estado. Solidamente entrincheirados no engano
de Marx, os membros desta organização não se
emaranharam em nenhuma contradição bakunista. Para eles
era óbvio que a exploração e o saque eram
condições necessárias para o progresso material e
se reconciliaram, na realidade, com o que não tinha
solução. Tudo o que exigiam era uma melhor partilha dos
benefícios entre os trabalhadores e se oficializaram na
burocracia política por si mesmos, como porta-vozes dos
trabalhadores. Como os bons unionistas que os precederam e seguiram, os
professores socialistas estavam incomodados pelo “problema
colonial”, mas seu mal-estar, como o de Felipe de Habsburgo,
simplesmente deu a eles má consciência. Com o tempo os
imperiais alemães socialistas, os Reais dinamarqueses
socialistas e os franceses republicanos socialistas cessaram inclusive
de ser internacionalistas.
A Terça
Internacional não só se alinhou com o capital e o estado,
mas também os fez seu alvo final. Esta Internacional não
esteve formada por rebeldes ou dissidentes intelectuais; foi criada por
um estado, o estado russo, depois que o partido bolchevique se
instalasse nos despachos estatais. O papel principal desta
Internacional foi proclamar as façanhas do renovado estado
russo, de seu partido dirigente, e as do fundador do partido: um homem
que se fazia chamar Lenin. As façanhas desse partido e de seu
fundador foram sem dúvida decisivas, mas seus emissários
fizeram o seu melhor para ocultar o que foi mais grave sobre eles.
A Primeira Guerra
Mundial tinha deixado dois vastos impérios em um dilema. O
império celestial chinês, o estado mais antigo do mundo, e
o império dos czares, uma operação bem mais
recente; ambos ficaram suspendidos entre a possibilidade de tornar-se
eles mesmos nações-estado e a de decompor-se em unidades
menores, como tinham feito seus contraponentes: os Otomanos e os
Habsburgo.
Lenin resolveu
esse dilema para Rússia. como foi possível? Marx tinha
observado que um indivíduo só não podia mudar as
circunstâncias; o que podia fazer era valer-se daquelas.
Provavelmente Marx tinha razão. A façanha de Lenin
não consistiu em mudar as circunstâncias, senão em
servir-se delas de uma maneira extraordinária. Esta
façanha foi monumental quanto a seu oportunismo.
Lenin foi um
burguês russo que detestava a debilidade e a inaptidão da
burguesia russa.4 Um entusiasta do desenvolvimento capitalista,
um ardente admirador do estilo estadounidense de progresso, ele
não se aliou com aqueles que detestava, mas sim com seus
inimigos, os discípulos anticapitalistas de Marx. Ele mesmo
utilizou o engano de Marx para transformar sua crítica do
processo de produção capitalista num manual para
desenvolver o capital, uma guia de “como fazer”. Os estudos
de Marx sobre a exploração e o empobrecimento se
converteram em comida para os famintos, uma cornucópia, um
achado virtual de plenitude. Os negociantes estadounidenses já
tinham comercializado a urina como agua mineral, mas nenhum
estadounidense de confiança tinha dirigido uma inversão
de semelhante magnitude.
As
circunstâncias não mudaram. Cada degrau da inversão
foi conduzido com circunstâncias utilizáveis, com
métodos acessíveis. Os camponeses russos não
podiam ser mobilizados em termos de ser russos, ou a ortodoxia, ou a
brancura de sua pele; mas o podiam ser em termos de sua
exploração, sua opressão, seus períodos de
sofrimento sob o despotismo dos czares. A opressão e a
exploração se converteram em materiais úteis. Os
longos sofrimentos sob os czares foram usados do mesmo modo e com o
mesmo propósito que os estadounidenses usaram o couro cabeludo
das mulheres brancas e das crianças; foram usados para organizar
as pessoas em unidades de luta, em embriões do exército
nacional e na polícia nacional.
A
apresentação do ditador e o comitê central
como uma ditadura do proletariado liberto parecia ser algo novo, mesmo
que a novidade seja apenas nas palavras que foram usadas. Isto
foi algo tão antigo como os faraós do Egito e os chefes
da Mesopotânia, que foram eleitos por Deus para governar o seu
povo e que encarnavam seu povo em seus diálogos com seu Deus.
Isto foi uma tentativa experimentada e verificada de mudança de
dirigentes. Mesmo se os precedentes mais antigos foram esquecidos
temporariamente, um precedente mais recente tinha sido produzido pelo
Comitê Francês de Saúde Pública, que
apresentou a si mesmo como encarnação da vontade geral da
nação.
A meta, o
comunismo, o derrocamento e a supressão do capitalismo, pareciam
novos, pareciam ser uma mudança das circunstâncias. Mas
só o discurso era novo. O propósito do ditador do
proletariado se fez ao estilo do progresso estadounidense:
desenvolvimento capitalista, eletrificação, rápido
transporte das massas, ciência, a industrialização
do meio ambiente natural. Sua meta foi o capitalismo que a débil
e despreparada burguesia russa não tinha conseguido desenvolver.
Com O Capital de Marx como guia e luz, o ditador e seu partido podiam
desenvolver o capitalismo na Rússia; estes serviriam como
substitutos da burguesia e usariam o poder do estado não
só para vigiar o processo, senão também para
organizá-lo e dirigí-lo.
Lenin não
viveu o suficiente para demonstrar sua virtuosidade como diretor geral
do capital russo mas, seu sucessor, Stalin demonstrou amplamente os
poderes da máquina do fundador. O primeiro degrau foi a
primitiva acumulação de capital. Se Marx não tinha
sido muito claro neste ponto, Preobrazhensky tinha sido.
Preobrazhenskye foi preso,mesmo que suas observações dos
métodos testado e verificados para tentar acumular capital
preliminar tenha sido aplicado vastamente na Rússia. O capital
preliminar dos ingleses, americanos, belgas e de outros capitalistas
vinham das colônias saqueadas de além mar. A Rússia
não tinha colônias. Mas esta carência não era
nenhum obstáculo. Toda Rússia ficou transformada numa
colônia.
As primeiras
fontes de capital preliminar foram os Kulaks, os camponeses que tinham
algo de valor para saquear. Este achado teve tanto sucesso que se
aplicou aos camponeses restantes com a racional expectativa de que
pequenas quantidades expropriadas de muitas pessoas somariam grandes
lucros.
Os camponeses
não foram os únicos colonizados. A antiga classe
dirigente tinha sido desapropriada de todas suas riquezas e
propriedades, e ainda se encontraram outras fontes de capital
preliminar. Com a totalidade do poder estatal concentrado em suas
mãos, os ditadores, muito cedo, descobriram que podiam
manufaturar fontes de acumulação primitiva.
Empreendedores de sucesso, trabalhadores e camponeses insatisfeitos
militantes de organizações concorrentes, e inclusive os
membros desiludidos do partido, foram designados como
contra-revolucionários, foram presos, desapropriados e enviados
aos campos de trabalho. Todas as deportações, as
execuções em massa e as expropriações dos
primeiros colonizadores se deram outra vez, de novo, na Rússia.
Os primeiros
colonizadores, sendo pioneiros, tinham superado o erro e a tentativa.
Os ditadores russos não tiveram que superar nem o erro nem a
tentativa. Em sua época, todos os métodos para obter
capital preliminar tinham sidos verificados e comprovados, de modo que
puderam aplicar-se cientificamente. O capital russo se desenvolveu numa
atmosfera totalmente controlada, numa estufa. Cada nível, cada
variável, eram controlados pela polícia nacional.
Funções que tinham sido deixadas a esmo ou a outros
corpos em ambientes menos controlados caíram ante a
polícia da estufa russa. O fato de que os colonizados estavam no
interior e não no exterior , e portanto, sujeitos à
detenção e não à conquista, incrementou
mais ainda o papel e o tamanho da polícia. Com o tempo, a
onipotente e onipresente polícia se converteu na visível
emanação e a encarnação do proletariado, e
o comunismo se converteu no sinônimo de uma
organização policial total e de controle.
As expectativas de
Lenin não foram cumpridas em sua totalidade pela estufa russa. A
polícia-como-capitalista conseguiu esperanças de tentar
capital preliminar dos desapropriados contra-revolucionários,
mas não o fez tão bem como dirigir o processo de
produção capitalista. Pode ser que seja um pouco cedo
para falar com segurança, mas até a data esta
polícia burocrática foi pelo menos tão
despreparada em seu papel como a burguesia que Lenin tinha atacado;
suas aptidões para descobrir cada dia novas fontes de capital
preliminar parece ser a única razão que a manteve em
circulação.
O atrativo deste
mecanismo também não se correspondeu com o nível
de expectativas de Lenin. O aparelho da polícia leninista
não agradou nem aos empresários nem aos políticos
estabelecidos; não pôde recomendar-se como método
superior para dirigir o processo de produção. Agradou, no
entanto, a uma classe social diferente, uma classe que vou tentar
descrever e se recomendou a si mesmo para esta classe, em primeiro
lugar como um método para atingir poder nacional e, em segundo
lugar, como método de acumulação primitiva de
capital.
Os herdeiros de
Lenin e de Stalin não foram realmente guardas pretorianos,
também não foram supervisores do poder econômico e
político em nome e a benefício de um monarca
supérfluo; foram pretorianos instruídos, procuradores de
poder econômico e político que se desesperaram ao
não poderem atingir nem sequer níveis de poder
intermédio. O modelo leninista lhes ofereceu a essas gentes a
possibilidade de atingir esses níveis intermédias de
poder inclusive dentro do mesmo palácio.
Os herdeiros de
Lenin foram advogados e oficiais de pouca categoria: Mussolini, Mao tse
tung e Hitler, gentes que como o mesmo Lenin, culparam os seus
inexperientes e débeis burgueses por não terem
estabelecido nações poderosas.
(Não incluo
aos sionistas entre os herdeiros de Lenin porque estes pertencem a uma
geração posterior. Foram os contemporâneos de Lenin
que, possivelmente de forma independente, descobriram o poder da
perseguição e o sofrimento como materiais úteis
para a mobilização do exército nacional e da
polícia. Os sionistas fizeram suas próprias
contribuições. Seu tratamento de uma
população religiosa dispersa como nação,
sua imposição da nação-estado capitalista
como fim e meio de existir da população, e sua
redução da herança religiosa a uma herança
racial, contribuíram elementos significativos à
metodologia nacionalista, e tiveram funestas conseqüências
quando foram aplicadas à população judia - nem
todos era sionistas , por outra população reunida sob o
nome de “raça alemã”.)
Mussolini, Mao Tse
tung e Hitler atravessaram a cortina de slogans e tomaram as
façanhas de Lenin e Stalin pelo que eram: métodos
exitosos de atingir e manter o poder estatal. Os três aplicaram
as essências desta metodologia. O primeiro degrau foi contatar
com os estudiosos do poder e formar um núcleo de
organização policial, um mecanismo, chamado, depois de
Lenin, Partido. O próximo passo foi recrutar as massas de base,
tropas disponíveis e provedores de tropas. O terceiro passo foi
confiscar o aparelho estatal, instalar um teórico nos despachos
do Duce, Dirigente ou Fuhrer, distribuir a polícia e as
funções de governo entre a elite e pôr às
massas de base pra trabalhar. O quarto passo foi assegurar o capital
preliminar necessário para consertar ou organizar uma complexa
indústria militar capaz de manter aos líderes nacionais e
a seus oficiais, a polícia, o exército e aos dirigentes
industriais; sem esse capital não podia ter armas, nem poder,
nem nação.
Os herdeiros de
Lenin e Stalin levaram mais longe esta metodologia, em seus impulsos,
minimizando a exploração capitalista e concentrando-se na
opressão nacional. O falar de exploração já
não servia a seus propósitos, e se tinha convertido em
algo incomodo já que era totalmente óbvio, especialmente
para os assalariados, que os êxitosos revolucionários
não só não tinham terminado com o trabalho
assalariado senão que o tinham estendido e piorado.
Como eram
tão pragmáticos como os empresários americanos, os
novos revolucionários não falaram de
libertação dos assalariados senão de
libertação nacional.5 Este tipo de
libertação não era um sonho de românticos
utópicos; foi, precisamente, o que era possível naquele
mundo existente; um que apenas tinha que fazer era servir-se das
circunstâncias que já existiam para fazer possível
o sonho. A libertação nacional consistiu na
libertação do dirigente nacional e da polícia
nacional das correntes da ineficiência; a investida do dirigente
e o estabelecimento da polícia não eram sonhos
senão os componentes de uma estratégia comprovada e
experimentada: uma ciência.
Os partidos
fascistas e nacional-socialistas foram os primeiros em demonstrar que a
estratégia tinha resultados e que as façanhas do partido
bolchevique podiam repetir-se. O dirigente nacional e seus cargos se
instalaram no poder e trataram de obter o capital preliminar
necessário para a grandeza de suas nações. Os
fascistas se concentraram nas últimas regiões sem invadir
da África, e adentraram ali como em outras épocas os
primeiros industriais tinham adentrado nos impérios coloniais. A
meta dos nacional socialistas foram os judeus, gentes que tinham sido
membros da Alemanha unificada do mesmo modo que outros alemães;
utilizaram-nos como uma fonte de acumulação de capital
primário, já que muitos dos judeus, como a maioria dos
camponeses de Stalin, tinham posses dignas de ser saqueadas.
Os sionistas
tinham precedido aos nacional-socialistas em reduzir a religião
a uma raça e os nacional-socialistas podiam olhar para
atrás, aos pioneiros americanos quanto aos modos de usar o
instrumento do racismo. A elite de Hitler somente precisou traduzir o
corpus da busca racista americana para poder equipar seus institutos
científicos com enormes bibliotecas. Os nacional-socialistas
trataram aos judeus da mesma forma que os americanos tinham tratado uns
séculos antes à população indígena
América do Norte, exceto que os nacional-socialistas aplicaram
uma tecnologia bem mais poderosa na tarefa de deportar, desapropriar e
exterminar os seres humanos. Ainda que neste último não
fossem os inovadores já que meramente se serviram das
circunstâncias que tinham a seu alcance.
Os fascistas e
nacional-socialistas se uniram aos construtores do império
japonês, quem temiam que o descomposto império celestial
pudesse converter-se em capital preliminar para os russos ou para os
revolucionários industriais chineses. Formado um eixo, os
três organizaram a conversão dos continentes do mundo em
fontes de acumulação primitiva de capital. As demais
nações não os molestaram até que
começaram a invadir as colônias e os países dos
poderes capitalistas estabelecidos. A redução dos
já estabelecidos capitalistas na presas colonizadas se podia
praticar internamente onde era legal, já que os dirigentes da
nação faziam suas próprias leis - e já
tinham posto em prática internamente pelos leninistas e
stalinistas. Mas tal prática poderia ter atingido uma
mudança de circunstâncias e não se podia carregar
ao estrangeiro sem provocar uma guerra mundial. Os poderes do eixo se
passaram do limite e perderam.
Depois da guerra,
muita gente razoável falaria dos propósitos do eixo como
irracionais e do Hitler como de um lunático. Também, a
mesma gente razoável considerou a George Washginton e a Thomas
Jefferson como sãos e racionais inclusive ainda que estes homens
visionaram e começaram a conquista de um vasto continente, o
extermínio e a deportação dos habitantes deste
continente, numa época na qual esse projeto era menos
realizável que o projeto do eixo.6 É verdade que as
tecnologias, bem como as ciências biológicas,
químicas e sociais aplicadas por Washington e Jefferson foram
muito diferentes das aplicadas pelos nacional-socialistas. Mas se o
conhecimento é poder, se era racional para os primeiros
pioneiros mutilar e matar com pólvora na época das
carroças a cavalos, por que ia ser irracional para os
nacional-socialistas o matar e suprimir com explosivos, gases e agentes
químicos na época dos submarinos, dos aviões e das
auto-estradas?
Os nazistas foram,
se foram algo, mais científicos em sua orientação
do que os estadounidenses. Em seu tempo foram um sinônimo de
eficácia científica para a maioria das pessoas. Tinham
arquivos para tudo, tabulavam e contra-tabulavam seus achados,
publicavam suas tabulações em jornais científicos.
Entre eles, nem sequer o racismo era propriedade de agitadores, mas sim
dos bem abastecidos institutos.
Muitas pessoas
razoáveis parecem adequar a loucura com o fracasso. Não
seria a primeira vez. Muitos tacharam a Napoleão de
lunático quando estava em prisão ou no exílio, mas
quando Napoleão ressurgiu como imperador, as mesmas pessoas
falavam dele com respeito, inclusive com reverência. A
prisão e o exílio não só são vistos
como remédio para os lunáticos, senão
também como sintomas. O fracasso é a loucura.
Mao Tse Tung, o
terceiro pioneiro nacional-socialista (ou nacional-comunista; a segunda
palavra já não importa dado que não é
senão uma relíquia histórica; a expressão
“asa esquerda fascista” serve do mesmo modo, mas lhe
dá menos significado do que as expressões nacionalistas)
conseguiu para o império chinês o que Lenin tinha
conseguido para o império dos czares. O aparelho
burocrático mais antigo do mundo não se decompôs em
unidades menores nem em colônias de outros industriais; emergiu,
muito mudado, como a República do Povo, como um estandarte das
nações oprimidas.
Seu diretor e seus
servidores públicos seguiram os passos de uma longa linha de
antecessores e transformaram o império celeste numa enorme fonte
de capital preliminar, completando-a com purgamento,
perseguições e os conseqüentes horrores que seguiram.
O seguinte passo,
a obtenção do processo capitalista de
produção, cimentou-se no modelo russo, principalmente com
a polícia nacional. Mas isto não funcionou melhor do
que tinha feito na Rússia. Aparentemente, a
função empresarial tem que se pôr em mãos de
homens de confiança ou em oportunistas capazes de atrair a
outras pessoas e a polícia, em geral, não inspira
demasiada confiança. Mas isto era menos importante para os
maoístas do que tinha sido para os leninistas. O processo de
produção capitalista segue sendo importante, ao menos
tão importante como os impulsos regularizados de
acumulação primitiva, dado que sem o capital não
há poder nem nação. Mas os maoístas fizeram
poucas e cada vez menos reclamações de seu modelo como um
método superior de industrialização; neste ponto
são mais modestos que os russos e ficam menos decepcionados com
sua polícia industrial.
O modelo
maoísta se oferece aos guardas de segurança, aos
estudantes e ao mundo,como uma metodologia de poder comprovada e
experimentada, como uma estratégia científica de
libertação nacional. Conhecida, em geral, como “o
pensamento de Mao-tse Tung”, esta ciência oferece aos
aspirantes a dirigentes e a altos cargos o projeto de um poder sem
precedentes entre os seres vivos, atividades humanas e inclusive
idéias. 7 O papa e os sacerdotes da Igreja Católica, com
todas as suas inquisições e crenças, nunca tiveram
tal poder, não porque o tivessem recusado senão porque
careciam dos instrumentos que a tecnologia moderna e a ciência
tinham feito possíveis.
A
libertação da nação é o
último passo na eliminação dos parasitas. O
capitalismo já tinha clareado em outras ocasiões a
natureza dos parasitas e reduzido grande parte da natureza a
matérias primas para indústrias processadoras. O
nacional-socialismo moderno ou o social-nacionalismo defende, dessa
forma, o propósito de eliminar aos parasitas da sociedade. Os
parasitas humanos são com freqüência fontes de
capital preliminar, mas o capital não é sempre material;
pode ser também espiritual ou cultural. Os costumes, os mitos, a
poesia e a música das pessoas se liquidam facilmente; parte da
música e dos costumes da última “cultura
popular” reaparecem seguidamente, processadas e empacotadas como
elementos de um espetáculo nacional, como
decorações dos impulsos de acumulação
nacional; os costumes e os mitos se convertem em matérias primas
para ser processadas por uma ou variadas das ciências humanas.
Inclusive se elimina o ressentimento inútil dos assalariados ao
seu trabalho alienado. Quando a nação é libertada,
o trabalho assalariado deixa de ser uma carga pesada e se converte numa
obrigação nacional, para ser levada a cabo com alegria.
Os habitantes de uma nação completamente libertada
lêem a obra de Orwell 1984, como um estudo antropológico
ou uma descrição de uma era anterior.
Não
é mais possível satirizar este estado de coisas. Toda
sátira corre o risco de converter-se numa Bíblia para
outra frente de libertação nacional.8 Todo
satírico corre o risco de converter-se no fundador de uma
religião nova, Buda, Zaratustra, Jesus, Maomé ou Marx.
Toda exposição das seqüelas de um sistema dominante,
toda crítica dos resultados de um sistema, converte-se em
forragem para os cavalos dos libertadores, materiais disponíveis
para os fabricantes de armas. O pensamento de Mao Tse Tung, em suas
numerosas versões e revisões é uma ciência
completa, como também é uma tecnologia completa; é
física social e também é metafísica
cósmica. O comitê francês de saúde nacional
exigiu encarnar, unicamente, a vontade geral da nação
francesa. As revisões do pensamento de Mao Tse Tung reclamavam a
encarnação da vontade geral dos oprimidos do mundo
inteiro.
São
necessárias as constantes revisões deste pensamento
porque suas formulações iniciais não foram
aplicáveis a nenhuma das populações colonizadas da
terra. Nenhum dos povos colonizados compartilhava a herança
chinesa de ter agüentado um aparelho estatal nos últimos
dois mil anos. Muito poucos dos oprimidos do mundo tinham
possuído nenhum dos atributos de uma nação num
passado recente ou distante. O pensamento de Mao tinha que ser adaptado
a gentes cujos antepassados tinham vivido sem dirigentes nacionais ,
sem exércitos ou sem polícia, sem processos de
produção capitalista e portanto, sem a necessidade de
capital preliminar.
Estas
revisões se levaram a cabo por meio do enriquecimento do
pensamento inicial com empréstimos de Mussolini, Hitler, e do
estado sionista de Israel. A teoria de Mussolini da
culminação de uma nação em estado foi a
meta central. Grupos de pessoas, grandes ou pequenos, industriais ou
não, concentrados ou dispersos, foram vistos como
nações, não em termos de seu passado senão
em termos de sua aura e seu potencial, um potencial incorporado em suas
frentes de libertação nacionais. O tratamento de Hitler
(e o dos sionistas) da nação como entidade racial foi
outra meta central. A estrutura foi recrutada entre pessoas desprovidas
dos costumes e das relações de seus antepassados e
conseqüentemente, os libertadores não se distinguia dos
opressores, em termos de linguagem, crenças, costumes e armas; o
único material disponível que unia entre eles e a suas
massas de base era o material que tinha sujeitado os empregados brancos
a seus chefes brancos na fronteira estadounidense; o salto racial lhes
deu identidade aos que não a tinham, relações a
quem não tinham nenhuma, comunidade aos que a tinham perdido;
foi o último lucro dos despossuidos culturalmente.
Uma vez o
pensamento revisado, podia-se aplicar aos africanos assim como aos
navajos, apaches e aos palestinos.9 Os empréstimos de Mussolini,
Hitler e os sionistas são judiciosamente encobertos, porque
Mussolini e Hitler fracassaram em sua tentativa de manter o poder
conseguido e porque os brilhantes sionistas converteram a seu estado na
polícia mundial contra a todos as demais frentes de
libertação nacional. A Lenin, Stalin e Mao Tse Tung
deve se conceder ainda mais crédito do que merecem.
Estes modelos
revisados, universalmente aplicáveis, funcionam mais ou menos
como seus originais, ainda que mais sutilmente; a
libertação nacional se converteu numa ciência
aplicada; seu aparelho se comprovou freqüentemente; as numerosas
relações originais foram desde então atadas e bem
atadas; tudo isto se precisa para fazer que seu dispositivo funcione
com o seu motorista, com seu canal de transmissão, e
combustível.
O motorista,
é claro, é o próprio teórico ou seu
discípulo mais próximo. O canal de transmissão
são os encarregados gerais, a organização -
também chamada Partido - ou o partido comunista. Este partido
comunista com um "c" pequeno é exatamente o que é
popularmente entendido. É o núcleo da
organização policial que leva a cabo o purgamento e que
será auto purgado tão cedo uma vez que seu líder
se converte no líder nacional e precisa revisar sua ideologia
enquanto se adapta a família das nações ou, pelo
menos, a família dos banqueiros, aos provedores de
munições e aos investidores. E o combustível: a
nação oprimida, as massas sofridas, o povo libertado,
são e continuarão sendo, seu combustível.
O líder e
seus diretores gerais não provem do estrangeiro; não
são agitadores forasteiros. São produtos integrais do
processo de produção capitalista. Este processo de
produção veio acompanhando, invariavelmente, do racismo.
O racismo não é um componente necessário da
produção; mas o racismo, de certa forma, foi um
componente necessário do processo de acumulação
primitiva de capital e quase sempre derivou no processo de
produção.
As
nações industrializadas obtiveram o capital preliminar
mediante a expropriação, a deportação, a
perseguição e a segregação, se não
foi sempre com o extermínio dos povos designados como
legítimas presas. Romperam-se laços familiares,
destruíram-se as paisagens, as orientações
culturais e costumes foram eliminados.
Os descendentes e
sobreviventes de tais despojos são afortunados se conservam suas
relíquias mais elementares, os traços mais sutis das
culturas de seus antepassados; a alguns destes descendentes nem
sequer ficam traços; encontram-se totalmente desprovidos;
vão ao trabalho; mais adiante engrandecem o mecanismo que
destruiu a cultura de seus ancestrais. E no mundo do trabalho
são levados para as margens, aos trabalhos mais
desagradáveis e pior pagos. Isto os deixam loucos. Um
empacotador de supermercado, por exemplo, sabe mais sobre demandas e
depósitos do que o próprio encarregado; saber que o
racismo é a única razão pela qual ele não
é o encarregado e este não é o empacotador. Um
guarda de segurança sabe que o racismo é a única
razão pela qual não é chefe de polícia.
É entre as pessoas que perderam suas raízes, entre os que
sonham para si mesmos os postos de encarregados de supermercado e
chefes de polícia, onde a frente de libertação
nacional encontra suas próprias raízes; entre eles
é onde se formam o líder e seus generais.
O nacionalismo
continua atraindo aos despossuídos porque outros projetos se
apresentam como vazios. A cultura dos ancestrais foi destruída,
e segundo os postulados pragmáticos foi um fracasso; os
únicos antepassados sobreviventes foram os que se acomodaram ao
sistema dos invasores, ainda que sobreviveram nos limites dos
montões de lixo. As diferentes utopias dos poetas, dos
sonhadores, e as numerosas mitologias do proletariado fracassaram
também; não se demonstraram como válidas na
prática; não foram mais do que quimeras, sonhos rompidos,
castelos no ar, e o proletariado atual é tão racista como
seus chefes e a polícia.
O empacotador e o
guarda de segurança perderam contatos com a ancestral cultura;
os sonhos e as utopias já não lhes interessam; de fato,
encontram-se rejeitados pelo pratico homem de negócios, se
tornam desprezados para os poetas e sonhadores. O nacionalismo lhes
oferece algo concreto, algo que se verificou e foi comprovado e se sabe
que funciona. Não há razão terrenas para os
descendentes dos perseguidos continuam sendo perseguidos quando o
nacionalismo lhes oferece a possibilidade de converter-se em
perseguidores. Familiares próximos e longínquos das
vítimas podem converter-se numa nação-estado
racista; podem, assim mesmo, empurrar a outras pessoas a campos de
concentração, controlar as vontades de outras pessoas,
perpetuar lutas genocidas contra eles, obter capital preliminar ao
desapropriá-los. E se os “familiares raciais” das
vítimas de Hitler podem fazê-lo, do mesmo modo o
farão os familiares longínquos das vítimas de
Washington, Jackson, Reagan ou Begin.
Toda
população oprimida pode converter-se numa
nação, um negativo fotográfico da
nação opressora, um lugar onde o empacotador seja o
encarregado do supermercado, onde a polícia de segurança
seja o chefe de polícia. Aplicando a estratégia correta,
cada guarda de segurança pode seguir o precedente do antigo
guarda pretoriano da Roma imperial. O policial de segurança de
um complexo mineiro estrangeiro pode declará-lo, ele mesmo, como
república, liberar a sua gente, e seguir com sua
libertação até que não fique nada mais que
rezar pelo fim da libertação. Inclusive antes de tomar o
poder , um grupo pode denominar-se a si mesma Frente e oferecer para as
pobres pessoas que sofrem impostos elevados e forte vigilância,
um pouco do que elas carecem: uma organização coletora de
impostos e uns capatazes, principalmente, camponeses e polícia,
de entre sua própria gente. Deste modo o povo pode ser libertado
das impressões de seus antepassados vítimizados; todas as
relíquias que ainda sobrevivem desde os tempos
pré-industriais e das culturas não capitalistas podem,
por fim, serem permanentemente exterminadas.
É
errônea a idéia de que um entendimento do
genocídio, ou a memória do holocausto podem unicamente
levar ao povo a desmantelar o sistema. O contínuo apelo do
Nacionalismo sugere que o oposto é mais verdadeiro, tendo em
conta que o entendimento do genocídio levou o povo a mobilizar
armas genocidas, que a memória do holocausto levou aos povos a
cometer holocaustos. Os poetas sensíveis que recordaram a perda,
os pesquisadores que a documentaram foram como os cientistas puros que
descobriram a estrutura do átomo. Os cientistas aplicados usaram
a descoberta para dividir o núcleo do átomo, para
produzir armas que podem dividir cada núcleo do átomo; os
nacionalistas usaram a poesia para dividir e aniquilar
populações humanas, para mobilizar armas genocidas, para
cometer novos holocaustos.
Os cientistas
puros, os poetas e pesquisadores se consideram inocentes pelas
paisagens devastadas e os corpos destroçados São
inocentes?
Parece-me que,
pelo menos, uma das observações de Marx é
verdadeira: cada minuto dedicado ao processo de produção
capitalista, a cada pensamento contribuinte ao sistema industrial,
alongam cada vez mais um poder que é contrário à
natureza, contrario a cultura e a vida. A ciência aplicada
não é de natureza diferente; é uma parte
integral do processo de produção capitalista. O
nacionalismo não surge por fora, é um produto do processo
de produção capitalista, assim como os agentes
químicos envenenando os lagos , o ar, os animais, e as pessoas;
assim como as usinas nucleares radioativam micro-ambientes em
preparação para a radioativação de
macro-ambientes.
Como um
pos-escrito eu gostaria de contestar uma pergunta antes que seja feita.
A pergunta é: Não acha que um descendente de um
povo oprimido esteja em melhor situação do que um gerente
de supermercado ou de um chefe policial? Minha resposta é outra
pergunta: Qual encarregado de um campo de concentração,
qual carrasco nacional ou qual torturador não são
descendentes de povos oprimidos?
Fredy Perlman. Título original: The Continuing Appeal of Nationalism
Detroit, 1984.
Notas:
1.O
subtítulo do primeiro volume do Capital é uma
crítica de política econômica: o processo de
produção capitalista. (Batas um papo H. Kerr e Co., 1906;
reeditada por Random House).
2.Ibidem., pág. 784-850; parte VIII: “A chamada acumulação primitiva”.
#.E.
Preobrazhensky, The New Economics (Moscou, 1926; a
tradução em inglês foi publicada por Clarendon
Press, Oxford, 1965), um livro que anunciava a terrível
“lei de acumulação socialista primitiva”.
4.Ver V. I Lenin,
O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (Moscou: Progress
Publishers, 1964; publicado pela primeira vez em 1899). Cito da
página 599: “ Se…comparamos a atual rapidez do
desenvolvimento com o que pode conseguir-se com o nível geral de
técnica e de cultura tal e como funciona hoje em dia, o atual
ritmo de desenvolvimento do capitalismo na Rússia deve ser
considerado realmente como lento. E não pode ser senão
lento já que em nenhum país capitalista teve nunca
tão enorme sobrevivencia de instituições antigas
que são incompatíveis com o capitalismo, atrasam seu
desenvolvimento e fazem muito piores as condições dos
produtores …”.
5.Ou a
libertação do estado: “Nosso mito é a
nação, nosso mito é a grandeza da
nação”. É o estado o que cria a
nação , outorgando vontade e portanto vida real entre as
gentes conscientes de sua unidade moral”; “Sempre, o
máximo de liberdade coincide com o máximo de
forças do estado”; “Tudo para o estado, nada contra
o estado, nada fora do estado”; De Che costure e il fascismo e A
doutrina do fascismo, citado por G. H. Sabine, A History of Political
Theory (Nova York, 1955), pp. 872-878
6. "…a
gradual extensão de nossos assentamentos farão com que os
selvagens,assim como o lobo, retirem-se; sendo os duas bestas de presa,
ainda que “difiram em forma” " (G. Washington 1n 1783).
“…se alguma vez nos vemos obrigados a levantar o arma
contra uma tribo, nunca a baixaremos até que essa tribo tenha
sido exterminada , ou conduzida além de nossos
domínios…” (T. Jefferson em 1807).
“…os cruéis massacres que cometeram nas mulheres e
nas crianças de nossas fronteiras, tomando-os por surpresa,
vão-nos a obrigar a prosseguir com seu extermínio, ou
conduzí-los até novos assentamentos fora de nosso
alcance”(T. Jefferson em 1813). Citado por Richard Drinnon em
Facing West: The Methaphisics of Indian-Hating and Empire Building
(Nova York: New American Library, 1980).
7. Quotations from
Chairman Mao Citas do chefe Mao (Pequim: Dep. político do
exército de libertação do povo, 1966).
8.Negros e
vermelhos tentaram satirizar esta situação faz uns
três anos com a publicação de um enganoso Manual
para líderes revolucionários, uma guia de “como
fazer as coisas”. Seu autor, Michael Velli, ofereceu para o
revolucionário príncipe moderno o que Maquiavel tinha
oferecido ao príncipe feudal. Este falso “Manual”
fusionou o pensamento de Mao com os de Lenin, Stalin, Mussolini, Hitler
e seus sucessivos seguidores; oferecia saborosas receitas para a
preparação de organizações
revolucionárias e a consecução total do poder.
Assombrosamente, pelo menos a metade de pedidos deste
“Manual” veio de parte de aspirantes a libertadores
nacionais e é possível que algumas das atuais
versões da metafísica nacionalista contenham receitas
oferecidas por Michael Velli.
9.Não
exagero. Tenho ante meus olhos um panfleto tão extenso como um
livro, titulado A Mitologia do proletariado branco: um curto caminho
para entender a Babilônia de J. Sakai (Chicago: Morningster
Press, 1983). Como aplicação do pensamento de Mao Tse
TUng à história estadounidense é o trabalho
maoista mais sentimental dos que vi. Documenta e descreve, as vezes
vívidamente, a opressão dos escravos africanos na
América, as deportações e o extermínio dos
habitantes indígenas do continente americano, a
exploração racista dos chineses, a reclusão dos
japoneses americanos em campos de concentração. O autor
mobiliza todas estas experiências de cruel terror, não
para procurar modos de atacar o sistema que os perpetrou, senão
para urgir às vítimas que o sofreram a reproduzir o mesmo
sistema entre eles. Salpicados de fotografias e citações
de chefes como Stalin, Lenin, Mao e Ho-Chi-Ming, este trabalho
não tenta ocultar ou disfarçar seus propósitos
repressores; urge aos africanos, aos navajos, aos apaches e aos
palestinos a organizar-se em partido, tomar o poder, e a liquidar aos
parasitas.