O movimento operário foi um movimento pelo trabalho

O movimento operário clássico, que viveu muito depois das antigas revoltas sociais, já não lutava contra os abusos do trabalho, mas desenvolvia uma sobre-identificação com o aparentemente inevitável.
Só procurava "direitos e melhorias" dentro da sociedade do trabalho, cuja imposição fazia tempo que tinha internalizado. Ao invés de criticar radicalmente a transformação da energia humana em dinheiro como fim absoluto e irracional, aceitou o "ponto de vista do trabalho" e concebeu a exploração econômica como uma ordem das coisas neutra ou mesmo positiva.
Assim, o movimento operário pegava, à sua maneira, a herança do absolutismo, do protestantismo e do iluminismo burguês. Da desgraça do trabalho passou para o falso orgulho de trabalhador, o qual redefiniu como "direito humano" à própria domesticação. De certa forma, os parias domesticados pelo trabalho deram volta ideologicamente ao negócio e desenvolveram um esmero religioso pelo qual começaram a reclamar, de um lado "direito ao trabalho", e de outro "dever de trabalhar" para todos.  A burguesia não foi combatida como portadora funcional da sociedade do trabalho, mas ao invés, foi insultada de parasitária, em nome do trabalho. Todos os membros da sociedade, sem exceções, tinham que ser recrutados para a força dos "exércitos do trabalho".
O movimento operário virou assim, ele próprio, o pioneiro da sociedade capitalista do trabalho. Foi ele que impôs os últimos degraus da coisificação no decorrer do processo de desenvolvimento do trabalho, contra os torpes e funcionais burgueses do século XIX e princípios do séc XX, de um jeito muito semelhante a burguesia tinha se convertido na herdeira do absolutismo um século antes. Isso só foi possível porque os partidos operários e os sindicatos, no decorrer de sua idolatria ao trabalho, foram tomando uma atitude positiva no que diz respeito ao aparelho estatal e às instituições encarregadas das funções repressivas no trabalho (as quais não queriam abolir, mas ocupar eles próprios numa espécie de marcha através da instituição).
Assim tomavam, assim como antes a burguesia, a tradição burocrática da gestão sócio-laboral das pessoas iniciada no absolutismo.
A ideologia da generalização do trabalho exigia também uma situação política nova. Ao invés da divisão constante com "direitos políticos" diferentes (por exemplo, o direito ao voto segundo o grupo social) na sociedade do trabalho (ainda não imposta totalmente) teve que surgir a igualdade democrática geral do "Estado do trabalho consumado" e as desigualdades no funcionamento da maquina de exploração devida a que esta determinava agora a totalidade da vida social, tiveram que se compensar "social-estatalmente". O movimento operário também forneceu o paradigma para isso. Sob o nome de social-democracia virou o maior "movimento civil" da história, que não podia ser outra coisa mais do que uma armadilha para si mesmo. Porque na democracia tudo é negociável, exceto as imposições da sociedade do trabalho, que se pressupõem de um jeito axiomático. As únicas coisas discutíveis são as formas de aplicar as ditas imposições. Não fica nada além da escolha entre a Nestlé ou Dane, entre peste e a cólera, entre ser um malandro ou um tolo.
A democracia na sociedade do trabalho de dominação mais maquiavélico da história: um sistema de auto-opressão. Por isso a democracia não organiza nunca a livre determinação dos membros da sociedade sobre os recursos comuns, mas só a forma legal dos nômades trabalhadores, afastados uns dos outros, que têm que brigar no mercado de trabalho competindo entre si.
Democracia é o contrario de liberdade, e assim as pessoas trabalhadoras democráticas terminam por degenerar, necessariamente, em administradores e administrados, em empresários e empregados, em elites funcionais e em matéria humana. Os partidos políticos, e sobre tudo os partidos operários, refletem esta situação na sua própria estrutura: dirigentes e dirigidos, intelectuais e base, lideranças e simpatizantes mostram uma situação que nada tem haver com um debate ou uma tomada de decisões aberta. É um fato estrutural nesta lógica do sistema que as próprias elites não podem ser mais que funcionários heterônomos do ídolo trabalho e de suas resoluções cegas.
Pelo menos desde os nazistas os partidos são partidos de trabalhadores e, ao mesmo tempo, do capital. Nas sociedades em desenvolvimento no oriente e no hemisfério sul, o partido transformou-se num partido terrorista do Estado da modernização ainda por fazer; no ocidente, num sistema de partidos com programas intercambiáveis e figuras midiáticas representativas. A luta de classes acabou porque acabou a sociedade do trabalho. As classes se mostram como categorias sociais funcionais de um sistema fetichista comum, ao mesmo tempo em que esse sistema se extingue. Quando os social-democratas, os verdes e os comunistas conseguem fazer parte da administração da crise e criam programas repressivos especialmente mesquinhos, então mostram que só são os herdeiros legítimos de um movimento operário que nunca quis outra coisa mais do que trabalhar a qualquer preço.