Contra o industrialismo
Uma contribuição de Derrik Jensen
Alguns anos atrás perguntei a um amigo "Se você pudesse viver em qualquer nível da tecnologia, qual seria?"
Ele estava naqueles dias. Ele disse: "Essa é uma pergunta
idiota. Nós podemos fantasiar sobre viver do modo que quisermos,
mas o único nível sustentável da tecnologia
é da idade das pedras. O que temos agora é apenas um
resquício - nós somos uma de somente seis ou sete
gerações que já teve que ouvir o terrível
som da combustão interna das máquinas - e a tempo
retornaremos ao modo que os humanos viviam na maior parte de sua
existência. Pelo menos dentro de algumas centenas de anos, a
única pergunta será "o que sobrará do mundo quando
chegarmos lá."
Ele está certo, claro. Não é preciso que um
cientista espacial descubra que qualquer sistema social baseado no uso
de recursos não-renováveis é por
definição não sustentável: Na verdade
qualquer pessoa além do cientista consegue descobrir isso.
Similarmente, qualquer cultura baseada no uso não
-renovável de recursos renováveis é muito mais
não-sustentável: se há cada vez menos
salmões no mar por ano, cedo ou tarde não haverá
nenhum. Se cada vez menos florestas sobrevivem a cada ano, em poucos
anos não haverá mais nenhuma. Isso é o que
nós vemos, por exemplo, no colapso da pesca depois da pesca se
tornar global: tendo pescado por muito tempo somente os peixes mais
economicamente viáveis, agora até mesmo os peixes
não valorizados estão sendo extirpados, literalmente
desaparecendo ao serem engolidos pela insaciável
civilização industrial.
Analisando isso tudo de outro modo, qualquer grupo de seres (humanos ou
não-humanos, plantas ou animais) que retiram à sua volta
mais do que podem devolver, obviamente, destróem tudo à
sua volta, e depois teriam que se mudar, caso contrário se
extinguiriam. Nossa cultura - a civilização Ocidental -
tem destruído tudo ao seu redor por seis mil anos,
começando pelo Oriente Médio e expandindo agora para a
destruição de todo o planeta. Por que mais você
acha que essa cultura precisa se expandir continuamente? E por que
mais, coincidivelmente, você acha que se desenvolveu uma
retórica (uma série de histórias que nos ensinam
como viver) - deixando claro não somente a necessidade mas o
desejo e até mesmo a moral da expansão contínua -
nos fazendo ir corajosamente aonde nenhum homem foi antes, em
relação a uma premissa tão fundamental? As
cidades, provavelmente o fator que mais define a
civilização, sempre dependeram da retirada de recursos de
áreas rurais ao seu redor, o que significa, primeiramente, que
nenhuma cidade jamais foi e jamais será sustentável, e,
para continuar sua incessante expansão, as cidades devem
expandir incessantemente as áreas que elas devem incessantemente
explorar ao máximo: as colônias. Tenho certeza que
você pode ver os problemas que isso traz e a consequência
final que deve chegar em um planeta finito. Se você não
consegue ou não pode ver esses problemas, então te desejo
sorte em sua carreira política ou de negócios. Nossa
precaução deliberada - ao ponto de ser obssessiva - de
tomarmos conhecimento e agirmos mesmo sabendo dessa consequência
final é, dadas as consequências, mais do que estranho.
Não precisamos nos preocupar com o futuro para ver o
porque que a civilização é injusta e precisa ser
destruída. Em 1837, o filósofo
pró-escravidão William Harper escreveu: "A
coerção da escravidão por si só é
adequada para formalizar o homem à rotina de trabalho. Sem o
trabalho, não há acumulação de propriedade,
nenhuma provisão para o futuro, nem gostos por confortos e
elegância, que são as características essenciais da
civilização." Esses "confortos e elegâncias" que
são criados através dos processos de
produção industrial requerem a expropriação
de recursos - chamados de "importação" pela sociedade -
das colônias. Dessa maneira, pessoas passam fome na Índia
enquanto a indústria de cereais importa comidas para
cachorros para a Europa. Pessoas passam fome no Leste da África
enquanto os agricultores exportam feijões para o centro do
império. Pessoas passam fome na América do Sul, enquanto
nas fazendas de subsistência se exporta grãos de
café para os Estados Unidos, para saciar o vício
americano pela cafeína.
Uma vez que as pessoas, de modo geral não optam por
morrerem de fome; e as pessoas sãs de modo geral não
destróem suas terras das quais são dependentes; e a
produção industrial requer a importação de
recursos para continuar a existir, a troca - não importa o
quanto desigual - não é confiável o
suficiente para permitir que uma pessoa baseie o seu modo de vida nela.
Os recursos devem ser tirados à força. Assim como nossa
longa história de guerra. Isso era real no início,
segundo o que o antropólogo Stanley Diamond escreveu, "A
civilização se originou na conquista do exterior e na
repressão local", e ainda é real hoje, quando o
publicitário capitalista Thomas Friedman diz que "A 'mão
oculta' do mercado jamais funcionará sem um 'punho oculto' - o
McDonald's não pode crescer sem o McDonnell Douglas, o
projetista do F-15 e o punho oculto que mantêm o mundo seguro
para as tecnologias da Sillicon Valley é chamado de
Exército dos Estados Unidos, Força Aérea, e
Marinha."
Felizmente, uma vez que nós, como espécies,
não tivemos mudanças fundamentais nos últimos
milhares de anos, muito antes mesmo do nascer da
civilização, cada nova criança que nasce ainda
é um ser humano, com o potencial de se tornar o tipo de adulto
que pode viver sustentavelmente em um pequeno pedaço de terra,
se ao menos fosse permitido a criança crescer dentro do contexo
de uma cultura que valorize, viva, e que dê valor a
sustentabilidade, que conta histórias que reenforça a
sustentabilidade, e que não permite de forma alguma o tipo de
exploração que levaria à
não-sustentabilidade. Isso é natural. É o que
somos.
Para continuar a ir "adiante", cada criança deve esquecer
o que significa ser humana para ao invés aprender o que
significa ser civilizado. Como psiquiatra e filósofo, RD. Laing
disse que, "Do momento do nascimento, quando um bebê da Idade da
Pedra se confronta com uma "mãe do século vinte", o
bebê é sujeito às forças da
violência... assim como foi sua mãe e seu pai, e os pais
de seus pais, e os pais antes dele. Essas forças estão
principalmente preocupadas em destruir a maior parte das
potencialidades dessas crianças, e de modo geral esse
empreendimento tem sucesso. Quando o novo ser humano tiver em seus
cinqüenta anos ou mais, seremos um ser como nós mesmos, uma
criatura meio-louca mais ou menos ajustada a esse mundo louco. E isso
é completamente normal em nosso tempo presente."
O que deve ser feito por cada um de nós é que desfaçamos essa normalidade.