Nascidos Naturalmente para Matar
por Sky Hiatt
Dizem que estamos vivendo na 6ª maior extinção em
massa de espécies não-humanas aqui na Terra. Assim como
qualquer calamidade muda de curso a influência do poder,
também significa que entramos na 6ª grande era dos
micróbios. Condições decisivas para uma
evolução lenta, de espécies relativamente novas,
bem como a nossa própria, provarão ser benéficas,
e até mesmo ideais, para a rápida mutação
de espécies antigas como vírus e batérias. Esses
são os primeiros e mais antigos seres vivos, escondidos em
fóssils pré-cambrianos de mais de 3.2 bilhões de
anos. Antes deles, não havia nada. Por bilhões de anos
depois deles, não havia nada mais. Eles prepararam a Terra para
toda a vida que estaria por vir, mas temos o costume de pensar neles
como coisas elementares, tristemente negadas à dignidade da
consciência. Mas quando os cálculos da
cognição desaparecem, e o corpo toma a sua forma mais
vulnerável, as leias da ordem orgânica se enfraquecem. Na
verdade, para as bactérias e os vírus, a maioria das leis
da biologia existem apenas para serem quebradas.
"A guerra contra as doenças infecciosas foi vencida,"
proclamou o chefe de Saúde Pública dos EUA em 1969. Isso
foi antes das estratégias passivo-agressivas de micróbios
tratados com remédios-milagrosos e a utopia a que eles aludiam.
Os profissionais médicos também preveram o fim de
doenças específicas, como a Tuberculose, que matou um
milhão de pessoas em 1908 e atualmente é a segunda causa
de morte em todo o mundo, matando três milhões anualmente.
Nos EUA, as infecções de tuberculose aumentaram 20% em
seis anos entre 1985 e 1991. A guerra não foi vencida. Quando a
penicilina salvou pela primeira vez uma vida humana em 1942, um
médico em plantão comentou depois, "Nada em toda a minha
experiência se compara a isso". Uma outra testemunha ficou
igualmente impressionada. "Era uma verdade tão gratificante que
parecia inacreditável." A era dos antibióticos havia
começado. Em Why We Get Sick ("Porque nós adoecemos"), os
autores Randolph Ness e George Williams se referiram aos
antibióticos como "Talvez o maior avanço médico do
século e um dos maiores de todo nosso tempo..." A morte havia
sido vencida. A Ciência reinava. Em três anos, as
resistências apareceram. Os micróbios rapidamente
aprenderam a como neutralizar os novos tratamentos com remédios.
Em 1998, pela primeira vez em 56 anos, um paciente de um hospital
morreu de uma infecção incurável por
staphylococcus. Atualmente, 90% das infecções
hospitalares por staphylococcus são resistentes a todos os
antibióticos com exceção de um - vancomicina -
também conhecida como o remédio de último recurso.
A era de ouro acabou.
Enterococcus resistente à vancomicina. Staphylococcus aureus com
resistência intermediária à vancomicina (VISA). O
fenômeno foi institucionalizado. Novas áreas de
especialização estão aparecendo. Reuniões
de cúpula são organizadas para focalizar em um problema
que poderia nos levar à "era pós-antibiótico."
Para evitar uma crise, eles terão que alterar o curso da
realidade contemporânea. Há muito tempo, desde 1996, a
Organização Mundial de Saúde emitiu avisos de "uma
grande praga para o próximo século." Sinceramente, a
palavra praga já soa como importante para mim. A OMS reduziu os
culpados microbiais à tuberculose, cólera, AIDS,
difteria, e poliomielite. Se a crise não puder ser evitada, as
doenças contagiosas irão continuar a se espalhar,
pandemias irão surgir, e todo procedimento cirúrgico
será tão perigoso como era em 1920 e não se
ouvirá mais falar em cirurgias eletivas. Em The Dancing Matrix:
Voyages Along the Viral Frontier (A Matriz Dançante: Viagens
pela Fronteira Viral), Robin Henig resume, "A única e maior
ameaça para a contínua dominação do homem
no planeta, são os vírus.”
Apesar de sua notorieadade, os vírus não possuem
inventários taxonômicos. Eles não estão
exatamente vivos, são somente sequências de
proteínas elementares que necessitam de uma célula
hospedeira para se duplicarem. Talvez seja por isso que eles não
conhecem o medo, não se cansam ou se confundem, ou se enfurecem
ou ficam impacientes. Talvez seja por isso que eles não
são programados para desisitir, ceder ou se render. De acordo
com o pesquisador Glenn Morris, "Os vírus passam cada
segundo de suas vidas tentando se proteger e se duplicar." Não
existe uma hibernação. Suas primas, as bactérias,
podem existir respirando sulfeto, oxigênio, metano, amônia,
monóxido de carbono, e nitrogênio inerte. Elas podem viver
confortavelmente em água fervente, ácido, gelo, e na
aridez do deserto, suspendendo suas funções vitais e
esperando por uma gota de chuva.
As coisas eram diferentes na Terra quando os vírus e as
bactérias apareceram. Os tempos eram difíceis. O jovem
planeta era um ambiente não-receptivo e letal, possivelmente
satisfeito em arder lentamente para sempre como uma rocha derretida sem
vida. Não era necessariamente garantido que espécies
apareceriam, ou sobreviveriam. Qualquer forma de vida, naquele mundo,
teria que ser resistente de uma forma inconcebível. Elas teriam
que ser praticamente indestrutíveis.
Comparado ao períoro Pré-Cambriano, a
civilização tem sido uma abundância para essas
formas de vida. Tudo o que fazemos nos ameaça e as favorece. O
aquecimento global, o colonialismo, mudança crônica,
poluição, cidades, a diminuição da camada
de ozônio, refugiados, pobreza, prostituição,
riqueza, guerra, represas, sem-tetos, prisões, campos de
prisioneiros, vício em drogas, agricultura animal,
lixões, e irrigação. "A escala de doenças
associadas à irrigação é massiva," escreveu
Sandra Postel em The Last Oasis (O Último Oásis).
Sistemas de água quente, umidificadores, ar-condicionado. A
Doença dos Legionários iniciou-se em um centro de
conferências no período antes de Cristo e agora é
uma ameaça mundial. Os micróbios preferem as piscinas
mornas artificiais da modernidade. Nós agora sabemos que as
bactérias do solo se dão bem em equipamentos refrigerados
de alta tecnologia. Viagens e comércio internacional? Paul
Reston escreve sobre isso em The Hot Zone (A Zona Quente). Um
"vírus da floresta amazônica está agora a 24 horas
de distância de qualquer cidade na Terra-Paris, Roma, Nova Iorque
- para todo ludar que os aviões voarem." Os bacteriologistas
chamam isso de tráfico viral pela estrada viral. Laurie Garrett
chama isso de a globalização dos micróbios. Os
pesquisadores e os médicos que se reúnem para avaliarem
as intensificantes crises de saúde, terão que pensar
sobre todas essas coisas. Talvez eventualmente eles se darão
conta que a civilização é uma máquina de
doenças.
O nosso destino imperialista tem liberado bactérias, das quais
antes eram contidas por imunidades adquiridas de ecossistemas. Houve
uma época em que as áreas selvagens ofereciam
proteção para todos. Em tempos estáveis, uma
espécie se tornava extinta e uma aparecia, em média, a
cada milhão de anos. Durante esses tempos, as espécies em
cada biorregião habituavam-se umas com as outras. A
compatibilidade era a primeira lei e ela nunca foi rescindida. Agentes
infecciosos e hospedeiros já viveram juntos. A harmonia
auto-imune prevalecia. Se qualquer coisa se movia para fora do
aglomerado ecológico protetor, ela arriscava a sua morte. Se
novos organismos entravam, a maioria era logo exterminada. Para cada
1000 formas de vida que aparecia na Terra apenas uma sobrevivia. A
estabilidade, a continuidade, e a permanência sempre têm
sido as leis de se manter vivo. É claro, há muito
nós suspeitamos que os vírus, bactérias e germes
prosperariam em um mundo pós-apocalíptico. Mas, por acaso
nós os vimos como o próprio apocalipse?. Se uma forma de
AIDS transmissível pelo ar aparecer, de acordo com Arno Karlen,
nós provavelmente estaremos condenados. Tudo o que o
vírus tem que fazer é migrar para os pulmões, onde
suas propriedades mortais possam ser espalhadas simplesmente respirando
em alguém. Não existem leis de biologia que
impeçam isso de acontecer.
Certamente a civilização existiu muito antes dos
antibióticos e muitos conseguiram sobreviver aos tempos
modernos. Os que falharam, falharam por diferentes razões,
isolamento relativo em suas biorregiões. Foi preciso que a
tecnologia quebrasse os limites protetores, para que cada ameaça
a alguém se tornasse uma ameaça a todos. Antes do
turismo, dos barcos veleiros e dos aviões, se as culturas
passadas se encontravam com agentes infecciosos, os danos seriam
concentrados em um determinado local. Já que todas as sociedades
atuais estão todas conectadas, a civilização como
um todo está ameaçada. A vila global é hostil e
inflexível. Os erros são "ampliados mundialmente."
Enquanto os humanos se concentram em guerras pelo petróleo,
sistemas climáticos alterados, rãs-mutantes, e fome
mundial, os micróbios perseveram em sua inexorável
conquista do planeta.
Os mosquitos vetores da Febre Amarela geralmente vivem em florestas e
nas copas das árvores se alimentando de sangue de macacos e
pequenos animais. Quando eles cortam as árvores, os mosquitos
saem da floresta. Agora eles compartilham seus micróbios com os
humanos. Ao longo do caminho eles desenvolveram resistências ao
DDT. Se você queima as florestas de Bornéo, os morcegos
frugívoros podem se mover para fazendas próximas e passar
agentes infecciosos para os animais das fazendas, e estes podem
passá-los para os fazendeiros. Se você mata todas as
gazelas, a mosca tsé-tsé irá para outro lugar. Se
você cria subdiviões nas florestas orientais dos EUA, os
cervos serão pressionados a ficarem mais próximos de seus
quintais e de suas casas. Os carrapatos dos cervos podem ser
transferidos para os animais de estimação, que
poderão passar a doença de Lyma para os humanos. Quanto
mais os humanos aumentam a população, mais os
micróbios irão se concentrar em nós. Nós
estamos acabando com as populações de suas vítimas
originais, enquanto oferecemos hospedeiros humanos com sistemas
imunológicos virgens para eles se alimentarem. Atualmente,
existem 5.000 frascos de vírus exóticos da floresta
amazônica liofilizados em um laboratório em Yale esperando
para que alguém dê uma olhada neles. Isso é apenas
uma fração das populações de
bactérias e vírus que estão em suas zonas de
tranquilidade esperando que nós esbarremos neles. Leve em
consideração a compulção do cuidado em que
os cientistas tomam para se assegurarem que nenhuma bactéria
alienígena seja traga de volta à Terra das missões
espaciais, e as bactérias de origem terrena estimadas em duas
milhões ainda esperando para serem encontradas, estudadas e
caracterizadas. O perigo potencialmente catastrófico estava aqui
o tempo todo. "Se nós as descobríssemos em Marte,"
escreveram Sagan e Margulis, "elas receberiam a devida
atenção." A cada vez que nós entramos em uma
floresta virgem para destruí-la ou para explorá-la,
nós estamos pisando de um módulo lunar em um terreno
alienígena.
As florestas podem permitir sua destruição passivamente,
os oceanos morrem em silêncio, e os mamíferos, peixes, e
aves caminham para a extinção. As bactérias
não são assim. Elas redefinem o paradigma da vida em
máximas codificadas nas combinações
químicas e nas variações genéticas
aleatórias de suas próprias estruturas. Nós
seguimos suas regras por longas eras, do Australopiteco à idade
do ferro. Mas, a era atual nos dissuadiu. Tanto que, o final da era do
combustível fóssil, uma nova era glacial causada pelo
aquecimento global, a superpopulação, a as guerras pela
água - tudo isso é uma história do futuro
distante. De acordo com as criaturas vivas mais antigas da Terra, a
civilização nunca vai chegar tão longe.
O que os cientistas sabem agora sobre as bactérias é que,
você pode matá-las, mas você nunca conseguirá
matar todas elas. Entre as milhões encontradas proliferando na
cabeça de um alfinete, a variedade genética existe
naturalmente. Os antibióticos selecionam aquelas poucas ao matar
todo o resto. Novos antibióticos têm de ser sintetizados
para as sobreviventes, e por aí vai. Por agora, bactérias
com resistência múltipla a doenças em todo o mundo
estão retornando e doenças do Velho Mundo estão
aumentando. As doenças de ontem? Exceto pela varíola,
não existe tal coisa. A maioria está retornando.
Cólera - existem agora 139 variedades registradas. Sarampo,
gonorréia, peste bubônica, tifo, tuberculose,
malária, difteria, febre amarela, dengue, escarlatina - a
variedade antiga foi eliminada, mas agora uma versão nova e mais
forte já retornou e matou. Febre reumática, disenteria. A
lepra evolui em novas variedades intratáveis. A sífilis
infecta mais pessoas hoje do que na década de 1950.
Doenças emergentes também estão aumentando: o
vírus Marburg, Ebola, AIDS, HSE, doença de Kuru,
doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD), febre de Lassa, febre do Nilo
Ocidental. Doenças debilitantes, doenças pulmonares. Em
Health, Illness and the Social Body (Saúde, Doenças, e o
Corpo Social), Fruend e McGuire escreveram "As doenças
crônicas e degenetarivas aumentaram quando
populações mudaram de coletoras-caçadoras para a
agricultura e para a comunidade industrial." Isso funciona bem para os
farmacêuticos, que preferem fabricar remédios que
serão tomados por quarenta anos, ao invés daqueles que
serão utilizados episodicamente, raramente ou nunca.
Em The Future in Plain Sight (O Futuro a Plena Vista), Eugene Linden
faz referência às cidades como "Os viveiros ideais para
incubar formas mais mortais de doenças." Elas são as
zonas das pragas contemporâneas. Os primeiros agricultores fixos
do mundo, e posteriormente os colonialistas, removeram
populações inteiras de suas terras ancestrais,
convertendo essas terras em crescentes centros urbanos. Arno Karlen
chama as cidades de "super rebanhos de humanos", onde patogenias podem
misturar-se e cruzar-se livremente. A síndrome dos
edifícios doentes (SBS) é um problema moderno. Compostos
sintéticos filtram o 'ar enlatado' recirculado de
escritórios, que são isolados da atmosfera exterior. Os
germes se deleitam neles. A cidade interior é um
anti-oásis do terceiro mundo, onde surtos de tuberculose com
resistência múltipla a doenças são
difícies de erradicar. Os sem-teto geralmente não
conseguem completar os longos tratamentos necessários. As
cidades romperam antigos parâmetros de saúde e deram
origem às 'doenças coletivas', aquelas
infecções inesperadas que necessitam constantemente de
novas vítimas para se sustentarem. Esse é o "efeito
limiar" pelo qual populações cada vez mais urbanizadas
atingem níveis críticos, permitindo que novas
infecções se espalhem continuamente. Sarampo, caxumba,
resfriado, gripe, varíola - todas precisam de vastas
populações, e suprimentos intermináveis de novas
vítimas desprovidas de tolerâncias ou imunidades, para
sustentá-las. Todos os organismos em um determinado aglomerado
teriam ou se extinguido ou desenvolvido imunidades. Em tempos
primitivos, essas doenças e as epidemias que elas promoviam eram
impossibilidades.
As ameaças remanescentes da modernidade? O aquecimento global
envia vetores de doenças migrando para o norte que
prosperam nos climas mais quentes reminescentes da antiga Terra.
O desaparecimento da camada de ozônio pode ser irrelevante para
as bactérias, já que foram elas que criaram o
oxigênio da Terra, o qual o Sol converteu para ozônio, mas
não antes dos micróbios tornarem-se resistentes aos
efeitos da radiação. A pobreza ofereçe aos
micróbios milhões de hospedeiros vulneráveis e
vítimas indefesas. Enquanto o número de pessoas pobres
aumenta em todo o mundo, doenças se espalham entre eles.
Refugiados, atualmente chegando aos 20 milhões globalmente,
são super-rebanhos de humanos angustiados que espalham
doenças entre si. A AIDS forma um trio mortal com a
sífilis e a tuberculose. A carência de imunidades
são santuários ideais onde velhas doenças renascem
como adversários inconquistáveis, indiferentes aos nossos
remédios e às nossas vastas tecnologias. O vício
em drogas introduz agulhas reutilizadas - vetores de doença
perfeitos para mosquitos, carrapatos, água contaminada.
A guerra é uma zona de nirvana microbial. Elementos
favoráveis estão à mão simultaneamente:
sujeira, feridas abertas, estrangeiros sendo jogados juntos em terras
desconhecidas. "De cada cinco fatalidades na 2ª guerra mundial,
quatro foram de infecções, e não dos ferimentos",
escreveram os Zimmermans em Killer Germs (Germes Assassinos). Na
1ª guerra mundial, só da doença tifo morreram
três milhões. A gripe aviária moveu-se recentemente
para a África, Grécia, Itália, e Bulgária.
As aves irão voar. Os epidemiologistas estão
traçando as rotas migratórias. A gripe aviária
também entrou no Iraque. Talvez o cheiro de explosivos
empurrará a gripe para uma mutação final
permitindo que ela se espalhe contagiosamente de humano a humano.
Então, tropas americanas retornando para casa poderão
espalhar efetivamente a doença entre nós. Neste caso,
poderia haver uma reavaliação de suas missões por
lá.
Enquanto a civilização avançava, até mesmo
o alimento serviu como um conveniente vetor de doenças. Os
primeiros hominídeos comiam principalmente alimentos vegetais,
fato evidenciado pelos dentes molares e o longo intestino. Depois, os
primeiros humanos começaram a procurar e a se alimentar de carne
morta de outros animais. Depois, veio o status de
caçador-coletor. E então, a agricultura baseada em
animais. E finalmente, as fazendas industriais. Passando pelos
primeiros estágios, os humanos avançaram para além
dos trópicos contraindo novas doenças em troca das
calorias para alimentar a expansão da população
global. A criação de animais pressionou os humanos
à uma associação mais próxima com outras
espécies, estas agora domesticadas, acelerando a
incidência de cruzamento de doenças. Nós agora
sabemos que todas as doenças contagiosas chegam até
nós pelos animais. Sessenta e cinco doenças vindo de
cães - a cinomose é causada por um vírus que
quando pulou para os humanos se tornou o sarampo. Trinta e cinco
doenças de cavalos, incluindo a gripe comum. Quarenta e seis de
carneiros e cabras. Cem de aves incluindo a gripe aviária de
mutação rápida com uma taxa de fatalidade de 50%
nos humanos até agora. A pandemia da gripe de 1918 só
matava uma em cada mil pessoas. Milhões morreram. Sobre uma
potencial pandemia moderna de gripe aviária, a autora Laurie
Garrett diz que a única coisa que ela consegue pensar que seria
pior, seria uma guerra nuclear. A cólera, a hantavirose, a tifo
e várias pragas, vieram de roedores que seguiram os humanos aos
seu santuário urbano. Existem agora 129 variedades da
cólera registradas - o micróbio é um oportunista a
espreita em águas contaminadas do terceiro mundo. Quarenta e
duas doenças vindas de porcos. A lepra veio do curtimento de
pele de búfalo. Dos macacos nós temos o Ebola, e o
vírus Marburg - uma doença tão letal que os
pesquisadores arriscam suas vidas estudando-a. Cinqüenta
doenças do gado incluindo tuberculose e varíola - a mesma
bactéria que a ciência afirma ter exterminado.
Nosso relacionamento com os animais moldou o mundo, quase prometendo
que ele se tornaria civilizado. Com as doenças vindas da
criação de animais, foi determinado que os europeus
derrotassem os nativos do Novo Mundo. Caçadores-coletores
indígenas tinham um relacionamento mais distante com animais, e
portanto, menos doenças contagiosas para compartilhar e sem
tolerância imune ao inventário microbial do conquistador.
Os pioneiros talvez não precisaram realmente de outras armas.
É dito que muitas vilas foram dizimadas antes mesmo dos
conquistadores as alcançarem, enquanto os micróbios se
espalhavam à frente mudando a história. Em Health and the
Rise of Civilization (A Saúde e a Ascenção da da
Civilização), Mark Nathan Cohen escreve, "A carne
é a fonte mais perigosa de contaminação de origem
alimentar." Não somente doenças históricas, mas
também muitas doenças contagiosas emergentes estão
chegando até nós por esse meio. É como se cada
animal tivesse um reino nele mesmo - um universo de bactérias
exóticas envoltas em pele. Os carnívoros desenvolveram
tolerâncias aos reinos dos corpos de outros seres. Mas, para os
humanos, os perigos de ter comido carne ajudaram a empurrar os humanos
no nível atual de incompetência sócio-cultural.
Após ter dizimado populações indianas, a
varíola se tornou a única doença que a
ciência pode tomar crédito por ter exterminado.
Versões de vacinas do vírus neutralizado conseguiram
isso. As vacinas não são uma invenção do
presente, mas estão por aqui desde a antiguidade. Naqueles dias,
entretanto, os humanos eram naturalmente expostos à
versões não-letais dos micróbios no cotidiano.
Hoje, as vacinações - recentemente ligadas ao TDAH
(Transtorno de Déficit de Atenção por
Hiperatividade) e ao autismo - são distribuídas em
consultórios médicos criando uma dependência
tão grande que, no caso de ocorrer uma indisponibilidade de
vacinas, aqueles que nascerem após este período
não estarão protegidos contra surtos futuros. Isso
é importante porque, apesar deles terem exterminado a
doença, a varíola não desapareceu. Reservas
são mantidas em laboratórios na Rússia e nos EUA
como uma salvaguarda para desenvolver vacinas contra um potencial
bio-terrorismo. Algumas dessas amostras de alto risco já
sumiram. E existem estimativas que pelo menos uma dúzia das
chamadas "nações rebeldes" possuem estoques ilegais do
vírus da varíola. Isso não é novidade. Os
EUA usou o antrax como arma, e também uma forma do botulismo
10.000 vezes mais venenoso do que os gases nervosos. Eles iam
utilizá-lo em Cuba, mas mudaram de idéia. 226 gramas
poderiam ter exterminado toda a humanidade. Ela ainda está
disponível na prateleira? Quem sabe? Historicamente, tratados de
armas biológicas são quebrados por todos que os assinam.
Os trabalhadores da área concordam, "O potencial para o
bio-terrorismo é sem limites". Em Our Final Hour (Nossa Hora
Final), Martin Reese escreve, "O disastre poderia ser causado por
alguém que é meramente incompetente em vez de maligno."
Bio-terroristas em potencial já podem ter notado que as
vacinações contra varíola acabaram nos EUA em
1972, já que, desde então, mais pessoas estavam morrendo
da vacina do que do vírus. Então, se a varíola
fosse ser usada como uma arma aqui, muitos americanos estariam
vulneráveis. Talvez os terroristas estão apenas esperando
a hora certa. Quanto mais esperarem, maior a porcentagem desprotegida
da população.
Como vimos, existem limites cruciais para vacinas e
antibióticos. As possibilidades de longevidade, no entanto,
têm sem dúvida ganhado mais adeptos da
civilização do que qualquer outra conquista de nossos
tempos. Os tratamentos com remédios foram maximizadas, os
doentes foram curados, doenças contagiosas subjugadas à
submissão, a expectativa de vida elevou. Mas esses ganhos foram
artificiais - uma anomalia insustentável do presente. Na
verdade, recentemente foi relatado que pela primeira vez na
história americana, a próxima geração
terá uma expectativa de vida menor do que a atual (dependendo do
acesso a tecnologias de prolongamento de vida).
Desestabilizar ecossistemas adjacentes para o benefício de uma
espécie é déficit biocultural. Qualquer coisa que
mereça aclamação não pode ser boa para uma
espécie em detrimento de todo as outras. Eventualmente a
dívida aumenta e seu império de dominação
irá cair. Uma guerra em larga escala na Natureza não
é o caminho para a saúde. Ganhos genuínos devem
obedecer a ordem planetária.
“Até onde os registros indicam, nenhuma época na
história gastou tanto dinheiro em saúde e curas como a
atual. Nenhuma época sequer teve que gastar.” - Do Herb
Growing for Health (Cultivo de Ervas para a Saúde), por Donald
Law.
No século 21, todas as populações concentradas
compartilham da mesma agulha, e são infectadas com a mesma
doença. Elas compartilham um pacto de destinos similares - as
injeções letais da modernidade. O comércio justo
significa comercializar tudo. Nike, Pepsi, filmes, novas
doenças, velhas doenças, tudo. As doenças antigas
estão crescendo em todo lugar. Novas estão surgindo em
todo lugar. A resistência a antibióticos está
ocorrendo em todo lugar. As doenças contagiosas aumentaram 20%
nos últimos 20 anos - não no terceiro mundo, mas nos EUA.
Porque os micróbios não dominaram a Terra? Bem,
você não tem prestado atenção?
A notícia ruim, é que nossas memórias
genéticas foram apagadas. A caixa preta da
civilização interrompeu os processos
evolucionários de saúde com uma gama de armamentos
médicos em que nós, mal conseguindo evoluir,
enfraquecemos e atrofiamos. A saúde natural foi interrompida.
Duros ganhos de nossa espécie foram apagados em uma grande
área e nós regredimos para a vulnerabilidade
imunológica. Nossos corpos podem identificar e atacar um
milhão de proteínas estranhas. Mas somente se somos
expostos a elas. A ciência não deixa isso acontecer. Agora
nós temos "a Hipótese da Higiene", a teoria de que nossos
sistemas imunológicos estão tão pouco utilizados
que eles não conseguem responder efetivamente ao mundo em nossa
volta. Ficamos por conta própria para encararmos o desafio de
recapturar imunidades robustas e evoluídas e a dinâmica de
saúde primordial. Nossos ancestrais já pagaram por tudo
isso. Mas o elo foi quebrado.
O que está ocorrendo, é que as antigas doenças
inicialmente decaíram pelo uso de antibióticos. Durante
esse mesmo período, as 'doenças da
civilização' surgiram: doenças cardíacas,
câncer, diabetes, obesidade, etc. Então as doenças
originais começaram a ressurgir, geralmente em formas mais
perigosas. E agora novas doenças contagiosas, doenças
emergentes, estão aparecendo, sobrepondo todo o resto. Esse
é o caminho em que estamos. Mas a maioria dos pesquisadores
continuam procurando pela cura infalível. Em alguns
círculos, o otimismo persiste. Em seu livro recente Bioevolution
(Bioevolução), Michael Fumento prevê que as
realizações futuras da engenharia genética
incluirão o fim da maioria das doenças, aumentará
a expectativa de vida humana, maior rendimento de colheitas e
fertilidade do solo, restauração do meio ambiente, o fim
da subnutrição, e as doenças de plantas
serão eliminadas. No livro The Next 50 Years (Os Próximos
50 Anos), John Brockman escreve "...é quase certo que nós
poderemos produzir sistemas imunológicos artificiais que
poderão reagir tanto a vírus vivos como a vírus de
computador." A nanotecnologia irá "...fornecer habitats para nos
proteger de nossas más ações ecológicas..."
James Watson, famoso pela descoberta da dupla hélice do DNA
disse uma vez, "Se os biólogos não brincassem de deus,
quem iria?" Aparentemente ele tem seguidores: imortalistas,
transhumanistas, crionicistas.
Poderíamos impedir as massas microbiais em seus caminhos? Bem,
as leis da probabilidade não estão do nosso lado.
Nós pusemos um homem na Lua. Desenvolvemos armas nucleares. Se
nós pudéssemos impedir os micróbios, pareceria
que, por agora, nós já teríamos conseguido.
Não, esse mundo nunca será saudável. A
civilização carece de qualidades inatas. Ela é
estruturalmente defeituosa. Não importa o quão seguros
nós nos sentimos na câmara antiséptica de
isolamento do presente, não importa quantas tomografias
computadorizadas, ressonâncias magnéticas,
eletrocardiogramas, ou drogas novas nós consumimos, isso
não irá acontecer. "Nós estamos em uma guerra
armada", escrevem os autores de The Killers Within (Os Assassinos
Internos). "O desarmamento não é uma
opção." Esse é um mundo no qual a estreptomicina
(primeiro medicamento efetivo no tratamento da tuberculose) se tornou
um nutriente para as bactérias que estamos em guerra.
A solução para nossa crise de saúde não
será descoberta pelas lentes de um microscópio
eletrônico de varredura. Para derrotar os germes, nós
precisamos abaixar as armas da tecnologia, recuarmos para a floresta e
deixarmos os destroços da civilização para
trás. Se podemos viver na Natureza, em grupos relativamente
pequenos de pessoas próximas comprometidas em um domínio
geográfico, vivendo o mais simples possível, o mais
primitivo possível, vivendo de modo selvagem, sem guerra, sem
agricultura, sem cidades - se nós podemos fazer isso e um
disastre ou uma sublevação não intervir, os mitos
do santuário Terrestre estarão mais próximos do
que eles poderiam estar de se tornarem realidade. "A doença
é a vida sob condições alteradas", disse Florence
Nightengale. "Não existem doenças específicas,
apenas condições específicas de doenças".
Ao fechar o parágrafo de Viruses (Vírus), Arnold Levine
escreve: "Aquele relacionamento especial entre o hospedeiro e o
parasita irá continuar a fazer os seres humanos - e todas formas
de vida na Terra - o que somos e o que seremos. É importante que
nós saibamos as regras.”
Eu concordo.
Green Anarchy #23