Jogue intensamente! Nossas vidas estão em jogo!
A Prática Anarquista como um Jogo de Subversão
por Wolfi Landstreicher
Quando pela primeira vez entrei em contato com as idéias
anarquistas nos finais dos anos 70 e pelo começo da
década de 80, era um tanto comum falar sobre jogar e o jogo
subversivo, graças à influência da Internacional
Situacionista e dos melhores aspectos da contracultura. Há muito
para ser desenvolvido, nestes termos, do pensamento à
prática. Particularmente, penso que olhar a prática
anarquista revolucionária como um jogo subversivo é um
modo frutífero de entendimento dos objetivos, princípios
e metodologia anarquista como uma base para desenvolver nossas
estratégias e práticas.
O que tem distinguido o anarquismo de outros conceitos de
transformação radical é que os anarquistas
geralmente têm considerado suas idéias algo para ser
vivido aqui e agora o tanto quanto for possível, bem como que os
seus objetivos sejam realizados em uma escala global. Enquanto
certamente devem existir anarquistas que escolheram transformar suas
perspectivas em mera política, a idéia de viver a
anarquia imediatamente dá ao anarquismo um alcance que vai muito
além dessas visões limitadas, abrindo-o para a totalidade
da vida.
Esse aspecto do anarquismo é o que faz a prática
anarquista parecer um jogo. Deixe-me explicar. Um jogo pode ser
descrito como uma tentativa de conseguir um objetivo especifico usando
somente aqueles meios que se adequaram a certas condições
aceitas por aqueles envolvidos pelo prazer que encontram em seguir tais
condições, mesmo que elas diminuam a eficiência.
O objetivo da prática anarquista seria conseguir um mundo livre
de todas as dominações, sem estado, economia ou as
várias instituições através das quais nossa
atual existência é definida. Eu não posso afirmar
saber qual é o modo mais eficiente para conseguir isto. A partir
de um ponto de vista anarquista, ainda não houve uma
revolução bem sucedida, então não temos
modelos de eficiência. Mas, para aqueles que desejam este fim,
não por causa de um senso de obrigação moral, mas
sim como uma reflexão em uma grande escala do que querem
imediatamente, para suas próprias vidas, pequenos
cálculos de eficiência para conseguir estes fins
são raramente uma prioridade. Eu sei que eu prefiro tentar
conseguir este fim de modo que me dê o prazer imediato de tomar
de volta minha vida aqui e agora em oposição a ordem
social que anseio em destruir.
Aqui é onde os "princípios" anarquistas - as "regras" do
jogo - entram. A recusa em escolher mestres, promover leis, negociar
com o inimigo, etc. são baseados no desejo de fazer com que
nossas vidas sejam de nós mesmos, aqui e agora, jogar este jogo
num modo que nos dá alegria imediata. Portanto escolhemos estas
"regras" não por causa de um senso de obrigação
moral, nem porque são os modos mais eficientes de conseguir
nossos objetivos, mas, preferivelmente, pelo prazer que temos em viver
nessas condições.
Nesta perspectiva, nós também podemos entender o
porquê, na área da concessão, é imposta a
nós de modo forçado - o reino da sobrevivência num
mundo baseado em relações econômicas, o qual sempre
é o oposto à totalidade da vida - nós iremos
escolher qualquer método necessário para nos manter
vivos. (De qual outra forma poderíamos jogar este jogo?) Mas
iremos fazer o que a necessidade nos impõe nesta
situação (trabalho, roubo, fraude, etc.) como medidas
temporárias para sustentar nossas capacidades de tomar de volta
nossas vidas e lutar pelo mundo que desejamos, mantendo nossa rebeldia
frente a estas imposições. Isto, de fato, é um
aspecto do jogo subversivo na prática, contornando as
imposições deste mundo contra ele. Aqui, sinto que seria
bom desenhar uma distinção entre o fora-da-lei
(criminoso) e o anarquista que esta jogando o jogo da subversão.
Obviamente, todo anarquista,
em algum grau, é um criminoso, desde que rejeitamos a
idéia de que nossas atividades poderiam ser determinadas dentro
da lei. Mas, a maioria dos criminosos não estão jogando o
jogo da subversão. Ao invés disso eles estão,
centrados no muito mais imediato jogo de passar a perna nas
forças da ordem sem procurar destruí-las.
Para o anarquista revolucionário criminoso, este jogo imediato
é simplesmente uma pequena parte de um jogo muito maior. Ele
está fazendo um empreendimento muito maior do que o do "crime"
imediato. Ele está agarrando sua vida no lugar de usar o crime
para agarrar o mundo.
Portanto, este jogo combina o objetivo de destruir a ordem dominante
para que possamos construir um mundo livre de toda
dominação com o desejo de termos nossas vidas aqui e
agora, criando isto o tanto quanto for possível em nossas
próprias condições. Isto aponta para uma
metodologia da prática, uma série de recursos que
refletem o nosso desejo imediato de viver nossas vidas de nossa
própria maneira. Esta metodologia pode ser resumida como se
segue:
1- Ação direta- Atuar por nós mesmos por aquilo
que nós desejamos no lugar de delegar o agir para um
representante.
2- Autonomia - Recusar em delegar a tomada de decisões a
qualquer corpo organizacional; organizações serviriam
apenas como coordenação de atividades em projetos e
conflitos específicos.
3- Conflito permanente - Batalha continua pelos nossos objetivos, sem nenhuma concessão.
4- Ataque - A não mediação,
pacificação ou sacrifício; a não
limitação de nós mesmos a uma mera defesa ou
resistência, e sim almejar a destruição do inimigo.
Esta metodologia reflete o objetivo ultimo e o desejo imediato da prática anarquista revolucionária.
Porém, se estamos considerando esta prática como um jogo,
é necessário entender que tipo de jogo é este.
Nós não estamos lidando com um jogo no qual dois ou mais
oponentes estão competindo entre si num esforço de
conseguir o mesmo objetivo. Em tal jogo, existe lugar para a
negociação e concessão. Ao contrario disto, o jogo
subversivo é um conflito entre dois objetivos absolutamente
opostos, o objetivo de dominar tudo e o objetivo de colocar um fim a
dominação. No final das contas, a única maneira
que este jogo poderia ser ganho é através de um lado
destruir completamente o outro. Portanto, não há lugar
para concessões ou negociações , especialmente
não para os anarquistas que estão claramente em
posição de fraqueza onde a "concessão" poderia ser
, de fato, deixar esmagar.
Os objetivos, princípios, metodologia e o entendimento da
natureza da batalha juntos, descreve o jogo anarquista
revolucionário. Assim, como qualquer jogo, é a partir de
suas bases que vamos desenvolver táticas e estratégias.
Sem essas bases, falar de estratégias e táticas é
apenas falar. Enquanto táticas é algo sobre o que
conversamos em contextos onde se deve decidir quais movimentos se deve
fazer em pontos específicos, é possível falar de
estratégia de um modo mais generalizado. Estratégia
é a questão de como conseguir um objetivo.
Isto requer uma compreensão de vários fatores.
Primeiramente qual é o contexto no qual se está tentando
conseguir estas metas? Que relação os objetivos têm
com o contexto? Quais meios estão disponíveis para
conseguir estes objetivos? Quem poderia agir como cúmplice neste
esforço?
Estas questões assumem uma interessante mudança para os
anarquistas, porque nosso objetivo (a erradicação de
todas as dominações) não é algo que
queremos para um futuro distante. Sem ser bons cristãos,
não estamos interessados em nos sacrificar para as futuras
gerações. Mais propriamente, nós queremos
experimentar este objetivo imediatamente em nossas vidas e em nossas
batalhas contra a ordem dominante. Portanto, precisamos examinar estas
questões nas condições desses duplos aspectos de
nossas metas.
A questão do contexto envolve a analise do amplo contexto
global, a natureza das instituições dominantes, as amplas
tendências que são desenvolvidas e os potenciais pontos de
fraqueza e áreas de rupturas da ordem dominante. Isto
também envolve examinar o contexto imediato de nossas vidas,
nossas relações e encontros voluntários e
involuntários, o terreno que no momento estamos atravessando,
nossos projetos imediatos e por ai vai.
O relacionamento entre o que estamos empenhados e o contexto geral
desta ordem social é parte do conflito Total. Porque nós
estamos empenhados não apenas na destruição da
dominação, mas também estamos empenhados em viver
imediatamente contra a dominação, nós somos
inimigos desta ordem.
Já que parte de nossos objetivos é ter o controle der
volta de nossas vidas aqui e agora, nossos meios precisam incorporar
isto. Em outras palavras, qualquer meio que envolve renunciar o
controle de nossas é prontamente uma derrota. Mas isto é
onde se torna necessário distinguir quais atividades constituem
uma renúncia (votar, demandas, petições, negociar
com o inimigo) e aquilo que poder ser incorporado na
reapropriação da vida e atacar contra as
instituições de dominação (como por exemplo
trabalho temporário, certos tipos de golpes, etc. que dão
acesso a certos recursos, informações e habilidades que
são úteis numa prática subversiva).
Nosso cúmplice pode ser qualquer pessoa, indiferente se esta
pessoa tem uma consciência anarquista critica ou
não, que use meios que correspondem aos nossos em suas
batalhas especificas contra o que o domina e oprime - meios
através dos quais estão ativamente controlando suas vidas
e lutas como suas prontamente. E nossa cumplicidade duraria enquanto
eles utilizassem tais meios, e terminaria no momento que eles abrissem
mão de sua autonomia ou começassem a negociar com os
dominantes. Tendo estabelecido estas bases, aqui estão algumas
áreas para discussão de estratégias:
Sobrevivência vs. a totalidade da vida - estratégias para
aniquilar continuamente o domínio da sobrevivência sobre
nossas vidas, para fazer nossos projetos e desejos determinarem como
nós lidamos com a sobrevivência o máximo
possível - por exemplo: quando alguém precisa de um
emprego, usar isto contra a instituição do Trabalho e
Economia através da expropriação, desviar e doar
coisas, sabotar, usando isto como uma escola livre para captar
técnicas para seu projeto, sempre vendo isto como um meio
temporário para os seus objetivos e estando preparado para sair
assim que desejar.
Solidariedade - Existem dois aspectos distintos sobre isto. 1- Existem
muitas explosões de conflito social que refletem parcialmente o
desejo de retomar a vida de volta e destruir a dominação,
e que usa uma metodologia como a que foi descrita acima, mas sem uma
critica total consciente da parte dos participantes. Como podemos
conectar nossa consciência e o conflito continuo com a ordem
dominante com estas explosões de conflito numa maneira que
combine com nossos objetivos, "princípios" e metodologia,
já que o evangelismo e a "liderança moral" batem de
frente com estes "princípios" nos tornando em fantoches de uma
causa que estamos defendendo? Precisamos pensar em termos de
cumplicidade e honestidade. 2- Há também os momentos
quando o inimigo apanha algum companheiro e cúmplice e o
aprisiona. Existe um habito, nesta situação, de cair em
uma estrutura de suporte/trabalho social/caridade. Em termos de nossos
objetivos e desejos, eu penso que isto é um grande erro. Sem
negar a necessidade em construir fundos de segurança e manter
comunicação aberta, a nossa questão primordial
é como tornar esta situação em uma maneira de
atacar a ordem dominante. As atividades anti-prisão do grupo
francês Os Cangaceiros¹ nos oferecem alguns nutrientes para
pensarmos nisso.
Rupturas diárias, em pequena escala - Existem eventos que
acontecem diariamente numa pequena escala que causam rupturas
temporárias na rotina social. Como podemos então usar
esta subversidade contra esta ordem, expor a realidade desta sociedade
e abrir outras possibilidades? Como podemos criar tais rupturas numa
maneira que destrua a submissão e a aceitação da
normalidade?
Rupturas de larga escala - Desastres, revoltas, levantes locais e
regionais todos causam rupturas que podem revelar um grande evento na
ordem dominante e que move as pessoas para a auto-atividade,
generosidade e uma rejeição temporária da ordem
moral desta sociedade. Como podemos aproveitar tais
situações de maneira conveniente? O que podemos fazer
para ajudar a estender a compreensão e a rejeição
da ordem moral para além do momento? Como podemos expor os
vários políticos e burocratas da ruptura - partidos
políticos, lideranças sindicais, militantes e ativistas -
sem passar por cima como mais um desse meio parasita?
Portanto, há um jogo vasto e desafiante diante de nós, o
qual eu acredito que poderia transformar nossas vidas em algo
maravilhoso. É um jogo que nós devemos jogar
intensamente, pois neste jogo nossas vidas estão em jogo.
Não há garantias nem métodos certos para ganhar.
Mas para cada um de nós, como individuo existe um modo
infalível de perder. Que é de fato ceder, se submeter ao
que esta ordem dominante impõem. Quem está pronto para
jogar?
Publicado na Green Anarchy #23
Notas: 1- Os Cangaceiros foram um grupo de revolucionários
franceses que emergiram das revoltas dos estudantes, trabalhadores e
das ocupações em maio de 1968 na França.
Reivindicavam o "fim da política". Não tinham
estrutura formal, era um coletivo formado por desejos
individuais. Viviam de forma nômade criando vários squats
e usavam o "crime contra o capital". Como suas
ações os levavam frequentemente à ilegalidade e
muitas vezes a cadeia, compreenderam a importância dessas
estruturas, com o tempo suas ações foram concentradas
contra as prisões, usando sabotagem contra as prisões e
contra as construções de futuras prisões, roubo de
projetos de novas prisões e o incentivo de rebeliões
e destruição das prisões. (N.d.t.)