Inimigo do Estado.
Entrevista com John Zerzan
por Derrick Jensen
Anarquia
não significa caos. De acordo com o anarquista John Zerzan,
anarquia é uma sensível resistência contra a
subjugação de nossas vidas.
Após os protestos
anti-capitalistas em Seattle terem pegado o mundo de surpresa, um
grande número de jornalistas procuraram por um teórico
anarquista de voz calma da cidade de Eugene, no estado de Oregon (EUA),
para obter respostas.
Na verdade, John Zerzan, cuja
idéias tiveram muita influência em muitos dos jovens que
protestaram, pode agora reivindicar a suspeita honra de ser o
anarquista americano mais famoso. Toda esta atenção
não causou nada à visão suave de Zerzan de que a
sociedade moderna tem subjugado as pessoas ao ponto onde não
podem mais ver as grades de sua prisão. Nesta entrevista, o
radical de 57 anos explora as raízes da dominação,
a sutil coerção do relógio, e sua esperança
de um futuro sem progresso.
Agora que a
mídia tem descoberto o anarquismo, parece haver mais e mais
confusões sobre o que anarquismo significa. Como você
define anarquismo?
Eu diria que anarquismo é a
tentativa de erradicar todas as formas de dominação. Isto
inclui não somente as formas obvias de dominação
como as nações-estados, com seu uso rotineiro da
violência para impor as leis, e como as
corporações, com sua irresponsabilidade
institucionalizada, mas também as formas internalizadas como o
patriarquismo, racismo, homofobia. Além disso, anarquismo
é a tentativa de procurar mesmo naquelas partes de nossas vidas
diárias que aceitamos como normais, como partes do universo,
para ver como elas, também, nos domina ou facilita nossa
dominação pelos outros.
Mas existe uma
condição que ja existiu na qual as relações
não eram baseadas em dominação?
Esta foi a condição
humana por pelo menos 99% de nossa existência como
espécie, que foi antes da aparição dos
homo-sapiens, por pelo pelo alguns milhões de anos atrás,
até talvez apenas 10.000 anos atrás, com o surgimento da
primeira agricultura e assim a civilização.
Desde o tempo que nós temos
trabalhado duramente para convencer nós mesmos de que nenhuma
outra condição existiu, porque se nenhuma outra
condição existiu, seria fútil trabalhar por ela
agora. O melhor a fazer é aceitar a repressão e
subjugação que define nosso modo de viver como
antídotos necessários contra a "terrível natureza
humana". afinal, de acordo com esta linha de pensamento, nossa
existência pré-civilizada de depravações,
brutalidade e ignorância fez a autoridade como uma dádiva
que nos recuperou da selvageria.
Pense nas imagens que vem a mente
quando mencionamos os termos "homem das cavernas" ou "Neanderthal".
Tais imagens são implantadas e invocam a lembrança de
onde estaríamos sem religião, sem governo, sem trabalho
duro, e são provavelmente as grandes justificativas
ideológicas para toda a bagagem da civilização -
armas, religião, lei, o Estado.
O problema com tais imagens,
obviamente, é que elas estão inteiramente erradas. Nos
últimos 20 anos têm ocorrido uma verdadeira
revolução nos campos da antropologia e da arqueologia e
cada vez mais pessoas estão entendendo que a vida antes da
agricultura e da domesticação - na qual para domesticar
os outros domesticamos a nós mesmos - foi de fato
uma vida de laser, intimidade com a natureza, sabedoria sensual, igualdade sexual, e saúde.
Como podemos saber disto?
Em parte através da
observação de povos coletores modernos - os que ainda
não eliminamos - e observando seus modos igualitários
desaparecerem sobre as pressões da destruição
ambiental e muitas vezes pela coerção direta ou
assassinato. Também, em outros extremos na escala de tempo,
através de pistas arqueológicas. Um exemplo disto tem
relação com o compartilhar que agora tem sido entendido
ser o tom fundamental característico dos povos não
domesticados. Se você estudar o círculo familiar dessas
regiões dos povos antigos. e achar um acampamento que possui
mais recursos e outro que possui menos , entendera que o primeiro
é o acampamento chefe, mas se freqüentemente você
observa que todos os acampamentos possuem a mesma quantidade de coisas,
o que começa a surgir é uma imagem de um povo cujo o modo
de vida se baseia em compartilhar. E é isso o que é
constantemente encontrado em acampamentos pré-neoliticos. Um
terceiro modo de saber é baseado nos relatos dos primeiros
exploradores europeus, que repetidamente falam da generosidade e da
bondade dos povos que encontravam. E isto é verdadeiro ao redor
de todo o mundo.
Como você responderia as pessoas que dizem que isto é simplesmente o mito Rousseauniano do bom selvagem?
Eu respeitosamente sugiro que leiam
mais sobre o assunto. Isto não é uma teoria anarquista.
isto é de conhecimento comum na antropologia e na arqueologia.
pode haver desacordos em alguns detalhes, mas não na estrutura
geral.
Se as coisas eram tão boas antes, porque a agricultura surgiu?
Esta é uma questão
muito difícil, porque em centenas de milhares de anos houve
pouca mudança. o que tem sido uma fonte de
frustração para estudiosos na antropologia e na
arqueologia: Como pode haver zero de mudança por centenas de
milhares de anos - todo era paleolítica média e baixa - e
de repente até certo ponto no paleolítico superior existe
esta explosão,aparentemente do nada?
Você repentinamente tem arte, e na seqüência, agricultura.
Eu penso que este período foi
estável porque funcionava, e penso que isto mudou porque
há muitos milênios havia um tipo de desvio lento para a
divisão de trabalho. Isto aconteceu muito lentamente - na maior
parte de forma imperceptível - aqueles povos não podiam
ver o que estava acontecendo, ou o que estavam em perigo de perder. A
alienação trazida pela divisão de trabalho -
alienação um do outro, do mundo natural, dos seus corpos
- alcançou então algum tipo de quantidade crítica,
dando ascensão a sua apoteose que conhecemos como
civilização. Assim, como a civilização por
si mesma tomou força, penso no que Freud acertou uma quando ele
disse que a "civilização é algo que foi imposto a
uma maioria resistente por uma minoria que entendia como obter
possessão dos meios de poder e coerção". Isto
é o que vemos acontecer hoje, e não há
razão para acreditar que foi um pouco diferente alguma vez.
O que tem de errado com a divisão do trabalho?
Se seu objetivo maior for
produção em massa, não têm nada de errado.
Isto é central para o nosso modo de vida. Cada pessoa interpreta
uma minúscula engrenagem nesta grande máquina. Se, por
outro lado, seu objetivo principal seja uma relativa plenitude,
igualdade, autonomia, ou um mundo intacto, existe muita coisa errada
com isso.
Eu penso que de forma fundamental uma
pessoa não é completa ou livre na medida em que a vida
desta pessoa e todo o seu meio circundante, depende desta pessoa ser
apenas um aspecto de todo o processo, uma fração disto.
Uma vida dividida reflete as divisões básicas na
sociedade e tudo isso começa aqui. A hierarquia e a
alienação começa com a divisão de trabalho
por exemplo. Não creio que alguém poderia duvidar
do controle efetivo que os especialistas e experts possuem no mundo
contemporâneo. E não creio que alguém argumentaria
que este controle não estaria aumentando de forma cada vez mais
acelerada.
Mas humanos são animais sociais. não é necessário para nós nos relacionar um com os outros?
É importante entender a
diferença entre a interdependência de uma comunidade e a
forma de dependência que surge de relações com
outras pessoas que possuem habilidades especializadas que você
não tem. Eles agora tem poder sobre você. Não
importa se sejam "benevolentes".
Em adição ao
controle direto daqueles que têm habilidades especializadas,
existe um tanto de mistificação daquelas habilidades.
Parte da ideologia da sociedade moderna é que sem isso,
você estaria completamente perdido, você não saberia
como fazer simples coisas. bem, humanos têm se alimentado pelo
últimos milhões de anos, e fazendo isto com muito mais
sucesso e eficiência do que fazemos agora. O sistema global de
alimentos é insano. Isto é incrivelmente desumano e
ineficiente. Gastamos o mundo com pesticidas, herbicidas, os efeitos
dos combustíveis fósseis para transportar e armazenar
comida, e por ai vai, e literalmente milhões de pessoas passam
suas vidas sem ter o que comer. Mas poucas coisas são mais
simples do que cultivar ou coletar seu próprio alimento.
Você tem dito que também somos dominados pelo próprio tempo.
O Tempo é uma
invenção, um artefato cultural, uma
formação da cultura. O tempo não existe fora da
cultura. E é uma excelente comparação exata de
alienação.
Como assim?
Tudo em nossas vidas é medido
e controlado pelo tempo - mesmo os sonhos, de maneira que os
forçamos a se encaixar num mundo de trabalho diário, de
despertadores e planejamentos. isto é realmente incrível
quando você pensa que isto não existia a algum tempo
atrás.
Mas espere um
segundo. Não é sobre o quão palpável
o tick tick tick de um relógio você pode considerar?
Eu realmente admiro o que a
antropóloga Lucien Levy-Bruhl escreveu sobre isso: "Nossa
idéia de tempo parece ser um atributo natural da mente humana.
Mas isto é uma ilusão. Deste modo é uma
idéia que raramente existe onde a mentalidade primitiva é
a questão."
O que isso significa?
De modo bem simples, é que
eles vivem no presente, o que todos nós fazemos quando estamos
nos divertindo. Isto tem sido dito dos Mbuti da África do
Sul que acreditam que "por uma correta realização do
presente, o passado e o futuro cuidam de si mesmos"
Que ótimo conceito!
Os povos primitivos geralmente
não têm interesse em aniversários ou em contar suas
idades. Igualmente pelo futuro, eles tem pouco desejo em controlar o
que ainda não existe, assim como eles tem pouquíssimo
desejo em controlar a natureza. Tal viver momento-a-momento junto com o
fluxo do mundo natural, obviamente não impediria uma
consciência das estações, mas de maneira
alguma constitui um tempo consciente alienado que os tomam do
presente. O que estou falando é difícil para nós
abrigar em nossas mentes porque a noção de tempo
têm sido tão profundamente inculcado que as vezes é
difícil imaginar isto não existir.
Você não esta falando sobre medir segundos...
Estou falando sobre o tempo
não existir. O tempo, com uma "linha" continua abstrata que se
desenrola numa infinita progressão que liga todos os eventos e
permanece independente dele. O tempo não existe.
Seqüência existe. Ritmo existe. Mas não o tempo.
Parte disso tem haver com a noção de
produção em massa e com a divisão de trabalho. O
tick, tick, tick, como você disse. Segundos idênticos.
Pessoas idênticas. Refrões idênticos repetidos
infinitamente. Bem, dois acontecimentos não são
idênticos, e se você vive em uma corrente de
experiência intima e externa que constantemente traz uma
quantidade de novos eventos, cada momento é qualitativamente e
quantitativamente diferente do momento anterior. A noção
de tempo simplesmente desaparece.
Ainda estou confuso.
Você pode tentar isto: se os
eventos são sempre novos, este tempo não apenas poderia
fazer a rotina impossível, a noção de tempo seria
insignificante.
E o oposto poderia ser equivalente.
Exatamente. Penas com a
imposição do tempo podemos impor a rotina. O
século XIV presenciou os primeiros relógios
públicos, e também a divisão de horas em minutos e
segundos. O desenvolvimento do tempo foi agora totalmente
permutável assim como as partes padronizadas e o processo de
trabalho necessário ao capitalismo.
A cada passo do modo desta
subserviência ao tempo foi de encontro com a resistência.
Por exemplo, nas lutas inicias na França na
revolução de julho de 1830, todo o povo de Paris
começaram de forma espontânea a atirar nos relógios
públicos. Na década de 1960, muitas pessoas , incluindo
eu, deixaram de usar relógios.
Nos meus 20 anos, eu convidava os visitantes que entravam em minha casa a retirar o relógio.
Mesmo hoje as crianças devem
romper com suas resistência ao tempo. Isto foi uma das
razões primárias pela imposição do sistema
de obrigação escolar em larga escala entre as pessoas
relutantes. A escola ensina a você estar em certo lugar em certo
tempo, e prepara você para a vida na fabrica, calibrando
você ao sistema. O situacionista Raoul Vaneigem tem uma
maravilhosa citação sobre isso: "Os dias de
criança desvencilha-se do tempo adulto; o seu tempo é
expandido pela subjetividade, paixão, sonhos freqüentados
pela realidade. Por outro lado, o educador é um mero espectador,
esperando, vigiando, até a criança entrar e se ajustar ao
ciclo das horas"
O tempo é importante
não apenas sociologicamente e ecologicamente, mas também
pessoalmente. Se eu pudesse compartilhar outra citação,
seria de Wittgenstein (filosofo australiano): "Apenas um homem que vive
não no tempo mas no presente é feliz".
No ano passado eu apreciei um relato
do século XVIII do explorador Samuel Hearne, o primeiro
homem branco a explorar o norte do Canadá. Ele descreveu as
crianças indígenas brincando com filhotes de lobos. As
crianças podiam pintar as faces dos filhotes de vermelho, e
quando acabavam de brincar com eles , retornavam sem nenhuma
lesão para a toca. Nem os filhotes nem os pais dos filhotes
pareciam se preocupar.
Agora atiramos neles de aeroplanos. Isto é o progresso.
Mais diretamente, o que o progresso tem significado na prática?
O progresso tem significado um
espectro da completa desumanização do indivíduo e
a catástrofe do colapso ecológico. Eu acredito que exista
cada vez menos pessoas que acreditam em progresso, mas provavelmente
ainda existam muitos que entendem o progresso com inevitável.
Nós somos certamente condicionados por todos os lado a aceitar
isso, e somos reféns disso.
Se cada vez menos pessoas acreditam no progresso, o que tem substituído essa crença?
Inércia, é isto.
Tratado com isso, ou mesmo tido distorcido. Você não ouve
mais tanto sobre o Sonho Americano, ou o glorioso novo amanhã.
Agora isto é uma corrida global ao fundo assim como as
corporações competem para ver qual pode explorar ainda
mais os trabalhadores e degradar mais o ambiente. Tal
competição funciona em nível pessoal
também. Se você não se conecta a um computador
você não tem um emprego. isto é progresso.
Para onde isto nos levara?
Eu sou otimista , porque nunca antes todo o nosso estilo de vida tem sido reavaliado por tudo que ele é.
Agora que vemos isto, o que há para se fazer?
A primeira coisa é questionar
isso, fazer certa parte do discurso da sociedade - se não toda
parte - lidar com essa questão de vida e morte, ao invés
de evitar ou negar o que caracteriza tanto o que se passa por discurso.
E acredito , mais um vez, que a negação não
poderá suportar por mais tempo, porque há tamanho
contraste entre a realidade e o que é dito sobre a realidade.
Especialmente neste pais.
Talvez, e este é o
cenário de pesadelo, tal contraste pode continuar para sempre. O
Manifesto Unabomber posiciona esta possibilidade: As pessoas podem se
tornar tão condicionadas que eles não mais saberiam que
não existe mais um mundo natural, liberdade, plenitude, nada.
Você simplesmente toma seu Prozac todo dia, vacilante, indigesto
e neurótico, e avaliar que é tudo o que há.
Então, como você vê o futuro ?
Estava conversando com um amigo sobre
isso, e ele estava dando razões sobre o porque que o futuro
não será bom, ou mesmo sobre uma direção
aberta para um bom futuro. Não pude dizer que ele estava errado,
mas como eu mencionei antes, eu sou otimista quanto a apostar que o
empobrecimento visível em todos os níveis levará
as pessoas a algum tipo de questionamento sobre o que estamos
conversando, e leva a juntar forças que irão confrontar
isso. Eventualmente agora nós estamos no escuro que precede o
amanhecer. Me lembro quando Herbert Marcuse escreveu O Homem
Dimensional . Isto foi em 1964, e ele estava dizendo que humanos
são tão manipulados na sociedade consumista moderna, que
realmente não possa ter esperança por mudança. E
assim, em alguns anos, as coisas se tornaram agradavelmente
interessantes, as pessoas acordaram dos anos 50 para criarem os
movimentos dos anos 60. Acredito que tendo escrito este livro um pouco
depois ele seria um pouco mais positivo.
Eventualmente, os anos 60 ajudou a
formar meu próprio otimismo. Eu estava próximo de uma
época perfeita. Eu estava em Stanford na universidade, e
então me mudei para Haight Ashbury, e Berkley . Eu estive em
situações interessantes porque eu estava no lugar certo
na hora certa. Eu concordo com as pessoas que dizem que os anos 60
não chegaram mesmo a arranhar a superfície, mas temos que
admitir que algo estava acontecendo. E você poderia se
vislumbrar, uma sensação de possibilidade, uma
sensação de esperança, de que as coisas
estão caminhando, existia uma chance de encontrarmos um caminho
diferente.
não encontramos, mas ainda
apoio tal possibilidade, e isto me fortalece, mesmo apesar de 30 anos
depois as coisas estarem frias e terríveis. As vezes fico
pasmado de que as pessoas jovens não podem fazer nada, ou
não têm nenhuma esperança, porque não estou
certo de que eles estão vendo qualquer desafio que possa ser
vencido , mesmo que parcialmente.
O que você quer de sua vida e de seu trabalho?
Eu gostaria de ver uma comunidade
face-a-face, uma existência intima, onde as
relações não são baseadas em poder, e dessa
maneira sem divisão de trabalho. Eu gostaria de ver uma mundo
natural intacto e gostaria de viver como um ser humano pleno. E
gostaria disso para as pessoas ao meu redor.
Mais uma vez, como podemos chegar até lá a partir daqui?
Não tenho idéia. Isto
pode ser tão simples quanto as pessoas ficarem indo de casa para
o trabalho. Foda-se isso. Guarde sua energia. O sistema não pode
continuar sem nós. Ele precisa sugar nossa energia. Se as
pessoas pararem de responder ao sistema, ele estaria vencido.
Mas se pararmos de
responder, se realmente decidirmos não continuar com isso,
não estaríamos vencidos também, porque o sistema
iria nos destruir?
Certo. Isto não é
fácil. Se isso fosse fácil, as pessoas poderiam ficar em
casa, porque isso é um tanto enfadonho continuar com esta
rotina miserável numa crescente cultura vazia. Mas uma
questão que sempre temos que manter em mente é que:
Estamos domesticados, mas de qual maneira estamos mais domesticados?
Recentemente tive uma conferencia na Universidade de Oregon na qual
falei muito sobre estes tópicos. Perto do fim , eu disse "Eu sei
que um chamado para esse tipo de subversão do sistema soa
ridículo, mas a única coisa que posso pensar é que
é cada vez mais ridículo deixar o sistema continuando."
Como sabemos que
toda a alienação que observamos ao nosso redor levara a
um colapso e a um rejuvenescimento? Por que não levaria a mais
alienação?
Esta é a questão do
como o estrago é reversivel. As vezes - e não acredito
que seja muito uma aceitação ou recusa - as vezes
na história as coisas são revertidas em um momento quando
o mundo físico penetra o bastante contra a gente nos deixando
desequilibrados. Raoul Vaneigem se refere a uma pequena coisa muito
agradavel que me da uma tremenda esperança. Os cachorros no
laboratório de Pavlov foram condicionados por centenas de horas.
Eles foram intensamente treinados e domesticados. Aconteceu uma
inundação no local. E você sabe o que aconteceu?
Eles se esqueceram de todo seu condicionamento num piscar de olhos.
Seriamos capazes do mesmo feito. Eu fixo minha vida nisso, e é
em direção a este fim que dedico meu trabalho.