Os caçadores*
Elman, R. Service

Nas paginas precedentes, fizemos algumas observações gerais sobre a natureza das sociedades de caçadores e coletores, e citamos vários materiais ilustrativos. Demo-nos também ao trabalho de salientar os mais importantes contrastes entre as sociedades de caçadores e coletores e as culturas das nações modernas. É um modo de tentar responder à pergunta que formulamos no início do livro: O que lucrou e o que perdeu o homem quando adquiriu civilização? Na medida em que os ganhos - especialmente os mais recentes - são tão óbvios e tão freqüentemente  exaltados, achamos apropriado dirigir agora nossa atenção para as nossas possíveis perdas.

As características das sociedades de caçadores e coletores que mais se diferenciam das características das características das sociedades modernas residem, principalmente, naquelas instituições que estão relacionadas com a vasta diferença na escala das dias espécies de sociedade. De fato , nos estádios mais recentes da sociedade que culminam na civilização moderna, surgiram organizações e instituições complexas e formais que não têm correspondência alguma nas sociedades primitivas. As maiores semelhanças se relacionam com as comparações entre unidades das sociedades que são de fato, comparáveis em escala - mais notoriamente, as famílias domesticas - e entre os modos de comportamento e artefatos com eles relacionados.
  Sociólogos , historiadores, cientistas políticos , até antropólogos , estão habituados a analisar a cultura em suas várias partes e aspectos. Usualmente, supõe-se que as partes mais salientes são subsistemas, como o econômico, o social, o político e o ideológico. e existe, é claro, o moderno conceito funcionalista, segundo o qual esses subsistemas não são autônomos mas, pelo contrario, interdependente. Assim, o subsistema econômico, tão básico para a sociedade porque supre as necessidades materiais das pessoas, exige, não obstante, ordem social e apoio político; e , por sua vez, é justificado pelo subsistema ideológico . Mas também se consideram os graus de autonomia institucional e os métodos  pelos quais um subsistema pode ser descrito e "compreendido" em termos formais - isto é, em função do arranjo interno de suas próprias partes componentes.
  A escolha  dos títulos dos capítulos implica que algo da forma acima de análise foi aqui usado. Mas a sociedade primitiva, de modo geral, e as sociedades muito primitivas, como os bandos de caçadores e coletores, em especial, são tão diferentes das nações modernas em escala e concomitante complexidade que pareceria necessário modificar consideravelmente qualquer esquema analítico apropriado á sociedade moderna, antes de podê-lo usar também para as sociedades de caçadores e coletores. É verdade que os antropólogos, por vezes, destorceram inadvertidamente a natureza da cultura primitiva ao usarem, sem suficiente explicação e m0odificação, alguns dos conceitos analíticos das Ciências Sociais pertinentes à sociedade moderna.
  Tomando a tecnologia e economia como um exemplo, verificamos em primeiro lugar que, entre os caçadores  e coletores, não existem organizações separadas de pessoas que desempenham tarefas tecnológicas ou se dedicam a trocas econômicas. A organização é meramente, a de parentesco. Se , num dado momento, esse grupo exerce atividades tecnológicas ou econômicas, num outro momento, a mesma organização pode estar desempenhando tarefas políticas, cerimoniais ou puramente sociais. Evidentemente, temos de pensar em contextos  tecnológicos e econômicos de comportamento, em vez de organizações e instituições econômicas.
    Muitas outras características modernas faltam na economia dos povos de caçadores e coletores. Não há especialistas que ganhem a vida exercendo determinada tarefa econômica. De fato, não existem intermediários de espécie alguma; o sistema tecnológico e econômico é direto, do produtor ao consumidor (quando estes não são de fato, o mesmo individuo). A única divisão de trabalho consiste nas distinção de sexo e idade da espécie  que encontramos em qualquer família. Há algumas tarefas apropriadas aos velhos, outras aos  adultos, outras às crianças e adolescentes de varias idades e , é claro, especialidades masculinas e femininas.
    As sociedades de caçadores e coletores não estão divididas em classes de famílias ricas  ou pobres. De fato, não existe propriedade do gênero que permita fazer tal tipo de distinção. Contudo, as pessoas  possuem orgulhosamente aquele gênero de artigo que foram aqui designados por objetos de uso pessoal, itens feitos e usados por indivíduos: coisas como armas, ornamentos, roupas, rituais privados, amuletos etc. Além disso, a troca de bens é inteiramente conduzida  em t~ermos de reciprocidade, nunca comercialmente. Essa reciprocidade varia das formas muito genéricas às mais especificas, dependendo das relações sociais dos que efetuam a permuta. As emoções, assim como a etiqueta de parentesco e a moralidade da modéstia e da generosidade, dominam em conjunto a troca, convertendo-a num ato de natureza tão social quanto econômica.
 
    De fato, as obrigações sociais dominam a tal ponto o caráter das trocas que, no usual significado moderno da palavra, não existe economia alguma nas sociedades em nível de bando. Só se usarmos o significado mais amplo da palavra "economia" - as atividades materiais, provedoras do sustento da vida  da sociedade - poderemos apropriadamente falar de economia nas sociedades de caçadores e coletores.  Tipos familiais de reciprocidade existem em todas as sociedades e a nossa própria sociedade, portanto, tem algumas correspondências modestas - ou analogias - com a forma de economia da sociedade primitiva; mas o sistema de trocas em estilo de mercado da sociedade moderna, mais amplo e impessoal, está completamente ausente entre os bandos.

   O que ocorre no domínio econômico, ocorre também na organização política. Às sociedades de caçadores e coletores faltam as estruturas legais e governamentais formais a que estamos habituados na sociedade moderna. Elas têm  os mesmos problemas para tomar decisões a respeito de ações conjuntas e para arbitrar litígios entre pessoas e grupos, mas não dispõem de instituições formais para solucioná-las. Há problemas de governo, mas nenhuma organização governamental. Há também os mesmos problemas de controle do comportamento divergente como em qualquer sociedade, mas não existem leis e punições formais, apenas normas e sanções consuetudinárias. Sem um estado, sem governo, sem prisões nem policia, sem sistemas legais, como é que a autoridade, então, é usada para manter a integridade da sociedade?
   Poder-se-ia imaginar que, na ausência de instituições governamentais e legais formais, seria necessário um "homem forte" para punir pessoalmente os dissidentes, liderar os grupos  e arbitrar em função da sua autoridade pessoal. Mas, surpreendentemente, as sociedades em nível de bando se caracterizam por uma ausência de chefes autoritários. De fato , esse tipo de sociedades é tão igualitário e tão restritos são os poderes de qualquer pessoa em particular, que seria melhor falar de pessoas de influencia, em lugar de pessoas de autoridade. Uma razão para se preferir op uso da palavra "influencia" é porque autoridade implica, usualmente, o exercício do poder - a imposição da vontade de uma pessoa sobre as demais. Em todas as sociedades estatais isso é claramente uma questão de força e articula-se, explicitamente, em termos de lei e de punições que serão aplicadas nos casos  de violação da lei. Mas as sociedades em nível de bando rejeitam  a autoridade da força pessoal, excetuando-se, é claro a autoridade de um pai sobre os seus filhos. Uma pessoa "influente", numa sociedade em nível de bando, significa alguém que possui  qualidades admiráveis, como sabedoria e caridade, não o poder físico. A força física superior não tem vez; nas sociedades em nível de bando; tal como num grupo de meninos de escola, o valentão mais crescido acaba por levar o merecido castigo, mais cedo ou mais tarde, muitas vezes a cargo de uma coalizão de rapazes mais fracos.

    A influencia  é exercida de maneiras tão informais que é difícil saber sempre, exatamente, como caracterizar a sua ação ou a sua origem. Uma característica de uma homem influente pode ser, simplesmente seu carisma, a influencia que é capaz de exercer em virtudes de qualidades pessoais que são admiradas  pelas pessoas. O outro fator é estrutural, pelo qual uma pessoa do sexo masculino e de idade apropriadamente avançada tem  mais possibilidades, em virtude daquele status social formal, de estar numa posição de influencia política do que as mulheres ou as pessoas mais jovens. Mas isso, convém sublinhar, é um aspecto da organização de parentesco, não de organização política. Tudo o que podemos afirmar é que a organização social é a de parentesco, a qual se opera, por vezes, num contexto que podemos considerar político. O mesmo pode ser dito para a religião, a arte ou outros aspectos ideológicos.
   Como acentuamos no ultimo capitulo, a ideologia nas sociedades em nível de bando é caracteristicamente sobrenatural. Isso não subestima a grande soma de conhecimentos existenciais naturais que as pessoas primitivas podem possuir como indivíduos. O simples fato delas confrontarem a natureza tão diretamente deve fazer que conheçam muito a respeito dela. Mas a expressão do saber existencial, sobretudo no contexto da explicação acontece também com a matéria concomitante do controle. Uma grande parte do tempo social é consumida na tentativa de controlar ou influenciar a natureza por meios sobrenaturais. Todas essas coisas, na natureza , possuem alguma espécie de espírito, que não consiste apenas no modo como as ações ou características do objeto serão explicadas mas também o meio pelo qual os seres humanos os influenciam ou controlam.
   A ideologia normativa, os sentimentos e valores da sociedade, por outra parte, não são ensinados no contexto do sobrenatural do modo que, tão freqüentemente, o são em nossa própria sociedade. Recebemos muitas " pregações" das virtudes morais e éticas, usualmente na igreja. Nas sociedades primitivas, é mais provável que elas sejam ensinadas pro processos formais do que como virtudes abstratas. As formas idéias de comportamento - a conduta apropriada - determinam  qual o comportamento moral ou ético que será acatado. Portanto, a etiqueta assume grande importância, como aspecto formal da moralidade, ao passo que a ética como tal, em abstrato, tem muito pouca expressão.
   Assim, o comportamento primitivo parece caracterizado por uma grande  dose de sobrenatural no que diz respeito às idéias sobre o mundo e, por outra parte, pelo formalismo no tocante aos tipos valorizados de conduta. Uma outra característica impressionante da ideologia primitiva é o modo pelo qual grande parte dela se expressa em forma artística, predominantemente ritual. As formas artísticas usuais numa sociedade de caçadores e coletores - mito, ritual, canto e dança, e as menos freqüentes artes gráficas - são extraordinariamente formalizadas, por uma parte, e preponderante se não universalmente limitadas a um contexto sobrenatural. De fato, essas características da vida primitiva sugerem  que, possivelmente, a própria origem da arte está relacionada com o contexto sobrenatural generalizado das crenças existenciais. A produção de arte começou, segundo parece, com um aspecto da tentativa do homem   para controlar  a natureza e a sociedade por meios sobrenaturais e é talvez por essa razão que está tão acentuadamente ritualizada.
    Vemos, portanto, que naqueles aspectos da ideologia em que usualmente pensamos como altamente institucionalizados, tais como a religião, a ciência, os códigos de moralidade e ética ou , até, a criação artística sumamente profissionalizada da nossa sociedade, as manifestações primitivas nos oferecem o maior contraste. Em nenhum caso as sociedades de caçadores e coletores diferenciaram e institucionalizaram claramente qualquer aspecto da cultura e do comportamento acima do nível familial. Por isso é difícil afirmar, em qualquer altura, quais as ações dos caçadores e coletores que são, exatamente, econômicas, ou políticas, ou religiosas, ou mesmo artísticas.
   essa característica de não-especialização da sociedade primitiva resulta num contraste sobremodo importante com a civilização moderna. Significa que um individuo adulto participa muito mais plenamente de todos os aspectos da cultura do que o fazem as pessoas de sociedades mais complexas. O concomitante para a personalidade é que, devido ao contexto social intimo em que é realizado, os seres humanos nas sociedades primitivas estão personalizados e individualizados.(1)  Parece paradoxal afirmar, como fizemos de tempos em tempos, que as sociedades em nível de bando são fortemente igualitárias, e, agora, enfatizar a individualidade de seus membros. Quando dizemos que uma sociedade primitiva é igualitária, significa isso que ela é fortemente resistente à condução através de um poder autoritário de qualquer espécie. Mas, dentro dessas sociedades, as pessoas não são individualmente iguais no sentido de serem todas semelhantes umas às outras.  Cada pessoa é diferente das demais em termos de características físicas e psicológicas puramente pessoais, assim como em status tais como idade, o sexo, o estado marital etc. Mesmo na vida econômica, não existem classes ou categorias  de ricos ou pobres, trabalhadores intelectuais ou manuais, gente especializada e não-especializada. Esta ou aquela pessoa é o que é, relativamente dotada para alguma tarefa particular, inexperiente ou inepta para outra, e assim por diante.
    A individualização da pessoa, na vida primitiva, é a antítese do que tem sido chamado individualismo, violento ou não, na sociedade moderna. O nosso próprio individualismo está relacionado com a separação mecânica  das pessoas entre si mediante a especialização no trabalho e na educação, e fragmentação do comunalismo da família e a crescente separação da família nuclear das outras. Há uma crescente padronização e "união" dentro das classes e das ocupações, enquanto que, ao mesmo tempo, observa-se uma solidão cada vez maior. Aí esta o paradoxo, como Stanley Diamond o descreve: " A civilização racionalizada, mecanizada e secularizada tende a gerar variedades padronizadas e modais de pessoas, em vez de variedades naturais. o individuo esta sempre em perigo de se dissolver na função ou no status ... Entretanto, é precisamente essa espécie  de "individualismo" que impede o desenvolvimento de pessoas indivisíveis, essa união intima de contrários. Parafraseando Erich Kahler, a história da civilização poderia muito bem ser escrita como uma historia da alienação do homem". (2)


* Capitulo de resumo final do livro "Os Caçadores" publicado no Brasil pela  Zahar editores, em 1971. A versão original foi publicada em 1966 , EUA. tradução: Álvaro Cabral

notas:
1. Ver o interessante desenvolvimento deste ponto por Stanley Diamond, "The search for the Primitive", em Man's Image In Medicine and Anthropology, coletânea organizada por I.G.Gladston (Nova York: International Universities Press, 1963) págs. 62-115.
2. Ibid., págs. 104-105.