A Era da Angústia
Por John Zerzan
Um sentimento difundido de perda e mal-estar nos envolve, uma tristeza
cultural que somente pode ser comparada ao indivíduo que sofre
uma perda pessoal.
Um capitalismo hiper-tecnológico está fazendo desaparecer
a textura viva da existência, enquanto a maior mortandade em
massa do mundo, em 50 milhões de anos, continua em ritmo
acelerado: 50 mil espécies de plantas e animais desaparecem a
cada ano (WWF - Fundo Mundial pela Vida Selvagem, 1996).
Nossa angústia toma a forma de uma exaustão
pós-moderna, com sua dieta desgastante de um relativismo ansioso
e constante, e o apego a um superficial que teme em se ligar com o fato
de uma perda assombrosa. O vazio fatal do consumismo ironizado é
marcado pela perda de energia, dificuldade de
concentração, sentimentos de apatia, isolamento social;
exatamente aqueles citados na literatura psicológica sobre a
lamentação.
A falsidade do pós-modernismo consiste na negação
da perda, a recusa da lamentação. Desprovido de
esperança ou uma visão do futuro, o "zeitgeist" (de
origem alemã, significa um ambiente geral ou uma qualidade de um
período particular da história, mostrado por
idéias, crenças, etc comuns no tempo) reinante
também reduz explicitamente, uma compreensão do que
aconteceu e o por quê. Há uma proibição
sobre pensar as origens, que é acompanhada de uma
insistência no superficial, no momentâneo, no infundado.
Paralelos entre a angústia individual e uma esfera em comum
desolada e aflita estão enraizadas. Considere o seguinte
enunciado do terapeuta Kenneth Doka (1989): "A angústia
'deslegitimada' pode ser definida como a angústia que as pessoas
vivem quando sofrem uma perda que não é ou não
pode ser completamente admitida, publicamente lamentada, ou socialmente
apoiada". A negação de um nível individual fornece
uma metáfora inescapável; a negação
pessoal, tão freqüentemente e exaustivamente compreendido,
introduz a questão da recusa para se entender profundamente a
crise que ocorre em cada nível.
Introduzido no milênio estão vozes dos quais a marca
é a oposição da própria narrativa,
escapando de qualquer tipo de conclusão. O projeto modernista ao
menos fez sala para o apocalíptico; agora somos separados em
pairar para sempre num mundo de aparências e
simulações que assegura a ''rasura'' do mundo real e a
separação do eu e do social. Baudrillard é
obviamente emblemático sobre o "fim do fim", baseado no seu
prognóstico "extermínio do significado".
Devemos nos direcionar novamente para a literatura psicológica
para uma descrição apropriada. Deutsch (1937) examinou a
ausência de expressão de angústia que ocorre
após alguma perda e considerou isto uma tentativa de defesa do
ego de preservar a si mesmo face a uma ansiedade esmagadora. Fenichel
(1945) observou que a angustia é primeiramente experimentada em
doses muito pequenas; se fosse liberada em totalmente, o sujeito
poderia sentir um desespero esmagador. Similarmente, Grimspoon (1964)
notou que " as pessoas não podem arriscar sendo esmagadas pela
ansiedade, o que força acompanhadamente uma compreensão
cognitiva e afetiva total da situação atual do mundo e de
suas implicações para o futuro".
Com estes conselhos e cuidados em mente, é óbvio portanto
que a perda deve ser encarada. Tudo o mais, portanto, no reino da
existência social, onde em distinção de, digamos, a
morte de um ente querido, uma crise de proporções
monumentais deve ser direcionada para uma solução
transformadora, e não mais negada.
A repressão, mais claramente e presentemente experimentada via
fragmentação e superficialização
pós-moderna, não extingue o problema. "O reprimido", de
acordo com Bollas (1995) "significa o preservado: escondido na
tensão organizada do inconsciente, os desejos e suas
memórias estão constantemente lutando para achar algum
modo de satisfação no presente - o desejo refuta a
aniquilação."
A angustia é a contrariação e a
destruição do desejo e se assemelha muito a
depressão; de fato, muitas depressões são
precipitadas por perdas (Klerman, 1981). Ambos, angustia e
depressão devem ter a fúria em suas raízes;
considere por exemplo a associação cultural da cor preta
com a angustia, com o luto e com a fúria.
Tradicionalmente, a angustia tem sido vista como causadora do
câncer. Uma variação contemporânea sobre esta
tese é a noção de Norman Mailer de que o
câncer é a insalubridade de uma sociedade demente tornada
intima, estendendo-se nas esferas públicas e pessoais.
Novamente, uma plausível conexão entre angustia,
depressão, e fúria - e a evidência, penso eu, de
uma massiva repressão. Sinais são abundantes a respeito
do enfraquecimento de defesas imunes; juntamente com o crescimento dos
materiais tóxicos, parece existir um elevamento no nível
de angustia e de suas concomitantes. Quando o significado e o desejo
são tão dolorosos, tão desesperado para admitir ou
prosseguir, os resultados acumulados apenas somam na catástrofe
agora em expansão.
Olhar para o narcisismo, o modelo guia atual de caráter,
é olhar o sofrimento como um conjunto de mais e mais aspectos
próximos relacionados. Lasch (1979) escreveu sobre tais
características peculiares da personalidade narcisista em uma
inabilidade de sentir, superficialidade ou pouca profundidade
protetora, uma hostilidade repressora crescente, e um senso de
irrealidade e vazio. Desta forma, o narcisismo também poderia
ser agrupado sob o titulo da angustia, e uma ampla sugestão
surge com possível grande força: Existe algo
profundamente errado, algo no coração de toda esta
tristeza, porém , muito disto é comumente rotulado sob
varias categorias separadas.
Numa exploração de 1917, "Luto e melancolia", um perplexo
Freud questionou o porque que a memória de "cada único
individuo sobre as memórias e esperanças" que são
conectadas com a perda de um amado "devem ser tão
extraordinariamente dolorosas". Porém, lagrimas de angustia,
é dito, são basicamente lágrimas para si mesmo. A
intensa tristeza numa perda pessoa, trágica e difícil
como certamente é, deve ser de alguma maneira também uma
vulnerabilidade para a tristeza sobre uma mais geral e ampla perda (que
não abarca apenas nossa espécie).
Waslter Benjamim escreveu Theses on History ("Teses sobre a historia")
alguns meses antes de sua morte prematura em 1940, numa fronteira
fechada que evitava a fugas dos Nazistas. Quebrando os confinamentos do
marxismo e da literatura, Benjamim alcançou um ponto alto do
pensamento crítico. Ele viu que a civilização, a
partir de sua origem, é a tempestade que esvaziou o Eden, viu o
progresso como uma única e continua catástrofe.
A alienação e a angustia uma vez foram altamente,
senão inteiramente, desconhecida. Hoje o índice de
depressão profunda, por exemplo, dobra a cada dez anos nos
países desenvolvidos (Wright, 1995).
Como Peter Homans (1984) colocou habilmente bem, "O pesar não
destrói o passado - reabre as relações com o
passado e com as comunidades do passado". Uma mágoa autentica
coloca a oportunidade de entender o que tem sido perdido e o porque, e
também requer a recuperação de um estado de ser
inocente, no qual a perda desnecessária é banida.
Tradução: Erva Daninha - iniciativa anticivilização