Correndo no vazio. O fracasso do pensamento simbólico
John Zerzan
Se não 'retornarmos aos nossos sentidos', teremos perdido
permanentemente a oportunidade de construir alguma alternativa
significante à pseudo-existência que tomamos por
“vida” em nossa atual ‘Civilização da
Imagem’ - David Howes
Até que ponto podemos dizer que estamos realmente vivendo?
À medida que a substancia da cultura parece murchar-se e seu
bálsamo resulta cada vez menor, incapaz de ajudar a nossas vidas
cheias de preocupações, nos leva a analisar com mais
profundidade estes tempos estéreis e a função da
própria cultura nisso tudo.
Um angustiado Ted Sloan pergunta (1996), “Qual é o
problema com a modernidade? Por que a sociedade moderna tem tantas
dificuldades para produzir adultos capazes de intimidade, trabalho,
prazer, vida ética…? Por que os signos de uma vida
danificada prevalecem tanto?”. Segundo David Morris (1994),
“A dor crônica e a depressão, com
freqüência relacionados e inclusive ocasionalmente
considerados como um só problema, constituem uma crise imensa no
centro da vida pos-moderna.” Temos o ciberespaço e a
realidade virtual, comunicação computadorizada
instantânea na aldeia global: mas ainda assim, nos sentimos as
vezes tão isolados e empobrecidos?
Assim e como Freud prognosticou que a plenitude da
civilização implicaria uma infelicidade neurótica
universal, as correntes anti-civilização estão
crescendo em resposta à miséria psíquica que nos
envolve. Assim, a vida simbólica, essência da
civilização, começa a pôr-se no ponto de
mira.
Poderia se dizer que este elemento tão familiar - e artificial -
é o menos entendido; mas a necessidade sentida dirige para
além a crítica, e muitos de nós nos sentimos
direcionados ao fundo de uma forma de existência que piora
constantemente. Da sensação de sermos capturados e
limitados pelos símbolos surge a tese de que a medida em que o
pensamento e a emoção estão atados ao simbolismo
é a medida pela qual a ausência ocupa nosso mundo interno
e destrói o externo.
Parece que temos experimentado uma queda na
representação, e só agora estamos sondando
completamente suas conseqüências e suas profundidades. Como
uma forma fundamental de falsificação, os símbolos
primeiramente mediaram a realidade e depois a substituíram. No
presente, vivemos com os símbolos num grau maior do que vivemos
com nossos corpos ou diretamente uns com os outros.
Quanto mais absorvido este sistema de representação
interna, maior é a distância que nos separa da realidade
ao nosso redor. Outras conexões, outras perspectivas cognitivas
são inibidas - para dizer o mínimo - a medida em que a
comunicação simbólica e seu enorme leque de
instrumentos dedicados a levar a cabo esta representação
foram cumprindo um papel de alienação da realidade e a
traição contra esta.
Esta distorção concomitante e intermediária e este
distanciamento são ideológicos num sentido
primário e original; cada ideologia posterior é um eco
desta primeira. Debord descrevia a sociedade contemporânea como a
aplicação da proibição da vida em favor de
sua representação: imagens agora no comando, conduzem
nossas vidas. Mas este não é um problema novo. Existe um
imperialismo, um expansionismo da cultura desde o princípio. E
quanto já se conquistou? A filosofia hoje em dia diz que
é a linguagem o que pensa e fala. Mas durante quanto tempo tem
sido assim? A simbolização é linear, sucessiva,
substitutiva; não pode se abrir o seu objeto por completo
simultaneamente. Sua razão instrumental é tão
somente esta: manipular e procura dominar. Sua forma de atuar é
“que a represente a b”, em lugar de que “a seja
b”. A linguagem se baseia no esforço por conceitualizar e
regular o que é irregular, por tanto ignorando a essência
e a diversidade, de uma riqueza variada e variável.
O simbolismo é um império extenso e profundo, que reflete
e faz coerente um ponto de vista do mundo, e que é em si um
ponto de vista do mundo baseado na retirada de qualquer sentido humano
imediato e inteligível.
James Shreeve, ao final de seu “Enigma de Neanderthal”
(1995), nos proporciona uma bela ilustração de uma
alternativa ao ser simbólico. Meditando a respeito de como
poderia ter sido uma consciência não-simbólica
anterior, concebe importantes distinções e possibilidades:
“… enquanto os deuses modernos podiam habitar a terra, o
búfalo, ou a erva, o espírito do Neanderthal era o animal
ou a erva, o ser e sua alma percebidos como uma única
força vital, sem necessidade de distinguí-los com nomes
separados. De forma similar, a ausência de uma expressão
artística não evita a percepção do que
é artístico no mundo. Os neanderthais não pintaram
suas grutas com imagens de animais. Mas talvez não precisavam
destilar a vida em representações, porque suas
essências já foram prontamente reveladas a seus sentidos.
A visão de um rebanho correndo era suficiente para inspirar uma
ardente emoção de beleza. Não tinham
percussão nem flautas de osso, mas através dos ritmos do
vento, da terra, e do bater do coração dos outros eram
transportados.”
Em lugar de celebrar a comunhão cognitiva com o mundo que
Shreeve sugere que desfrutamos alguma vez, e muito menos embarcarmos
num projeto para recuperá-la, o uso de símbolos é
obviamente amplamente considerado como a grande cume da
cognição humana. Goethe disse, “tudo é um
símbolo”, assim como o capitalismo industrial, pedra de
toque da mediação e da alienação, bem
sucedida. Mais ou menos ao mesmo tempo, Kant decidiu que a chave da
filosofia repousava na resposta para a pergunta, “qual é a
base da relação do que em nós chamamos
‘representação’ em relação com
o objeto?”. desastrosamente, legou para o pensamento moderno uma
resposta atemporal e inadequada, de que simplesmente não estamos
constituídos para sermos capazes de entender a realidade
diretamente. Dois séculos depois (1982), Emmanuel Levinas ficou
bastante perto ao dizer que “a filosofia, é a
consciência da ruptura da consciência”.
Eli Sagan (1985) falou por muitos outros ao declarar que a
necessidade de simbolizar e viver num mundo simbólico é,
como a agressão, uma necessidade humana tão básica
que “só pode negar-se com o custo de uma séria
desordem psíquica”. No entanto, a necessidade de
símbolos - e de violência - nem sempre existiram. Mas
antes, têm suas origens na frustração e
fragmentação de uma plenitude anterior, no processo de
domesticação de que surgiu a civilização.
Aparentemente acelerado por um gradual crescimento acelerado da
divisão de trabalho que começou a surgir no
Paleolítico Superior, a cultura emergiu como tempo, linguagem,
arte, número, e então agricultura.
A palavra “cultura” deriva do latim “cultura”,
que se refere ao cultivo da terra; isto é, a
domesticação das plantas e os animais - e de passagem, de
nós mesmos. Um incansável espírito de
inovação e ansiedade tem estado conosco desde
então, como formas simbólicas em constante mudança
que tentam arrumar o que não pode ser revestido sem a
rejeição do simbólico e seu mundo alienado.
Seguindo Durkheim, Leslie White (1949) escreveu : “O
comportamento humana é um comportamento simbólico. O
símbolo é o universo da humanidade”. Já
é hora de começar a ver tais pronunciamentos como
ideologia, ao serviço da falsificação elementar
que assegura essa falsa consciência que pretende abarcar tudo.
Mas se não há um mundo simbólico completamente
desenvolvido, segundo reclama Northrop Frye (1981), a
“cartografia de nossa liberdade” do antropólogo
Clifford Geertz (1965) fica mais próximo da verdade ao dizer do
que somos habitualmente dependentes do "guia proporcionado pelos
sistemas de símbolos significativos”. Ainda mais perto
está Cohen (1974), que observou que “os símbolos
são essenciais para o desenvolvimento e manutenção
do ordem social”. O conjunto de símbolos representa o
ordem social e o lugar do indivíduo nele, uma fórmula que
sempre deixa sem questionar a gênese deste acordo inquestionado.
Como nosso comportamento foi ordenada através da
simbolização?
A cultura surgiu e floresceu através da dominação
da natureza, seu crescimento uma medida dessa maestria progressiva que
se desdobrou com a divisão ainda maior do trabalho. Malinowski
(1962) entendeu o simbolismo como alma da civilização,
principalmente na forma da linguagem como uma forma de coordenar a
ação ou como técnica de
padronização, e para dar regras para a conduta social,
ritual, e industrial.
É a nossa queda de uma simplicidade e plenitude da vida
experimentada diretamente, de um momento de sabedoria sensual, que
deixa um vácuo que o simbólico nunca pode preencher. Isto
é o que sempre está sendo encoberto por camadas de
consolos culturais, caminhos civilizados que nunca recuperam a
totalidade perdida. Num sentido profundo, só o que se reprime se
simboliza, já que só o reprimido precisa sê-lo: a
magnitude da simbolização testemunha o quanto foi
reprimido, enterrado, mas possivelmente ainda recuperável.
Durante muito tempo, de forma imperceptível, a divisão do
trabalho lentamente avançou e eventualmente começou a
corroer a autonomia do indivíduo e um modo de
relação social cara-a-cara. O vírus destinado a
alcançar seu auge assim que a civilização
começasse: uma tese tentativa apoiada por todos que agora nos
faz suas vítimas. Da alienação inicial à
civilização avançada, o percurso está
marcado pelo aumento constante da dependência, da
reificação, da burocratização, da
desolação espiritual, e da tecnificação
estéril.
Não é de estranhar que a questão da origem do
pensamento simbólico, o exato mesmo ar que respira a
civilização, surja com certa força. Perguntar o
por que a cultura deveria existir parece, cada vez mais, uma boa forma
de propô-la. Especialmente, dada a enorme antigüidade da
inteligência humana agora cujo sentido está estabelecido
principalmente pela persuasiva demonstração de Thomas
Wynn (1989), considerando como esta inteligência fez com
que fabricássemos ferramentas de pedra a cerca de um
milhão de anos. Há um abismo temporário um tanto
evidente entre esta capacidade humana estabelecida e o princípio
da cultura simbólica, com muitos milhares de
gerações entre as duas.
A cultura é um assunto bastante recente. A arte rupestre mais
antiga, por exemplo, é de aproximadamente 30.000 anos
atrás, e a agricultura só começou a se
sistematizar a cerca de 10.000 anos atrás. O elemento que
faltava durante o enorme intervalo em que nossa capacidade intelectual
era suficiente para possibilitar a simbolização mas
não a produzia, foi uma mudança em nossa
relação com a natureza. Parece plausível ver neste
intervalo, de alguma modo que, talvez, nunca sejamos capazes de
entender, uma recusa em tentar controlar a natureza. Pode ser que esta
tendência se fez presente apenas quando se introduziu esta luta
pelo domínio, provavelmente de forma inconsciente e mediante uma
divisão gradual do trabalho, quando a simbolização
das experiências começaram a se firmar.
Mas, se argumenta com freqüência que a violência dos
primitivos -sacrifícios humanos, canibalismo,
caça-de-cabeças, escravismo, etcétera - só
pode ser domesticada pela civilização/cultura
simbólica. A resposta simples a este estereótipo do
primitivo é que a violência organizada não foi
eliminada pela cultura, senão , de fato começou com ela.
William J.Perry estudou (1927) vários povos do Novo Mundo e
notou um forte contraste entre os povos agricultores e os não
domesticados. Viu que estes últimos “eram imensamente
inferiores em cultura, mas careciam dos horríveis costumes [dos
outros]”. Enquanto virtualmente toda sociedade que adotou uma
relação de domesticação com a natureza ao
redor do globo foi objeto de práticas violentas, os não
agricultores não conheceram a violência organizada. Os
antropólogos se centraram bastante sobre os índios da
costa noroeste como uma estranha exceção a esta regra:
apesar de terem sido essencialmente pescadores, num determinado momento
começaram a utilizar escravos e a estabeleceram uma sociedade
muito hierárquica. Inclusive aqui, de qualquer forma, estava
presente a domesticação: em forma do uso de cachorros e
fumo como um cultivo menor.
Sucumbimos à objetificação e deixamos que uma rede
de cultura nos controle e nos indique como viver, como se isto fora um
desenvolvimento natural. É qualquer coisa menos isso, e
deveríamos ter claro o que nos deram de fato a cultura e a
civilização, e o que nos foi tirado.
O filósofo Richard Rorty (1979) descreveu a cultura como um
conglomerado de pretensões de conhecimento. No reino do ser
simbólico se desprezam os sentidos, devido a sua
separação e atrofia sistemáticos sob a
civilização. O sensual não se considera uma fonte
legítima de busca da verdade.
Nós humanos já permitimos uma recepção
completa e apreciativa pelos sentidos, o que em alemão se chama
‘umwelt’, ou o mundo que nos rodeia. Heinz Werner (1940,
1963) argumentou que originalmente a percepção se reunia
em torno de um único sentido, antes que as divisões em
sociedade rompessem a unidade sensorial. As pessoas que sobrevivem sem
agricultura com freqüência exibem no uso dos sentidos, uma
consciência sensorial e um envolvimento muito maior do que os dos
indivíduos domesticados. (E.Carpenter 1980).
Impressionantes exemplos são abundantes: como os
bosquímanos, que podem ver as quatro luas de Júpiter sem
ajuda tecnológica e podem ouvir um avião de um só
motor a setenta milhas de distância (Farb, 1978).
A cultura simbólica inibe a comunicação humana
bloqueando ou suprimindo os canais de consciência sensorial. Uma
existência cada vez mais tecnológica, empurra-nos a
desdenhar a maior parte do que poderíamos experimentar.
Vão a mente as palavras de William Blake:
“Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo
apareceria ao homem como é, infinito. Já que o homem se
fechou, até ver as coisas através das estreitas gretas de
sua caverna.”
Laurens Van Der Post (1958) descreveu comunicação
telepática entre os Kung na África, inspirando Richard
Coan (1987) a caracterizar tais modalidades como “representes de
uma alternativa, no lugar de um prelúdio ao tipo de
civilização na qual vivemos”.
Em 1623 William Drummond escreveu; “Que doces conteúdos
goza o alma através dos sentidos. São as portas e janelas
de seu conhecimento, os órgãos de seu deleite”. De
fato, o “Eu”, se não a “alma”,
não existe na ausência das sensações
corporais; não há estados conscientes não
sensoriais. Mas é evidente como foram domesticados nossos
sentidos numa atmosfera cultural simbólica: submetidos,
separados, dispostos numa reveladora hierarquia. A visão, sob o
jugo da perspectiva linear moderna, reina devido ser o menos
próximo, o mais distanciador dos sentidos. Foi o meio pelo que o
indivíduo foi transformado num espectador, e o mundo num
espetáculo; e o corpo um objeto ou modelo. A primazia do visual
não é acidental, já que uma indevida
elevação da importância deste sentido não
só situa ao observador fora do que vê, senão que
permite construir a base do princípio de controle ou
dominação. O som ou o ouvir como o centro dos sentidos
seria muito menos adequado para a domesticação, já
que rodeia e penetra o falante tanto como ao que escuta.
Outras habilidades sensuais são ainda mais desprezadas. O
olfato, que só perde sua importância ao ser suprimido pela
cultura, foi uma vez um meio vital de conexão com o mundo. A
literatura sobre a cognição ignora quase por completo o
sentido do olfato, estando seu papel tão reduzido nos humanos.
É, depois de tudo, bastante pouco útil para o
propósito da dominação; considerando como o olfato
pode de forma direta trazer da memória inclusive
recordações muito distantes, possivelmente é
inclusive uma forma de habilidade anti-dominação. Lewis
Thomas (1983) indicou que “o ato de cheirar algo, qualquer coisa,
assemelha-se muito ao fato de pensar em si mesmo”. Se não
o é, muito possivelmente o foi, e deveria sê-lo de novo.
As experiências ou práticas táteis são outro
área sensorial onde retrocedemos a favor de substitutos
simbólicos compensatórios. O sentido do tato de fato
diminuiu numa existência sintética, a longa
distância, ocupada pelo trabalho. Há pouco tempo para ou
ênfase escassa na estimulação ou
comunicação táteis, inclusive se tal coisa leva a
conseqüências claramente negativas. Nuance de sensibilidade
e delicadeza se perdem, e é bem conhecido que aquelas
crianças que experimentam pouco contato físico e
carícias, desenvolvem-se mais lentamente e sofrem uma atrofia em
suas expressões emocionais.
Tocar por definição implica sentir, ser
“tocado” é sentir-se afetado emocionalmente, uma
lembrança da antiga potência do sentido do tato, como na
expressão "mantenha o contato". A diminuição desta
categoria de sensibilidade, entre as outras, tem tido suas
conseqüências. A renovação desta categoria de
sensibilidade num mundo re-sensibilizado traria uma
direção de melhora na vida, em direção
oposta à tendência atual: como Tommy gritava na
ópera de The Who do mesmo nome, “olha-me, sente-me,
toca-me, sana-me…”
Como com os animais e as plantas, a terra, os rios, e as
emoções humanas, os sentidos ficam isolados e submetidos.
A noção de Aristóteles de um plano
“adequado” do universo ditava que “cada sentido tenha
sua esfera própria”.
Freud, Marcuse e outros viram que a civilização demanda a
sublimação ou repressão dos prazeres dos sentidos
que causam proximidade, de maneira que o indivíduo possa ser
assim convertido num instrumento do trabalho. O controle social,
através da rede simbólica, arranca deliberadamente a
importância do corpo. Um contra-mundo alienado, direcionado para
uma ainda maior alienação por uma cada vez maior
divisão do trabalho, humilha as sensações
somáticas próprias e distrai de forma fundamental com
respeito aos ritmos básicos da vida própria.
A divisão definitiva entre corpo e mente, atribuída a
Descartes em suas formulações no século XVII,
é o epicentro da sociedade moderna. Aquilo ao que se considerou
a grande “ansiedade cartesiana” sobre o espectro do caos
moral e intelectual, foi resolvido em favor da supressão da
dimensão sensual e passional da existência humana. De
novo, vemos a urgência domesticadora que fundamenta à
cultura, o medo de não estar sob controle, agora atacando aos
sentidos como uma vingança. Enquanto a ciência e a
tecnologia têm uma licença teórica para proceder
sem limites, o conhecimento sensual tem sido efetivamente erradicado em
termos de pretender a verdade ou o entendimento.
Vendo o que este pacto tem forjado, uma profunda reação
está amanhecendo contra a vasta empresa do simbólico que
nos aflige e invade cada parte de nós. "Se não
'retornarmos aos nossos sentidos'", como julgou David Howes (1991),
“teremos perdido para sempre a oportunidade de construir alguma
alternativa com significado à pseudo-existência que
tomamos como “vida” em nossa atual
‘Civilização da Imagem’ “. A tarefa da
crítica deveria ser, principalmente, nos ajudar a ver que se
precisará para atingir um lugar onde estejamos realmente
presentes para os outros e para o mundo.
A primeira separação parece ter sido o sentido do tempo,
que nos traz a perda da sensação de estarmos presentes
para nós mesmos. O crescimento desta sensação
é indistinguível da alienação em si mesma.
Se, como indicou Levi-Strauss, “a característica principal
da mente selvagem é a inexistência do tempo”, viver
no aqui e agora é algo que perdemos através da
mediação das intervenções culturais. O
tempo presente é diferido pelo simbólico, e esta
rejeição do instante contingente marca o nascimento do
tempo. Caímos sob o feitiço do que Eliade chamou o
“terror da história” à medida que as
representações se opõem com efetividade ao
puxão da experiência perceptual imediata.
O Mito do Eterno Retorno de Mircea Eliade (1954) destaca o medo que
todas as sociedades primitivas tiveram da história, do passo do
tempo. Por outro lado, as vozes da civilização tentaram
celebrar nossa imersão nesta construção cultural
tão básica. Leroi-Gourhan (1964), por exemplo, viu na
orientação ao tempo "talvez o ato humano por
excelência”. Nossas percepções acabaram
tão governadas e saturadas pelo tempo que é
difícil imaginar sua ausência geral: pelos mesmos motivos
é tão difícil ver, neste ponto, uma
existência social não dividida, não alienada,
não simbólica.
A história, segundo Peterson e Goodall (1993), está
marcada por uma amnésia sobre nossas origens. Suas estimulantes
Visões de Caliban também apontavam que nosso grande
esquecimento bem poderia ter começado com a linguagem, o
mecanismo criador do mundo simbólico. A lingüista
comparativa Mary LeCron Foster (1978, 1980) crê que a linguagem
tem possivelmente menos de 50.000 anos de antigüidade, e surgiu
com os primeiros impulsos para a arte, o ritual, e a
diferenciação social. A simbolização verbal
é o principal método para estabelecer, definir e manter,
o mundo cultural e a estrutura de nossos pensamentos.
Como disse Hegel alguma vez, questionar a linguagem é questionar
a existência. É muito importante, ainda assim, resistir
tais excessos e ver a distinção entre a importância
cultural da linguagem e suas inerentes limitações.
Sustentar que nós e o mundo somos criações
lingüísticas é tão somente outra forma de
dizer o quão penetrante e controladora é a cultura
simbólica. Mas Hegel vai bem mais além, e a
afirmação de George Herbert Mead (1934) de que para ter
uma mente é necessário ter uma linguagem é
similarmente hiperbólica e falsa.
A linguagem transforma o significado, e a comunicação
não é seu sinônimo. O pensamento, como entendeu
Vendler (1967), é essencialmente independente da linguagem.
Estudos sobre pacientes e outros que careciam de todos os aspectos da
fala e da linguagem demonstram que o intelecto permanece poderoso
inclusive na ausência de tais elementos (Lecours e Joanette 1980;
Donald 1991). A afirmação de que a linguagem facilita
enormemente o pensamento é também questionável,
tal e como não foi demonstrado por experimentos formais com
crianças e adultos (G.Cohen, 1977). A linguagem não
é uma condição necessária para o pensamento
(ver Kersetz 1988, Jansons 1988).
A comunicação verbal é uma parte do movimento que
afasta da realidade social face-a-face, fazendo possível a
separação física. A palavra sempre se situa entre
as pessoas que desejam conectar entre si, facilitando a
diminuição do que não se precisa falado para ser
dito. Que declinamos de um estado não-lingüístico
começa a parecer um ponto de vista são. Esta
intuição pode repousar depois do juízo de George
W.Morgan em 1968, que “nada, de fato, está mais sujeito a
suspeita e depreciação em nosso mundo desencantado do que
a palavra”.
Fora da civilização, a comunicação abarcava
todos os sentidos, uma condição ligada as
características chaves do coletor-caçador de abertura e
cooperação. A capacidade de ler e escrever nos introduziu
na sociedade dos sentidos divididos e reduzidos, e tomamos como se
fosse um estado natural esta depravação sensorial, tal e
como tomamos por natural essa capacidade de leitura e escritura.
A cultura e a tecnologia existem devido à linguagem. Muitos
viram a fala como um método de coordenação do
trabalho, isto é, como uma parte essencial da técnica de
produção. A linguagem é crítica para a
formação das regras de trabalho e o intercâmbio que
acompanha a sua divisão, com as especializações e
padronizações da economia nascente como linhas paralelas
às da linguagem. Guiados agora pela simbolização,
um novo tipo de pensamento toma o controle, que se concebe na cultura e
na tecnologia. A interdependência da linguagem e tecnologia
é ao menos tão óbvia como a da linguagem e
cultura, e resulta num acelerado controle sobre o mundo natural
intrinsecamente similar ao controle introduzido sobre o que uma vez foi
um indivíduo sensual e autônomo.
Noam Chomsky, líder em teoria da linguagem, comete um grave e
reacionário erro retratando a linguagem como um aspecto
“natural” da "natureza essencial humana”, inata e
independente da cultura (1966b, 1992). Sua perspectiva cartesiana
vê a mente como uma máquina abstrata que está
destinada a manipular correntes de símbolos. Conceitos como
origens ou alienação não têm lugar neste
estéril tecno-esquema. Lieberman (1975) proporciona uma
correção concisa e fundamental: “A linguagem humana
só pode ter evoluído em relação com a
totalidade da condição humana.”
O sentido original da palavra ‘definir’ é, do Latin,
limitar ou pôr um final. A linguagem parece com
freqüência fechar uma experiência, não nos
ajudar a estar abertos à experiência. Quando sonhamos, o
que sucede não se expressa em palavras, tal e como os
apaixonados se comunicam mais profundamente sem
simbolização verbal. Que fez a linguagem avançar
que tenha feito avançar o espírito humano? Em 1976, von
Glasersfeld se perguntava, “se em algum tempo futuro,
parecerá ainda tão óbvio que a linguagem melhorou
a sobrevivência da vida neste planeta”.
O simbolismo numérico tem também uma importância
fundamental no desenvolvimento de um mundo cultural. Em muitas
sociedades primitivas era e é considerado como má sorte
contar criaturas vivas, atitude próxima da noção
primitiva comum de que nomear a outro é obter poder sobre essa
pessoa. Contar, como nomear, é parte do processo de
domesticação. A divisão do trabalho se presta ao
quantificável, oposto ao que é completo em si,
único, sem fragmentar. O número é também
necessário para a abstração inerente no
intercâmbio de bens e é pré-requisito para a
decolagem da ciência e tecnologia. A urgência de medir traz
um tipo deformado de conhecimento que não procura entender seu
objeto, senão que procura seu controle.
O sentimento de que “a única forma em que podemos prender
as coisas é através da arte”, é uma
opinião comum que sublinha nossa dependência dos
símbolos e a representação. “O fato de que
originalmente todo arte foi ’sagrada’ ” (Eliade,
1985), isto é, pertencente a uma esfera separada, testemunha a
respeito de seu status original ou função.
A Arte é uma das formas mais precoces da expressividade
ideológica e ritual, desenvolvida junto com as práticas
religiosas desenhadas com o objetivo de unir uma vida comunal que
começava a se fragmentar. Era um elemento chave para facilitar a
integração social e a diferenciação
econômica (Dickson, 1990), provavelmente mediante a
codificação de informação para indicar
pertence, posição, e status (Lumsden e Wilson, 1983).
Antes deste tempo, em algum lugar durante o Paleolítico
Superior, os mecanismos para a coesão social eram
desnecessários; a divisão do trabalho, papéis
distintos, e territorialidade, parecem não ter existido durante
muito tempo. À medida que a tensão e a ansiedade
emergiram na vida social, a arte e o resto da cultura se alçaram
ao mesmo tempo em resposta a sua perturbadora presença.
Como a religião, a arte surgiu deste desassossego, sem
dúvida sutil mas poderosamente inquietante em sua novidade e em
sua gradual usurpação. Em 1900, Hirn escreveu sobre uma
insatisfação inicial que motivou sua busca
artística por uma “expressão mais completa e mais
cheia” como “compensação pelas novas
deficiências da vida”. As soluções culturais,
no entanto, não propõem as profundas
deslocações das que as próprias
“soluções” culturais são uma parte. Ao
invés, como personagens tão diversos como Henry Miller e
Theodor Adorno concluíram, não teria necessidade de arte
num mundo desalienado. O que a arte foi incapaz de capturar e expressar
poderia ser mais uma vez essa realidade, o falso antídoto
esquecido da cultura.
Arte é linguagem e por tanto é evidentemente ritual,
entre as mais antigas instituições simbólicas e
culturais. Os comentários de Julia Kristeva (1989) "na
próxima relação entre a gramática e o
ritual” e os estudos dos rituais védicos de Frits Staal
(1982,1986,1988), mostravam que a sintaxe podia explicar por completo a
forma e significado do ritual. Como advertiu Christ Knight (1996), o
fala e o ritual são “aspectos interdependentes de um
único domínio simbólico”.
Essencial para a aparição da cultura nos assuntos
humanos, o ritual não é só uma forma de ordenar ou
prescrever as emoções; é também uma
formalização do que está intimamente relacionado
com as hierarquias e o domínio formal sobre os
indivíduos. Todas as sociedades tribais e
civilizações antigas conhecidas tinham
organizações hierárquicas construídas sobre
uma estrutura ritual e um sistema conceitual que se encaixasse com esta.
Os exemplos da relação entre ritual e desigualdade,
desenvolvidos inclusive antes da agricultura são muitos (Gans
1985, Conkey 1984). Os ritos funcionam como uma válvula de
segurança para a descarga de tensões geradas pelas
emergentes divisões na sociedade e trabalho, para criar e manter
a coesão social. Antes não tinha necessidade de
mecanismos para unificar o que, num contexto carente de divisão
do trabalho, não se encontrava dividido nem estratificado.
É dito com freqüência que a função do
símbolo é a de revelar estruturas do real que são
inacessíveis à observação empírica.
Mais ao ponto, em termos dos processos da cultura e
civilização, encontra-se no entanto o argumento de Abner
Cohen (1981, 1993) de que o simbolismo e a simulação
ritual, mistificam e santificam tarefas e papéis cansativos e os
fazem parecer desejáveis. Ou, como indicou Parkin (1992), a
natureza obrigatória do ritual entorpece a autonomia natural dos
indivíduos pondo-os ao serviço da autoridade.
Ostensivamente oposto à alienação, o
contra-mundo dos rituais públicos se dispõe oposto
à direção histórica. Mas de novo isto
é um engano, já que o ritual facilita o estabelecimento
da ordem cultural, berço da teoria e prática alienadas.
As estruturas de autoridade rituais jogam uma parte importante na
organização da produção (divisão do
trabalho) e promovem ativamente o advento da
domesticação. As categorias simbólicas se criam
para controlar o selvagem e o estranho; assim, a
dominação da mulher surge num desenvolvimento levado a
sua realização total com a agricultura, quando as
mulheres se convertem principalmente em bestas de cargas e/ou objetos
sexuais. Parte destas mudanças fundamentais é um
movimento em direção ao territorialismo e a guerra;
Johnson e Earle (1987) discutiram a correspondência entre este
movimento e a importância crescente do cerimonialismo.
Segundo James Shreeve (1995), “nos registros etnográficos,
onde quer que se encontre desigualdade, justifica-se invocando ao
sagrado”. De forma parecida, diz Eliade (1985) que todo
simbolismo foi originalmente simbolismo religioso. A desigualdade
social parece estar acompanhada por um subjugação na
esfera não-humana. M.Reinach (citado em Radin, 1927) disse:
“graças à magia, o homem faz sua ofensiva contra o
mundo objetivo”. Cassirer (1955) expressou desta forma: “A
Natureza não produz nada sem cerimônias”.
Da ação ritual surgiu o xamã, que não
só foi o primeiro especialista devido a seu papel nesta
área, senão o primeiro praticante cultural em geral. A
arte mais antiga era levada a cabo pelos xamãs, assumindo a
liderança ideológica e desenvolvendo o conteúdo
dos rituais.
Este especialista original se converteu no regulador das
emoções grupais, e a medida que a potência do
xamã aumentava, teve um declínio correspondente na
vitalidade psíquica do resto do grupo (Lommel, 1967). A
autoridade centralizada, e provavelmente também a
religião, surgiram da posição elevada do
xamã. O espectro da complexidade social se encarnava neste
indivíduo que manejava o poder simbólico. Cada
líder e chefe se desenvolveram desde a primazia desta figura nas
vidas do resto do grupo.
A religião, como a arte, contribuiu para uma gramática
simbólica comum que necessitadas tanto pela nova ordem social,
como pelas suas ansiedades e fissuras. A palavra religião se
baseia na latina “religare”, atar ou juntar, e um tronco
verbal grego que denota atendimento ao ritual, fé nas regras. A
integração social, requerida pela primeira vez, é
evidente como impulso para a religião.
Trata-se da resposta às inseguranças e as tensões,
prometendo uma resolução e transcendência
através do simbólico. A religião não
encontra base para sua existência antes da mudança
equivocada tomado em direção a cultura e ao civilizado
(domesticado). O filósofo americano George Santayana resumiu bem
com “outro mundo em que viver é o que se quer dizer quando
se fala de religião”.
Desde “As origens do Homem” de Darwin (1871), entendemos
que a evolução humana se acelerou imensamente em
relação a cultura num tempo de mudanças
fisiológicas insignificantes. Assim, o ser simbólico
não dependeu, não teve que esperar dos dons adequados,
para evoluir. Agora podemos ver com Clive Gamble (1994), que o conceito
de intenção na ação humana não
chegou com a
domesticação/agricultura/civilização.
Os habitantes nativos do Deserto do Kalahari na África, tal e
como foi estudado por Laurens van der Post (1976), viveram num
“estado de absoluta confiança, dependência e
interdependência com a natureza”, que era “bastante
mais agradável com eles que do que tenha sido com qualquer outra
civilização”. O igualitarismo e o compartilhar de
bens eram as qualidades principais da vida do caçador-coletor
(G.Isaac 1976, Ingold 1987, 1988, Erdal e Whiten 1992, etc), mais
adequadamente chamada vida do coletor-caçador, isto é,
essencialmente recolhedores. De fato, a maior parte desta dieta
consistia em plantas, e não há uma evidência
conclusiva da caça anterior ao Paleolítico Superior
(Binford 1984, 1985).
Um olhar instrutivo às sociedades primitivas
contemporâneas é o trabalho de Colin Turnbull (1961,
1965), sobre os pigmeus do bosque Ituri e seus vizinhos Bantú.
Os pigmeus são recolhedores, vivendo sem religião nem
cultura. São considerados ignorantes e imorais pelos
agricultores Bantú, mas desfrutam de um individualismo e uma
liberdade muito maior. Para o incomodo dos Bantú, os pigmeus
zombam irreverentemente de seus ritos solenes e sentido do pecado.
Recusando o territorialismo, e muito menos os lugares privados,
“movem-se livremente num mundo social sem mapas, não
sistematizado, sem fronteiras”, segundo Mary Douglas (1973).
A vasta era anterior à chegada do ser simbólico, é
uma realidade imensamente proeminente, e uma interrogação
para alguns. Comentando sobre este “período que abarca
mais de um milhão de anos de duração”, Tim
Ingold (1993) chamou-o “um dos enigmas mais profundos conhecidos
para a ciência arqueológica”. Mas a longevidade
desta época estável, não-cultural, tem uma
explicação singela: como conjeturou F.Goodman (1988),
“era uma existência tão harmoniosa e uma
adaptação tão bem sucedida, que não se
alterou materialmente durante milhares de anos”.
A cultura triunfou finalmente com a domesticação. A
extensão da vida se estreitou, especializou-se,
forçadamente divorciada de seu estado de graça e
liberdade espontânea anteriores. O assalto de uma
orientação simbólica ante o natural também
teve imediatos resultados externos. Pinturas rupestres antigas,
encontradas a 125 milhas da fonte de água mais próxima no
Saara, mostram pessoas nadando. Os elefantes eram ainda relativamente
comuns em algumas zonas costeiras mediterrâneas em 500 A.C.
segundo escreveu Herodoto. O historiador Clive Ponting (1992) mostrou
que cada civilização diminuiu a saúde de seu meio
ambiente.
E o cultivo definidamente não proporcionou uma qualidade
superior ou mais confiável de comida (M.N.Cohen 1989, Walker e
Shipman 1996), e no entanto introduziu doenças de todo tipo,
praticamente desconhecidas fora da civilização (Burkett
1978, Freund 1982), e a desigualdade sexual (M.Ehrenberg 1989b, A.Getty
1996). O livro de Frank Waters sobre os Hopi (1963) mostra-nos um
quadro chocante da divisão do trabalho e da pobreza do
simbólico: “Mais e mais, comerciaram coisas que não
precisavam, e quantos mais bens possuíam, mais desejavam. Isto
era muito sério; já que não se deram conta de que
estavam afastando-se, passo a passo, da boa vida que se lhes tinha
dado”.
Um capítulo pertinente dos Tempos Antes da História
(1996) por Colin Tudge leva um título que fala como se
fosse todo um volume: “O fim do Edén: o cultivo”.
Grande parte da distinção epistemológica essencial
se revela neste contraste por Ingold (1993): “Em poucas palavras,
enquanto para os granjeiros e pastores a ferramenta é um
instrumento de controle, para os caçadores e recolhedores seria
mais adequado considerá-lo um instrumento de
revelação”. E sustenta Horkheimer (1972), em termos
do custo psíquico da
domesticação/dominação da natureza:
“a destruição da vida interior é o que o
homem tem de pagar como preço por não ter respeito por
nenhuma vida além da sua.” A violência dirigida para
fora é ao mesmo tempo infligida espiritualmente, e o mundo
exterior se transforma, se degrada,assim como, certamente, o campo
perceptivo estava sujeito a uma redefinição fundamental.
Certamente, a Natureza não ordenou a civilização;
exatamente ao contrário.
Hoje está na moda, pata não dizer que é
obrigatório, sustentar que a cultura sempre existiu e sempre
existirá. Ainda que seja demonstrável que existiu uma
extremamente longa era não-simbólica humana,
possivelmente cem vezes tão longa a da
civilização, e que a cultura só ganhou as custas
da natureza, se ouve por todas as partes que o simbólico - como
a alienação - é eterno. Assim, as questões
sobre a origem e o destino não fazem sentido. Nada pode ser
traçado além do semiótico no qual tudo está
aprisionado.
Mas os limites da racionalidade dominante e os custos da
civilização são demasiado visíveis para
nós para aceitar esta espécie de retirada. Desde a
ascensão do simbólico, os humanos tentaram através
da participação na cultura recuperar uma autenticidade na
qual uma vez vivemos. A urgência constante ou busca pelo
transcendente testifica que a hegemonia da ausência é uma
constante cultural. Como encontrou Thomas McFarland (1987), “a
cultura principalmente testemunha a respeito da ausência de
significado, não a sua presença”.
O consumo em massa e insatisfatório, inserido entre os ditados
da produção e do controle social, reina cada dia como
consolo para esta ausência de significado, e a cultura é
certamente em si mesma uma escolha de consumo. Em sua base, é a
divisão do trabalho o que ordena nossa totalidade
simbólica falsa e mutiladora. “O aumento da
especialização…” escreveu Peter Lombas
(1996), “mina a confiança em nossa capacidade
ordinária para viver”.
Estamos capturados na lógica cultural que converte tudo em
objeto, já que aqueles que aconselham novos rituais e formas de
representação como rota para uma existência
re-encantada falham completamente em suas conclusões.
Dificilmente, mais do que falhou durante tanto tempo, pode ser a
resposta. Levi-Strauss (1978) referiu-se ao “tipo de sabedoria
que [os povos primitivos] praticavam espontaneamente e a
rejeição do que, no mundo moderno, é a loucura
real”.
A saúde não-simbolizante que uma vez existiu em todas
suas dimensões, ou a loucura e a morte. A cultura nos levou a
trair nosso próprio espírito e plenitude
aborígine, num reino cada vez mais degradado de
alienação sintética, isoladora e empobrecido. O
que não quer dizer que não tenha mais prazeres no dia a
dia, sem os quais perderíamos nossa humanidade. Mas à
medida que nosso empenho se faz mais profundo, vislumbramos quanto tem
de ser apagado para nossa redenção.