Algumas palavras sobre domesticação, revolta
e de que lado nós estamos
A
ferocidade se manifesta quando a existência livre é
molestada. Assim como um animal se debate quando é capturado,
quando uma mãe ursa defende sua cria, quando índios lutam
até a morte contra os colonizadores, quando povos africanos
escravizados se rebelaram contra sua condição e fugiam
para voltar a viver de uma maneira comunal; os luditas destruindo as
"fábricas de opressões", os jovens imigrantes e filhos de
imigrates na França, que recentemente entre os anos de 2005 e
2006, queimaram carros, escolas, lojas e prédios do Estado
em resposta ao assasinato de dois adolescentes que fugiam da
polícia. Estes são alguns exemplos de que a rebeldia
sempre estará presente quando nossa liberdade e aqueles que
amamos forem ameaçados e molestados. A rebeldia esteve presente
desde o inicio da civilização e estará até
seu fim.
Porém,
hoje parece que muitos estão aceitando passivamente a
domesticação, aceitando pacificamente o roubo de nossa
existência.
O que
está nos separando da nossa ferocidade? O que está
nos deixando cada vez mais distantes de nós mesmos ao ponto de
nos tornarmos uma mera peça de engrenagem da
civilização, nos privando de uma existência plena
em comunhão com a natureza e ainda acreditarmos que está
tudo bem?
Estão sugando toda nossa vitalidade, e estão tomando cuidado para nos deixarem somente o medo.
Claro,
não é preciso dizer que a inércia, as bugigangas
inúteis e tóxicas e as propagandas que 24 horas por dia
nos dizem que só seremos felizes se comprarmos mais e mais
bugigangas, quando assistimos mais e mais programas de tv e
espetáculos, e que votar periodicamente para prefeito,
governador e presidente cria a ilusão de estarmos numa sociedade
onde temos poder de escolha e decisão, enfim, que tudo isso
colabora para a sensação de que tudo está bem.
A rebeldia
é um anticorpo. E esse anticorpo é um dos principais
alvos que as forças domesticadoras se empenham em anular.
O Brasil, por exemplo, é um lugar onde as forças
domesticadoras têm conseguido com muito êxito manter
anestesiada a revolta. O dia 7 de setembro ( data de uma
comemoração nacionalista e patriota, ou seja, racista e
separatista ) não encontra nenhum obstáculo - o
método de domesticação através do
nacionalismo tem sido um sucesso. Nas escolas aprendemos que os
quebradores de máquinas (ludditas) são uns vândalos
e ignorantes que não queriam o progresso, e também na
escola aprendemos a venerar o progresso, a tecnologia , o
desenvolvimento e o crescimento econômico; aprendemos
também que o Estado, o maior parasita da humanidade, é a
vontade do povo (pelo progresso) e que a polícia é
necessária para manter a ordem e segurança, pois sem isso
teríamos a 'anarquia'. Na escola também aprendemos
como matéria principal a obediência e o respeito a
autoridade: ir ao banheiro somente quando for autorizado, vinte minutos
de intervalo, provas, horários, lição de casa,
professores e diretor; aprendemos na escola que a rebeldia e a
desobediência é 'delinquência', mas não
explicam a origem da 'delinquência'. O que é a
'delinquencia'?
Nossa
existência e capacidade de cuidar de nós mesmos
estão sendo roubadas pelo trabalho a troco de bugigangas e de um
'tempo livre' regado a mediações e espetáculos; o
planeta está sendo arruínado: florestas estão
sendo devastadas e a urbanização se espalha
desenfreadamente, mares poluídos e desertos azuis se propagam,
rios estão sendo mortos e modificados; povos indigenas (aqueles
com quem temos muito a aprender) com suas terras invadidas e roubadas
se tornando seres desenraizados, muitas vezes suicidas e alcoolizados
frente ao vazio de suas vidas roubadas e a visão de seus filhos
morrendo de fome e de doenças civilizadas*; animais são
mortos diariamente aos milhões seja pela agricultura ou pela
pecuária, o industrialismo e a urbanização
contribuem para a matança daqueles com quem compartilhamos este
planeta seja pela devastação ambiental por recursos e
expansão, seja pelas estradas que cortam ecossistemas inteiros
para poderem escoar as bugigangas produzidas por toda parte; outros
tantos milhares de animais são torturados em laboratórios
diariamente na desculpa de 'buscar a cura dos males que afligem a
humanidade' (antropocentrismo à parte, 'cura' de doenças
criadas pela própria civilização), isso sem citar
o uso de animais para a "diversão", uma humilhação
sem tamanho contra nossos irmãos. E assistimos também o
espetáculo ou choro das falsas e parciais
oposições que não entendem ou não querem
entender que o mal se corta pela raiz.
Isso tudo
está acontecendo aqui e agora, diariamente. E sujeitos a um
cotidiano degradante de trabalho e consumo, o que temos é
conivência, e não desobediência/insurgência e
revolta, e assim se continua a assistir a nossa
destruição e a destruição do planeta (na
ilusão de que a reciclagem e o biodiesel nos
salvará do aquecimento global).
A
insurgência, a desobediência, a revolta contra a
civilização está se levantando energicamente assim
como o planeta está reagindo as mudanças que nosso modo
de vida causou. O selvagem se vinga! não se pode controlar o que
é selvagem! A revolta é inevitável.
A revolta contra a civilização em “duas frentes”
De maneira alguma quero tentar limitar a revolta em 'duas frentes' , mas penso que seja útil aqui abordar desta maneira.
As duas frentes:
1) A construção de um novo modo de vida baseado em fundamentos contrários aos da civilização.
2) O ataque contras as estruturas físicas da civilização (tais estruturas tem nome e endereço).
Primeiramente a
construção de nossa autonomia. Essa autonomia obviamente
é em todos os níveis. Isso significa romper a nossa
dependência do Estado e do mercado, significa a
construção de novos modos sustentáveis e
biocêntricos de providenciarmos as nossas reais necessidades para
nós e para os nossos queridos; significa a
reabilitação dos nossos sentidos adormecidos, de nossa
espiritualidade única e individual, o que requer a
reapropriação do tempo e espaço; novas maneiras de
compartilharmos o conhecimento da experiência humana, novas
maneiras de nos relacionarmos com o nosso planeta e seus habitantes. E
nisso, o resgate de nosso passado (extremamente recente) nomade
coletor-caçador tem uma grande importância, não
significa retorno, significa resgate, significa cura.
Alguém
pode considerar esta estratégia não como um ataque mas
sim uma 'oposição passiva', eu discordo completamente, a
não ser em casos de auto-isolamento ( e mesmo assim não
vejo com maus olhos tais iniciativas).
Ao meu ver,
construir a autonomia é um forte ataque à
civilização, construir uma nova comunidade que não
se baseia nos fundamentos da civilização é um
golpe firme contra a civilização, pois fazer acreditar
que existe somente uma maneira de viver, somente uma maneira 'certa' de
viver é um das ferramentas mais eficientes da
civilização para nos manter reproduzindo a sua
lógica, para nos manter nas suas engrenagens. Exemplos de outros
modos de vida são uma arma vital contra esta forma anuladora da
vida e da diversidade. Mas esta construção não
é a construção de um gueto, é uma ofensiva
persistente.
É bem
claro que para criarmos esta autonomia, para reapropriarmos o tempo e
espaço requer também o ataque físico a
civilização, e é sobre isso que eu vou falar
brevemente agora, a segunda 'frente'.
Construir uma
nova vida requer destruir o velho mundo, e isto significa também
o ataque contra as estruturas físicas da
civilização. Este ataque, penso que vai desde
pichações até sabotagens das estruturas
tecnológicas e industriais que sustentam o sistema e seu
maquinário de repressão e controle.
É bom eu
ter falado nas pichações pois isso leva a um pequeno
detalhe de grande importância: as pequenas ações.
As pequenas ações como pichações,
ocupações/squats e a sabotagem menor, além de
serem estratégias que exigem técnicas e materiais que
são acessíveis a qualquer indivíduo, possuem um
efeito qualitativo muito importante contra a "paz social", em outras
palavras, contra a dormência dos domesticados. O sistema
obviamente não teme estas pequenas ações, o que
ele teme é a difusão destas pequenas ações,
pois por sua facilidade de reprodução pode despertar a
paixão da revolta contida entre os indivíduos explorados.
O ataque ao
sistema deve ser tão variado e diverso o quanto a
imaginação permitir. A arte de atacar e de se retirar
é vital aqui.
A
civilização pode entrar em colapso por não haver
mais alternativas para a extração de recursos, por
exemplo, mas pode entrar em colapso quando não é mais
aceitável a sua existência, e isso nos leva aos ataques
'maiores', ataques contra os tentáculos e contras as principais
veias da civilização industrial. Destruição
de estradas, industrias e laboratórios, torres de energia,
destruição de ferrovias, a sabotagem contra os
avanços da urbanização, a sabotagem contra a
construção de prisões, a sabotagem contra os meios
de comunicação. Enfim, atingir onde dói.
Ao meu ver uma
estratégia depende da outra, uma complementa a outra. Não
existe contradição entre elas. Ambas colaboram para o
colapso.
Uma responsabilidade revolucionária? adiantar o colapso.
Muitas vezes
vejo comentários de que a 'ideologia' do colapso é uma
recusa da 'responsabilidade' revolucionária. Bom, para rebater
este pensamento limitado nada mais útil do que atualizarmos o
que significa 'colapso'. Pelo menos eu entendo e visualizo o colapso
como a revolta da terra e de seus habitantes contra a
civilização; a falência do industrialismo; o
desmanche de uma ilusão cuiltivada pela televisão, pelos
jornais, escolas e ambientes de trabalho, o que significa o levante
humano contra o que tem sugado sua vitalidade e plenitude. Colapso, ao
meu ver, é também o ápice da revolta.
A
responsabilidade revolucionária, para mim, é o
adiantamento deste colapso, é o jogar com elementos que
provoquem o desmanche da ilusão, é a sabotagem de toda
estrutura física que sustenta esta máquina, é o
ataque surpresa a toda normalidade, é a destruição
de toda jaula e o ataque a todo carrasco e carcereiro, é a
vingança contra todo domesticador.
A revolta contra
a civilização é a cura de uma profunda ferida de
10.000 anos de domesticação, é a
destruição dos agentes que tem nos causado este pesadelo.
Existe uma
guerra contra esta máquina, contra o roubo de nossa vida e a
destruição do nosso planeta. Uma guerra pela vida contra
a civilização.
E a pergunta não poderia ser outra: De que lado você esta?
- Polar
nota:
* A reação dos povos indígenas modo de vida
ocidental é crescente, é o que se entende por 'povos
ressurgidos".