Entrevista com Paul Shepard, por Derrick Jensen

Paul Shepard trabalha com percepção ambiental e ecologia humana por mais de quarenta anos. Nasceu em Missouri e é graduado pela Universidade de Missouri. Phd pela universidade de Yale, onde estudou a relação entre ecologia e arte nas raizes das atitudes americanas com respeito a natureza. Foi um ativista conservacionista na década de 1950, e se tornou professor e escritor.

Seus livros incluem: Man in the landscape: A historic view of the Estetics of Nature; (O Homem na Paisagem; Uma Visão Histórica das Estéticas da Natureza; uma antologia, The Subversive Science (A Ciência Subversiva); um tratado sobre as culturas primitivas, The Tender Carnivore and the Sacred Game (A Oferta Carnivora e o Jogo Sagrado ); e o livro Nature and Madness (Natureza e Loucura), identificando as origens da doença do abuso ambiental no desenvolvimento da criança, ou ontogenia. Recentemente o seu trabalho tem explorado os papéis dos animais na cultura moderna, notavelmente nos sonhos e no desenvolvimento da identidade pessoal. Deste trabalho surgiu o livro Thinking Animals - Animals in the Devolopment od Human Intelligence  (Refletindo Sobre os Animais - Os Animais e o Desenvolvimento da Mente Humana) e (com Barry Sanders) The Sacred Paw: The Bear In Nature, Myth , and Literature (A Pata Sagrada: O Urso na Natureza, Nos Mitos e na Literatura).

Derrick Jensen: Se a destruição do mundo natural não esta nos fazendo felizes, por que estamos fazendo isso?

Paul shepard: Todo ano, durante trinta e cinco anos, começo o curso com esta questão, e ainda não tenho qualquer resposta. Mas posso lhe dizer as duas principais direções que meus pensamentos têm me levado. A primeira é que as experiências históricas com o ambiente natural condiciona nossas reações a isto e nossas idéias sobre isto. Quais são os antecedente culturais e ecológicos das atitudes e idéias ocidentais?  Uma é a nossa crença em um mundo futuro que será melhor que o atual; outro é a "necessidade" de dominar a natureza, uma terceira é aquela aguda divisão entre humano e o não humano, entre o espiritual e o corporal. Estas crenças emergem de um legado de destruição catastróficas por povos que nós hoje identificamos como Sumérios, Mesopotaneos, Indo-europeus, Hebreus, Gregos e Romanos. Suas idéias sobre eles mesmos se formaram em um lugar onde o solo foi exaurido, as florestas já tinham sido sériamente prejudicadas, e o ambiente foi cada vez mais sujeito a secas, inundações e surtos de pestes. Se o mundo onde a vida é deteriorada, empobrecida, insustentável, parece estar esgotada e não oferece esperança nem conexões, a esperança de alguém poderia ser colocada em outra vida ou em outro mundo. Se a Terra não tem sido nutrida, como tem acontecido atualmente na África e em muitas outras partes do planeta, onde há mais pessoas e recursos insuficientes, não há razão para que alguém devesse se preocupar em sustentar a Terra. O ciclo de desespero, rejeição e abuso do planeta se alimenta em si mesmo.
Minha segunda direção parte do processo de desenvolvimento pessoal. Tudo que sabemos sobre as primeiras experiências individuais na vida tende a sugerir que muito do que pensamos , sabemos e como entendemos, já foi sido determinado para nós pelo tempo quando ainda tinhamos dez anos. Somos profundamente comprometidos psicológicamente exatamente no inicio da vida. Então é depois que nossos conceitos e idéias adultas articulam estas primeiras experiências, Dando lógica aos motivos que percorrem por baixo de nossa consciência. A questão para qual procuro uma resposta preliminar em Nature and Madness vem a ser: O que podemos identificar como sendo a característica do início da infância no mundo ocidental que nos levaria como adultos a perceber o mundo natural como hostil para nós mesmos, como algo que requer controle e dominação, algo a ser temido, e como algo que rejeitamos por algum mundo mítico que é melhor que este?
Outra maneira de perguntar isto é: Como as crianças crescem de forma diferente em sociedades de pequenas escalas, e que não são altamente desenvolvidas tecnológicamente, particularmente as sociedades primitivas na qual estamos cercando, como oposto ao modo que elas crescem em sociedade pastoris, de agricultura altamente desenvolvida ou urbanas?
Quais as diferenças entre a criança civilizada e a tribal se levantam e que expressa uma predisposição da criança civilizada a ser mais temerosa e controladora do seu mundo quando adultas?
Estas duas linhas de pensamento vem juntas. Se os povos no vale dos rios Tigre e Eufrates, e na "terra sagrada" das religiões mundiais, viveram em uma crescente superpopulação, num mundo perigoso, ameaçador e empobrecido, isto teria afetado a maneira que cresciam suas crianças e as marcas de crianças nas emoções adultas. Somando isto ao fato de que a vida pastoril cria um senso de alienação do mundo  natural que é até mesmo mais extremo do que dos povos agricultores, possivelmente mais que os povos urbanos. O terror criado pelas culturas eqüestres distorceu o modo na qual as crianças cresciam e no modo como o homem e a mulher se relacionavam. Os eqüestres criaram um traumático senso de condenação.

Derrick Jensen: O que causaria esta alienação entre os povos pastoris?

Paul Shepard: Primeiro, a falta de dependência do solo os cortam do tipo de cosmologia que povos plantadores tendem a ter. Os povos pastoris são orientados pelo céu; seu principal interesse é com os fenômenos celestiais- metereológicos, tempestades, as quais tendem a diminuir uma crença no poder espiritual da terra e da manifestação do sagrado em paisagens terrestres. O pastoralismo montado é a origem de várias formas de monoteísmo que tomam lugar do sagrado em qualquer lugar que não seja a Terra, e tende a diminuir, devido a sua desigual relação de gêneros, a idéia de uma mãe Terra, ou do princípio feminino na terra, substituindo e direcionando-se para alguma forma de Deus Sol ou do Céu. Estes povos poderiam ver a si mesmos em sua essência como seres não terráqueos, tendo um lar celestial de onde vieram e pra onde retornarão. Isto não soa familiar?

Uma segunda causa da alienação ecológica entre os pastoralistas é a interposição de animais domésticos entre eles mesmos e todos os outros animais. Isto inclina sua percepção do significado e da Natureza dos animais.
Terceiro, o tipo de mobilidade envolvida é bem diferente da mobilidade nômade dos coletores-caçadores. Os pastoralistas nos ambiente subtropical semi-arido constantemente coletam e se movem num  mundo de vegetação e água limitada. Sendo assim , são intensamente competitivos entre eles mesmos em relação a esses recursos, seus grupos sociais tendem a ser organizados numa estrutura semi-militar. E quanto mais nômades estas sociedades são, mais hierárquicas e patriarcais elas são. Quanto mais injusta a relação de gênero, mais elas estão envolvidas num mundo de agressão e defesa organizada contra outros grupos e o mundo natural. E também, quanto mais numerosos e portanto mais bélicos são, mais a área é superconsumido e sua biodiversidade  e complexidade é reduzida.

A vida num ambiente degradado, mais uma vez, não te faz se sentir em casa. E se seu ambiente não te sustenta, não há por que sustentá-lo ou  se unir com aqueles que fazem isto. Isto faz ficar claro sobre o porquê que a preocupação hoje em dia por coisas como biodiversidade e "natureza" pode ser vistos com mera luxúria dos  ricos. Apenas aquele que é confiante e seguro pode se permitir  em se preocupar com a existência de uma grande quantidade de espécies de criaturas no mundo, enquanto
considerando que nós - ou seja quem que for "nós" pareça ser - sempre precisamos de mais espaço, energia, recursos materiais, terra , agua. Afinal, o que o Condor da Califórnia tem feito por mim?

Derrick Jensen: O que o Condor tem feito a você?

Paul Shepard: Tem me dado, e continua me dando, uma compreensão das diversas formas que a criação pode tomar e o meu próprio lugar limitado em um enorme e complexo outro mundo que não foi criado para mim. O condor, juntamente com os sapos e as salamandras que estão desaparecendo, são uma constante lembrança de que eu não sou o centro de tudo.

Uma vez que eles se forem, e não temos nada em seu lugar, mas apenas ovelhas ou vacas e cavalos, cavalos que se tornam nosso modelo de "Força-cavalo" e conseqüentemente de domínio - quando não temos nada a deixar, mas isso, não haverá evidência de que nós não somos o propósito de tudo isso - uma ilusão. Não haverá um verdadeiro outro no mundo para nos manter ambos saudáveis e humildes.

Derrick Jensen: Nesta cultura então um nível de pré-consciência intencionalmente destrói a biodiversidade? A Forest Service(1) esta destruindo intencionalmente as ultimas florestas deste lugar?

Paul Shepard: Eles poderiam ser os primeiros a contestar que eles não estão destruindo a floresta, mas sim preservando-as. O que eles estão atualmente fazendo, apesar, é continuar um processo de domesticação que começou a cerca de dez mil anos atrás. As "Forestry school" (2) ainda alimentam a substituição de florestas por plantações de árvores no mundo todo, numa suposição de que plantação de árvores são florestas. Num nível pré-consciente, como você disse, eles estão substituindo florestas selvagens por algo cada vez mais aproximado da domesticação de plantas e animais, com os quais nos tornamos tão familiares.

Vejo o processo de domesticação de uma maneira relativamente diferente do que as outras pessoas vêem. Minha visão volta basicamente ao trabalho da geneticista Helen Spurway, que identificou a domesticação como a produção do que ela chamou de Goofies (patetas, tolos), organismos altamente minimizados que têm sido radicalmente modificados através da de manipulação genética a partir do que seus ancestrais selvagens eram. Tal como nós de modo crescente domesticamos comunidades selvagens, e por isso reduzindo sua fantástica vitalidade, vigor, inteligência, e um complexo funcionamento, nós continuamente criamos um tipo de mundo que nossa filosofia nos leva a acreditar, alguém subordinado aos nossos próprios desejos e de fato criado para nosso próprio uso.

Uma vez que você começa a domesticar plantas e animais, você se move para uma cosmologia e sistema de valores diferentes, e uma prepotente inclinação cultural. A melhor evidencia sobre isto é o que aconteceu com os !Kung na Africa do sul. Quando eles foram forçados a se transformar de coletores-caçadores para agricultores, o numero de crianças por mulheres cresceu, sugerindo que as sociedades agricolas favorecem o crescimento populacional. Uma economia monetária e a doença fisica e social da civilização fez suas aparições.

No passado foi aceito historicamente que a população cresce por  ter mais comida disponível, e os povos primitivos teriam sido mais numerosos se não tivessem algum tipo de limitação natural - Doença ou alimento. O que aparentemente não é o caso. Algo diferente aconteceu para causar o direcionamento humano rumo a fecundidade para romper como uma doença, uma vez que você adota a vida sedentária associada com animais e plantas domesticadas.

Toda a questão da vida nômade versus vida sedentária pode ser vista em termos de o que as pessoas podem carregar. Se você tem quatro crianças e nenhum animal doméstico, será mais difícil ser nômade. Algumas vezes têm se argumentado que isto é a razão por coletores-caçadores nômades não terem mais filhos, Porém, mais uma vez, não penso que é tão simples. Por exemplo, outro fator importante é o uso do leite de outras espécies. Possuindo um suplemento extra de leite facilita termos crianças extras.

O leite é um ganho a curto prazo a custo de uma miséria a longo prazo. Nós temos pensado que o leito de vaca é algo muito saudável e importante, porém , estamos descobrindo, nos finais do século XX, que o leite não é algo bom, afinal. Nós já temos passado por todo tipo de sofrimento humano para encontrar o que os povos primitivas já sabiam - posto que leite de vaca deve ser certo para vacas, isto não é bom para nós; fora as relações com os animais.

Existe um crescente corpo de evidencias que desde que somos essencialmente seres paleolíticos do pleitoceno em nossa última evolução, possuindo corpo, psique e fisiologia do pleitoceno - O melhor modelo de uma maneira de viver é algo que esta crescendo do nosso entendimento de como nossos ancestrais viveram cinqüenta mil anos atrás, quer seja o exercício, a nutrição, o tamanho do grupo, relações inter familiares, relações de gênero, o modo como as crianças crescem, ou o modo no qual as pessoas lidam com o senso de integridade do mundo não humano ao redor deles.

Derrick Jensen: Como você responde as pessoas que lhe dizem que não podemos voltar a ser pessoas do pleitoceno?

Paul Shepard: A razão pela qual você não pode voltar a ser é porque você nunca deixou de ser uma pessoa do pleitoceno. Isto é o que eu e você ainda somos.

Voltar atrás culturamente não é uma questão de transformação total, como uma pessoa que vê o mundo como essencialmente dicotômico deve supor.
Não somos "isso ou aquilo". Todas as culturas são mosaicos. A cultura , como nosso genoma, como um ecossistema, é feito de um grande número de componentes que são separáveis.

Recentemente tentei identificar cinqüenta ou sessenta características da vida pleitocena que pode ser tratadas mais e/ou menos separadamente. Auxílio e adaptações devem ser feitas, mas não há razões que nos impeça de começar a identificar e a recuperar ao menos aspectos do que realmente somos. Fazer o que precisamos para conhecer mais sobre nossas heranças. Parte da crise do mundo contemporâneo, obviamente, é que as pessoas que estão vivendo neste tipo de cultura estão desaparecendo. A necessidade de protejê-los é certamente tão grande quanto a necessidade de proteger as espécies da extinção.

Derrick Jensen: Quais são algumas dessas características pleitocenas, e como recuperá-las ?

Paul Shepard: Uma infância na qual a criança está constantemente em contato com pessoas e crianças são muito mais constantes a presença de outras vidas não-humanas, e o selvagem, são ambos necessariamente preparações para uma filosofia de estar compartilhando, como uma espécie em muitas. Nós temos imaginado de um modo vago que a natureza é boa para a criança, mas tem ocorrido relativamente muito pouca investigação sobre o que acontece com o coração e mente de uma criança , que deve vaguear na presença de insetos e de toda uma extensão de plantas e animais. Em parte isto tem haver com taxonomia, com o surgimento espontâneo da fala em conexão com o nomear um largo número de espécies de coisas, formas vivas são as bases para a habilidade de perceber e categorizar. Se entendermos melhor tal processo, igualmente como a maneira que isto facilita todos os nossos pensamentos posteriores na vida, prestaremos mais atenção a essas experiências da diversidade biológica e do livre universo da infância. Nós prestaríamos mais atenção para a necessidade de identificar as formas vivas, observando eles bem de perto, e prestando atenção em seus hábitos. Isto é inerente para nosso ser e uma parte normal do crescimento de experiências de pessoas em sociedades de pequena escala.

Um outro modo que obviamente temos abandonado de nossas heranças hereditárias pleitocenas é a dieta. A carne selvagem é diferente bioquimicamente da carne doméstica e é melhor para você. Isto não surpreende, ao menos devido a insalubridade da carne doméstica, o porque que nós estamos nos tornando cada vez mais vegetarianos.

Eu sugeria também que nós alterássemos o nosso uso do espaço tomando em consideração o que tem sido chamado de "grupo de doze adultos". Este é um  ótimo tamanho para tomar decisões, proteger pessoas de indivíduos autoritários, e permitir que todos participem. Não existe razões para que não podemos desenvolver nossa vida  e trabalhar espaços para facilitar o tipo de pequenos grupos de decisões face-a-face, mesmo no mundo moderno.

Outra área interessante é a arte. Recentemente tive algumas conversas com Paul Winter sobre seus pensamentos sombre música participativa, como uma oposição a música que separa o executor do ouvinte. A música simboliza a maneira como nós socialmente nos submetemos a regimes autoritários.  Imagine a diferença na construção social que leva a maneira como usamos, ouvimos e experimentamos a música. O concerto de uma sinfonia, com sua virtuosidade insular do compositor, condutor, e solista, com o silencio da audiência, cada pessoa sentando em seu próprio espaço isolado, receosa de tossir ou falar, como oposto a tudo que sabemos sobre música "étnica" participativa, a qual não é lida a partir de roteiros e não segue lideres autocráticos ou grupos ordenados. A música nas sociedades de pequena escala unem ao invés de separar. Nos isolar disto, nos fazendo como observadores inertes ao invés de participantes, parece uma das grandes rupturas que eu poderia chamar de nossas necessidades pleitocenas e a maneira como nós lidamos com a alta arte nas sociedades modernas.

Mais uma vez, quanto mais sabemos sobre como as pessoas viveram antes de dez mil anos atrás e a maneira como algumas sociedades de pequena escala ainda vivem, a idéia clara que nós temos para um modelo com o qual reorganizar nossa própria cultura e nossa sociedade. A objeção de que você não pode voltar atrás, a qual eu tenho ouvido por vinte e cinco anos, é o fanatismo da historia, meramente uma desculpa para não olhar para as possibilidades.

Derrick Jensen: Se a vida numa comunidade de coletores-caçadores é mais apropriada para o ser humano do que uma vida numa sociedade densa e centralizada, por que nós mudamos?

Paul Shepard: Porque aprendemos a plantar e proteger. existem evidências de que as primeiras vilas neolíticas, como os acampamentos dos coletores-caçadores, não tinham muros contra os agressores militares. O conflito entre grupos primitivos tendem a uma direção altamente individualizada, com homicídios ocasionais, e como uma manifestação de ostentação social. Isto quase nunca envolve ocupar a terra de alguém.

Mas como a densidade humana cresceu, levando a diferentes economias e sociedades, as pessoas se tornaram cada vez mais desesperadas com propriedade de terras, expansão, defesa, e a exclusão de outras pessoas. Aqui temos então, em uma mão, culturas a quem não tem ocorrido o tomar espaçõs de outros povos e converter estas pessoas de maneira violenta a outros meios de vida e, na outra mão, sociedades com agressividade, controle, e estruturas de poder centralizadas.

Isto aconteceu e continua a acontecer, de novo e ao redor do mundo. A maior parte, os coletores-caçadores inicialmente eram receptíveis com os estranhos, supostamente tão generosos quanto entre eles mesmos. Isto resultou em eles serem colonizados e destruídos ou escravizados.

Isto leva para algumas interessantes idéias sobre primatas do primatologista M.R.A. Chance. Ele entende os dois tipos de sociedades que descrevi acima como representantes exatas de diferentes espécies de primatas e argumenta que temos em nossa experiência evolucionária primaria o potencial para cada uma dessas maneiras de ser. Você pode organizar sua vida através de controle, conflito, competição e a subordinação de outros, ou você pode organizá-la através da cooperação, do compartilhar, e da mutualidade. Ambos os modos estão presentes no extenso genoma primata. Como espécies flexívas, nós podemos ser capazes de adotar um ou outro desses modos biológicos básicos, dependendo de nossas circunstâncias, situação, psicologia e cultura. Ao mesmo tempo , não existe garantia de que a aparente lógica para alguns de nós de que o modo da cooperação, do compartilhar, e da mutualidade seja melhor irá convencer todo mundo.

Jane Goodall e seus sucessores também mostraram que quando os chimpanzés estão providos de mais alimentos do que eles podem comer em certo tempo, eles se tornam conflitantes e competitivos, com tiranos que surgem entre eles que ameaçam, intimidam e fere os outros.

Isto sugere uma analogia a criação dos estoques pelos agricultores que alguém deve proteger, controlar, e distribuir ou acumular. O poder se torna centralizado num mundo onde a natureza não é mais o seu armazém.

Derrick Jensen: Quais são as suas visões sobre o colapso de que muitos ambientalistas falam? Você tem esperança?

Paul Shepard: Eu penso que o desastre ecológico e planetário é uma realidade. Mas a imaginação popular é um erro. Não é algo que possivelmente vai acontecer. Nós estamos no meio do colapso neste ultimo século. Devido as imagens de catástrofes bíblicas e hollywoodianas, com muralhas sendo destruídas e pessoas gritando. Não é algo assim. É muito pior, é algo sutil que identificamos como qualquer coisa - arrogância, pobreza, recessão, doenças mentais, suicídio, má colheitas, tensões políticas, fome, descontentamento social - tudo isso exceto sua verdadeira natureza, a desintegração dos sistemas naturais. Não tem nada haver com as questões da mídia "A espécie humana irá sobreviver?", porque uma espécie resistente como a nossa não esta pronta para uma cavalgada rumo a uma eventual extinção.

Obviamente eu tenho esperança. Por que não? é barato e acessível. É também o ultimo recurso. o que permite alguém estar vendo como uma rachadura adiante desafiando o "problema" no lugar de tomar um amargurada misantropia e esperar algum sino final.

Derrick Jensen: No livro O Homem e a Paisagem você escreveu: " Em toda viagem que vale a pena, a busca por Deus, pela realidade e pela verdade deve ocupar um centro de forma filosófica e psicológica". Podemos substituir outras palavras para viagem: conversas, relações, ações, sexualidade, ócio, exploração, arte.

Paul Shepard: Desde a Renascença, as artes têm sido desconectadas do resto da cultura, particularmente da religião. Pelo fim do século XIX eram desconectado até mesmo do conteúdo, então você tinha um corpo de especialistas os quais julgam internamente a si mesmos em critérios puramente abstratos, no lugar de qualquer tipo de conectividade com o mundo natural, com as necessidades ecológicas do ser humano,  da vida social e econômica humana.

Numa crescente desconexão das artes com o resto da vida, e particularmente da crença religiosa e do psicológico, nós temos mais uma vez nos separado de nossas experiências tribais e identidade humana. As artes têm sido sempre parte do significado pelo qual as pessoas articulam e participam nestas coisas centrais que eles acreditam. A arte ainda faz este tipo de coisa sem ser realizada. Formas pictoriais alienadas falam para a nossa grande alienação da natureza, no cosmos.

Derrick Jensen: A separação da ciência, arte, e do sagrado da vida diária pareceria ser uma conseqüência natural de envolver você mesmo com criaturas domesticadas e seu próprio produto, tanto quanto, o resultado de colocar um Deus monoteísta "distante".

Paul Shepard: É um sistema que se alimenta de si mesmo. Imagine as circunstâncias de crescer hoje em dia, rodeados não só de domesticação e em oposto ao selvagem mas também sendo encaixado continuamente em estruturas e paisagens que são criações de seres humanos. Nosso gramado de plantas domesticadas, e o assentamento de ruas e o cercamento do espaço por construções, produz a ilusão de que nós criamos o mundo. Tal tipo de marca, usando esta palavra no sentido Lorenziano de um  conhecimento semi-irreversível adquirido extremamente no começo da vida, fornece a si mesmo a noção de que realmente uma divindade de forma humana que está em algum lugar criou este mundo da mesma maneira que criamos cidades. E fez isto para o nosso uso.

Derrick Jensen: O que a palavra  "sagrado"  significa para você?

Paul Shepard: Se refere as inexplicáveis relações e processos que governam a existência. Não há razão para que o sagrado não possa ser manifestado em qualquer circunstância que seja, ou em todas as circunstâncias, mesmo se em algumas seja mais divina que em  outras.

Derrick Jensen: Qual a conexão entre sacralidade, ontogenia e poesia?

Paul Shepard: até o indivíduo ter onze, doze ou treze anos, ele ou ela tomam as coisas de forma extremamente literal. Deus o Pai significa um pai literal, alguém que se assemelha e age como seu pai. Aos quinze, entretanto, devido ao tipo de criaturas que somos, algo emerge em nosso horário mental , e reconsideramos as coisas literais uma vez aprendidas durante a fase de nomear e aprender a falar como tendo uma distante referência deles mesmos. Nós espontaneamente crescemos em poesia. Isto torna possível falar sobre os aspectos do sagrado que pode ser apenas concebido metaforicamente. Se referir ao inefável aspecto do universo se torna uma possibilidade na ontogenisis da puberdade, quando os indivíduos normalmente são inculcados em um sistema religioso. Em outras palavras, utilizamos os primeiros doze anos acumulando o sentido, as referências, no qual podem ser usadas como uma base alegórica para representar em fala e arte o que não é literal, tangível, ou visível. Neste sentido cosmológico significa vir a ser entendido como algum tipo de uma analogia para a, mas não a mesma coisa, sociedade e o mundo familiar.

Eu não estou falando de escrever ou de palavras fixas. Poesia é diferente da prosa e de outros tipos de literaturas no que se significa ser falada, não como uma alta cultura solitária "literária", Poesia é  parcial a música. Nos deixa mais próximos do que nos afasta em nossa pequena e solitária célula.

Derrick Jensen: Como você interage com os outros? Como as árvores se expressão?

Paul Shepard: Elas são presenças. Recentemente visitei uma enorme árvore em Upper Biterroot a oeste de Montana. Eu tive uma profunda sensação de uma presença viva, assim como eu sinto entre as baleias ou elefantes. O mistério da diversidade - o fato de que existe uma abertura intransponível entre eu e o outro - é extremamente importante. Enquanto dividimos um lugar comum com qualquer criatura viva, e de modo especifico com o mundo não vivo, não é o chão que é necessariamente o mais interessante nem a maravilhosa qualidade de suas presenças.

Derrick Jensen: Eu tenho compreendido que relacionamento é responsabilidade, que se estende para o passado e futuro.

Paul Shepard: O problema é que os apologistas cristãos convencionais por responsabilidade expressam esta questão em termos de benevolência e caridade. O modelo para esta responsabilidade é a Arca de Noé. Arrogância em forma de amor. Seguindo este modelo, conseqüentemente tomamos controle de suas vidas. Com a idéia de que a vida do planeta é ameaçadora vem a idéia que de alguma maneira devemos controlar as criaturas. Por exemplo, colocamos essas criaturas em zoológicos para "protegê-los" da extinção. Isto parece meramente um outro modo de estabelecer um sistema autoritário no qual nos vemos como vice-reis de Deus em nossa superioridade sobre o resto da vida. A alternativa, é claro, é viver de uma maneira em que o resto da vida não seja ameaçadas.

Derrick Jensen: A responsabilidade que eu tenciono é próximo da linha de pensamento de R.D. Laing: "Amar deixa o outro ser, Mas com afeição e participação".

Paul Shepard: "Deixar ser" soa um pouco como meramente observar, o freqüentador de sinfonias. O que é importante é participar apropriadamente no mundo, limitar a nós mesmo, para reconhecer como uma parte do mundo, da cadeia alimentar. Temos uma longa história de interação com o resto da vida; devemos contar em abrigar parasitas em nossos corpos, em morrer, se tornar comida para outros, e aceitar a responsabilidade de comer outros e conseqüentemente matar para sustentar nossas vidas.

Precisamos ter confiança em nós mesmos como organismos, nem mestres, nem meros observadores. Acreditar em nós mesmos como naturais é decisivo, porque apenas entraremos no total sistema social e cultural humano através do consentimento com a afirmação do que significa ser um organismo.

Derrick Jensen: O que significa ser um organismo?

Paul Shepard: Significa aceitar o mundo como um presente, e não produzido, um mundo de limites, eventualidades, a cortês disposição da realidade sacramental da morte. Por mais que nos orgulhamos em coisas magníficas que os humanos fizeram e fazem, O critério final pelo qual a criação humana será julgada é a extensão que eles estão ressoando com o mundo natural, do qual os humanos são parte.
Apenas começamos a descobrir o que significa ser um organismo em um planeta tão pequeno, do qual não temos escapatória, nem alternativa.

tradução: Erva Daninha - iniciativa anti-civilização

Notas de tradução:
1 - Forest Service (serviço florestal) é uma agência do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos - USDA.
2 - "Foretry schools" são universidades ou escolas voltadas para questões ecológicas.