O outro lado da história
por Massimo Passamani
Colocar o passado em movimento para fazer uma aventura do futuro.
Acredito que as razões para manter as experiências
teóricas e práticas passadas como material para os
historiadores está contida nesta perspectiva. A história
foi sempre a história dos mestres, e isto não é
apenas porque, como é bem conhecido, eles são os
únicos que escrevem a história, mas também porque
este mundo, o mundo deles, nos força a olhar para a historia
através dos olhos deles. Os organizadores da obediência
sempre tem usado o passado para propósitos policiais e de
propaganda, mas isto não permite que eles saibam a
história. Ao contrário, precisamente este conhecimento
tem permitido ao poder unir eventos em relação com o
controle, sacrifício e repressão. Para o passado carregar
seu funcionamento como um argumento para a atual sociedade, é
necessário, no mínimo, saber o que remover, o que
significa, remover os episódios e razões mais
significantes das lutas dos explorados - tudo aquilo que a
história apresenta como um malogro.
Os explorados, ao contrário, raramente tem sido abeis ao reduzir
a história em uma grosseira cronologia - ou em um
calendário com tantas datas para celebrar - para encontrar outra
ligação para a história, a da revolta, e
então entender os motivos, os mais radicais motivos e os limites
desta.
Os apologistas da dominação obviamente não deixam
de reescrever o passado, mas eles estão cada vez mais
des-familiarisados com ele.
Num um mundo onde se reage a cada caso de mal-estar com um
remédio que é sempre pior e que garante apenas a completa
irresponsabilidade de quem usa; onde a passividade do trabalho é
entendida ao "tempo livre" através da contemplação
de uma tela ( de uma televisão ou de um computador); na qual os
próprios mestres - poderosos devido a submissão que
é concedida a eles, na esperança de que eles, ao menos,
sabem para onde o mundo está indo - são muito mais
auto-confiantes devido a terem, cada vez mais, feito da lei, "enquanto
ela durar", suas leis - em tal mundo idiotizado que deseja a
eternidade, o passado não tem significado.
Agora, se por um lado, isto reforça o totalitarismo da sociedade
atual (fora disto não existe nada), por outra lado, isto torna
seus administradores mais estúpidos. Pelo momento, desde que
eles permitam isso.
A inteligência - mesmo histórica - da estratégia da
preservação é proporcional aos perigos da revolta.
No mesmo nível (eis o porque que eu disse 'olhar para a
história com os olhos dos mestres'), mesmo os subversivos
têm se sentido "livres" uma vez aliviados do peso do conhecimento
do passado. Esta é a idéia de que a história (
não a dos especialistas, mas mesmo aquela que não separa
as idéias das ações, que são escritas fora
dos desejos e que armam a inteligência) acabam aprisionando a
vida. O que ainda continua sem ser mencionado é exatamente como
é histórica esta idéia. (Qual a diferença
de uma reflexão originada de uma leitura sobre o que
alguém disse de uma reflexão que se origina ao saber o
que alguém fez? Vamos pensar isto como muitos indivíduos
juntos. Por que a primeira reflexão considerada, por exemplo,
"filosofia" , enquanto a segunda é considerada
"história"? na minha opinião, não existe
distinção). Parafraseando um aforismo bem conhecido,
pode-se apenas dizer que a ignorância atual tem valor retroativo.
Agora esta ignorancia tem muitas faces, caso, como é
evidente, seus distribuidores sejam acima de tudo historiadores
(incluindo aqueles "do movimento").
Então, para não continuar indo além, é
suficiente considerar todo o barulho de propaganda com
relação a um filme sobre a revolução
espanhola.
Para muitos anarquistas esta feito não perece certo . Pelo menos
a bandeira vermelha e negra, o sindicato revolucionário, os
coletivos, a auto-gestão, Durruti. Agora, falando a verdade,
nós mesmos estamos falando.
Pessoalmente, para deixar claro, não tenho nada contra as
discussões e livros sobre a revolução espanhola.
Mas toda essa conversa sobre a revolução espanhola tem
contribuído para fazer entendermos este distante evento melhor (
e este "melhor", para os anarquistas, seria no sentido da atual
perspectiva)? Sinceramente, eu acho que não. Para mim, de forma
contrária, parece que contribui mais para a
mumificação, para o testemunhal, para a história
monumental. Como muitas vezes acontece, a ocasião predeterminou
o conteúdo. Livros sobre revoluções
libertárias tem aumentado. E ainda assim, o que um desses
livros dizem sobre um movimento revolucionário como o de 1930? -
não o espanhol.
O que a auto-gestão das fábricas significaria agora? O
que fazemos sobre os sindicatos? Em quais locais do capital uma
concepção insurecionária poderia ser agora
relacionada? Como criamos as possibilidades, num momento
revolucionário passageiro e inesperado, sem
transição, para a destruição ou
transformação radical desses locais? O que significa na
realidade derrubar as autoridades? O que significa abolir o mercado?
Apenas colocando questões como essas a discussão sobre a
revolução espanhola terá significado.
Apenas desta maneira isto se tornaria uma questão aberta por si mesma.
Mas pode-se entender pouco se olharmos para isso como uma
realização, mesmo que temporária, de um ideal. Com
tais aproximações, tudo o que resta a fazer é
distribuir imagens de santos. E então, para a
celebração, é necessário preparar os
eventos (seja o controle burocrático e a contra
revolução dos lideres "anarquistas") e os seu melhores
trajes de festa.
Por que, por exemplo, é tão pouco conhecido sobre os dias de maio de 1937 em Barcelona?
Por que ninguém fala sobre os chamados dos
uncontrollables
(Incontroláveis) que diziam que os ministros "anarquistas" eram
tão reacionários como todo os outros reacionários,
e que era necessário atirar neles da mesma maneira ?
Algumas páginas da história dizem mais do que uma
enciclopédia inteira quando a sugestão teórica
para uma prática de reinventar a prática é lida
nos próprios eventos. Necessita-se apenas ler dessa maneira para
saber disso.
Isto poderia ser interessante então para realmente refletirmos
sobre as peças pregadas e os erros (e também as
esplendidas e prazerozas resistências) de tais dias.
Para conectarmos tais dias com outras insurreições
e outros erros, conectar com o presente.Para dar um exemplo,
poderíamos reler a história dos movimentos insurrecionais
através da ruptura - moral e não relato-policial -
representada pelo dinheiro (alguém pode pensar na recusa em
atacar bancos, começando pela comuna de Paris, passando pela
revolução espanhola, terminando em maio de 98
Francês; ou por outro lado, as expropriações feitas
pelos trabalhadores insurgentes da Patagônia na década
de 1930). Pode-se ler isto como marcos subterrâneos da
gratuidade e do festival, ou das relações amorosas, ou ,
ou....
Porém aqueles que atacam a propriedade, silenciam os lideres e
sacodem as relações sociais atuais sem qualquer objetivo,
o que eles podem nos dizer sobre os indivíduos que tentaram
fazer isto ontem, um dia antes, ou 70 anos
atrás?