MAXIMALISMO ANARQUISTA / ANARQUISMO MAXIMALISTA
por John Moore
Na Rússia pré-revolucionária, Os socialistas
revolucionários se dividiram em duas facções, os
radicais e os moderados. Os primeiros eram conhecidos como Maximalistas
, e os últimos como Minimalistas.
Eu gostaria de usar esta terminologia para identificar duas tendências gerais no anarquismo contemporâneo.
A minha intenção não é adicionar isto nas
57 variedades de anarquismos existentes. O anarquismo possui um amplo
espectro de posições: Individualistas, comunistas,
mutualistas, coletivistas, primitivistas e por ai vai. O foco neste
ensaio não é nas variações e
mudanças nas ênfases na qual resultam em
diferenciações de posições. Mas sim , nos
objetivos permanentes que ajudam a clarear, a prover uma grade
interpretativa, um mapa no qual permitirá indivíduos
perceberem o desafio do anarquismo e se situarem nisto.
Anarquismo Maximalista inclui as formas de anarquismos que almejam ao
exponencial comprometimento, desafio e abolição do poder.
Tal projeto envolve um compreensivo questionamento da totalidade - a
totalidade das relações de poder e o conjunto das
estruturas de controle as quais encorporam estas relações
- ou o que, por propósitos taquígrafos, chamo de complexo
de controle. O poder não é visto como algo localizado em
qualquer instituição como patriarquia ou o Estado, mas
como algo infiltrado na vida cotidiana. O foco do maximalismo dessa
forma permanece no desmantelamento do complexo de controle, da
totalidade, da vida estruturada pelo domínio e pela
coerção, do poder em si mesmo em todas as suas
múltiplas formas.
Dado a infiltração do poder e sua capacidade de insinuar
a si mesmo em todas as formas de relações e
situações (mesmo nas mais intimas e aparentemente
despolitizadas), a perspectiva maximalista envolve um questionamento
impiedoso de todos os aspectos da vida diária. Tudo esta aberto
ao questionamento e ao desafio. Nada é uma "zona proibida" para
a investigação e revisão. O poder, em todas suas
formas manifestas e sutis, deve ser desenraizado para a vida se tornar
livre. O maximalismo permanece implacavelmente iconoclasta,
não apenas quando entra em contato com aqueles ícones que
são vestígios do anarquismo clássico ou dos modos
inicias de radicalismo (trabalho, trabalhismo, história) ou os
ícones característicos do anarquismo contemporâneo
(o primitivo, comunidade, desejo, e , acima de tudo, a natureza). Nada
é sagrado, muito menos todos os lemas reificados e fetichistas
do anarquismo. O maximalismo requer uma renovação e
extensão do projeto Nietzcheista da superação de
todos os valores, de modo que abra possibilidades para novos modos de
pensamento, de percepção, comportamento,
ações e modos de vida, na limitada epistemologia e
ontologia anarquista.
Em contraste, o anarquismo minimalista inclui as formas de anarquismos
que não fizeram o avanço pós-situacionista rumo
às posições maximalistas apresentadas acima. A
partir das perspectivas revolucionárias do maximalismo, o
anarquismo minimalista se mostra reformista, incapaz ou sem vontade
e/ou relutante em romper com o complexo de controle em sua integridade,
ou inadequado ao projeto de criar uma vida livre através da
erradicação de todas as formas de poder,
consequentemente condenados ao fracasso. O maximalismo permanece
radical num senso etimológico de pegar as raízes do
problema, enquanto o minimalismo permanece preparado em acomodar a si
mesmo nas formas de poder que acha conveniente ou relutante em
confrontar. O minimalismo permanece simulado na política
nostálgica do "apenas se...", Enquanto o maximalismo atua na
anti-política da ciência visionária da
questão " O que, caso...? "
A prioridade urgente do maximalismo constitui no desenvolvimento e na
implementação de uma psicologia anarquista. Outras
dimensões do projeto anarquista permanecem auxiliares a este
objetivo. Abandonando a bagagem da racionalidade Iluminista, o
maximalismo precisa reconhecer que os seres humanos são
primeiramente e em sua maior parte criaturas de paixões e
irrracionalidade, e apenas secundariamente seres racionais. Central
para a emancipação da vida da domínio e do
controle situa-se na exploração do desejo e do livre, na
alegre busca das linhas de interesse individuais. Mas num mundo
definido e determinado pelo complexo de controle, o desejo e o
interesse são deformados, limitados e canalizados em formas que
maximizam o lucro e o controle social.
Para combater este processo, os maximalistas precisam ser capazes de
respoder a questão fundamental de Fredy Perlman: Por que as
pessoas desejam sua própria opressão? Esta é uma
questão essencialmente psicológica, preocupada com a
questão de decifrar as motivações ocultas (ou
inconscientes) - motivações encobertas por, para, e de si
mesmo e dos outros pelo poder. O outro lado da questão é
igualmente significativa: O que faz alguns indivíduos se
tornarem anarquistas ou radicais anti-autoritários? O anarquismo
não vai obter em nenhuma forma substancial até que estes
problemas sejam levantados. E como estes problemas são de
natureza psicológica, o projeto de desenvolver uma psicologia
anarquista distintiva permanece um assunto principal. O maximalismo
precisa fomentar o entendimento dos mecanismos de opressão e
liberação de maneira que o processo de
regeneração humana (e simultaneamente ecológica)
possa tomar passo. Exite precedentes para este processo na critica
anarco-psicológica de Stirner, Nietzsche e de Dostoievsky
esboçado por John Carrol em Break-Out from the Crystal Palace,
não como Carroll pensa, por Freud - mas pelo psicanalista
anarquista Otto Gross. Esta tradição precisa ser renovada
e reformulada para chamar a atenção às formas
intensificadas e integradas de controle que têm emergido na
contemporânea sociedade de massas de tecnologia administrativa.
Indicando como as idéias do Marxista Freudiano podem ser neste
contexto, isto seria desejável para lembrar que ambos,
freudianismo e marxismo são ideologias administrativas e,
portanto completamente em desacordo com a luta anti-ideológica
do anarquismo maximalista.
O maximalismo apenas fará progresso se reconhecer a inutilidade
da política e do discurso da filosofia política como um
modo de articulação e de comunicação das
preocupações anarquistas. Política, 'a
ciência e a arte do controle', tem pouco ou nada a fazer com a
anti-política de libertar a vida do complexo de controle. O
discurso político na melhor das hipóteses tem um papel
muito limitado para este projeto. Considerando a discussão das
questões psicológicas acima, se torna evidente que o
maximalismo precisa fazer uso dos discursos e práticas da arte,
se quiser se estender e se comunicar com as pessoas. Neste processo, a
arte por si mesma será transformada - realizada e preenchida,
nos termos situacionistas - em algo completamente diferente da sua
condição atual alienada e comercializável. O
discurso racionalista da filosofia política Iluminista pode
apenas esperar ser aplicada nas faculdades racionais. Para muitas
pessoas, isto continua nao desenvolvido, bloqueado ou codificado como
"zona-proibida", portanto a comunicação neste
nível continua impedida e ineficaz. De qualquer modo, como
indicado anteriormente, tais faculdades restam do interesse superficial
ou limitado no processo de criar a vida livre. Se o anarquismo é
se relacionar com as pessoas neste caso deve se chegar em
seu inconsciente, e ativar seus desejos reprimidos por liberdade. Isto
não é de maneira alguma, o mesmo processo de
manipulação do desejo inconsciente, dos medos e
ansiedades como é no fascismo, mas um abertura de possibilidades
comunicação autentica e uma sugestão aos
indivíduos em reconhecer e apreciar seus próprios desejos
através do processo Nietzscheano de
auto-superação. Em outras palavras, isto envolve uma
vida-afirmativa , uma existencial afirmação do Eu e dos
desejos acima e contra a programação social que inculca a
obediência ao códigos e rotinas do complexo do controle,
As artes, adequada a sua capacidade de deixar de lado
inibições e conectar ou mesmo libertar interesses e
desejos inconscientes, portanto continua de longe mais apropriado do
que o discurso político como um meio de promover e expressar o
desenvolvimento da autonomia e da rebelião
anti-autoritária.
Um foco essencial da luta anti-totalidade permanece na analise do e no
combate direto sincero contra o micro-fascismo. Rolando Perez com o On An(archy) and Schizoanalysis
oferece uma excelente e acessível introdução para
esta área crucial de luta. O fascismo e os outros sistemas
totalitários - incluindo o totalitarismo liberal do capitalismo
democrático - é baseado em micro-fascismos, os quais
estruturam, formam e informam a vida cotidiana no complexo de controle.
Dado que o maximalismo requer uma erradicação exponencial
de todos os mecanismos e formas de poder , do mais abrangente ao mais
íntimo e mundano, o foco no micro-fascismo continua extremamente
mais fundamental do que aquelas, relativamente superficiais, lutas
anti-fascistas onde o fascismo é meramente entendido como um
movimento político organizado.
O anarquismo maximalista persiste firmemente anti-político,
anti-ideológico, anti-sistêmico e anti-autoritário.
Em sua luta contra o micro-fascismo, continua anti-capitalista,
anti-comunista, anti-socialista (em ambas as formas gêmeas,
nacional ou internacional), e anti-fascista, mas acima de tudo
revolucionário.
Do lado da vida-afirmativa e construtiva, o maximalismo permanece
empenhado na ação direta, no projeto insurrecional, e
consequentemente - dado a sua rejeição de todas as formas
de poder, autoridade e ordem - no ilegalismo. Nada menos do que um
assalto completo em cada frente do complexo de controle continua sendo
necessário. Maximalismo significa uma renovação e
uma extensão do projeto individualista anarquista de guerra a
sociedade para abarcar a totalidade do complexo de controle. A vida
diária se situa no campo do conflito, Mas cada aspecto da vida
diária precisa de re-avaliação a partir de uma
perspectiva anarquista (o que não significa que cada aspecto da
vida diária e as interações devam necessariamente
ser modificadas, mas significa que cada aspecto precisa vir a ser
examinado). Mas o maximalismo também envolve propor
alternativas. O maximalismo pode ser definido com
imaginação e desejo livres. Indo além da
política, o maximalismo significa conduzir experimentos,
livremente escolhidos de acordo com o desejo, a
imaginação e interesse, em todas as áreas da vida
diária, incluindo a linguagem, modos de pensar, perceber,
comportamento, relacionamentos, ação e
interação. O maximalismo anarquista é um meio
ótimo para criar nossas próprias vidas livre do controle
exercído pelo poder, autoridade e pela ordem.